O treino que viralizou: por que o pescoço de um piloto de Fórmula 1 parece fora do normal
O vídeo de Bortoleto despertou a curiosidade dos fãs, mas é apenas uma parte da preparação física exigida na categoria
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O treino de pescoço publicado por Gabriel Bortoleto viralizou nas redes sociais e deixou muita gente intrigada. Confesso que também parei para assistir a mais de uma vez. Afinal, para quem olha de fora, aqueles movimentos parecem exagerados.
Mas bastaram alguns minutos de conversa com um preparador físico para entender que, na Fórmula 1, o pescoço é apenas a ponta do iceberg.
Ao contrário do que muita gente imagina, pilotar um carro de Fórmula 1 está longe de ser apenas “sentar e acelerar”. Durante uma corrida, o corpo do piloto é submetido a freadas violentas, acelerações bruscas, curvas de alta velocidade e forças que podem chegar a 4,5 vezes a gravidade. Ao mesmo tempo, ele precisa manter a cabeça estável, controlar o carro com precisão milimétrica e tomar decisões em frações de segundo.
“Todo o treinamento é desenhado para as necessidades que o carro impõe. O piloto é constantemente lançado para frente, para trás e para os lados, mas precisa manter o corpo firme e a cabeça estável para enxergar exatamente o ponto onde quer colocar o carro”, explica o preparador físico Vanderlei Pereira, que possui mais de 30 anos de experiência com diversos pilotos brasileiros como Rubens Barrichello, Felipe Massa, Lucas Di Grassi, Rafael Câmara, entre outros.
Quem acompanha a categoria costuma ouvir que piloto de Fórmula 1 é atleta. Mas só quando entendemos o que acontece dentro do cockpit, essa frase realmente faz sentido.
Muito além do volante
A primeira surpresa é descobrir que boa parte do treino não é tão diferente do que se vê em uma academia. Exercícios para peito, ombros, pernas e costas fazem parte da rotina, assim como corrida, ciclismo e musculação.
A diferença está na forma como tudo isso é aplicado: “O treino pode até lembrar o de uma pessoa comum, mas é adaptado para reproduzir os esforços que o piloto enfrenta dentro do carro”, explica o especialista.
Enquanto um praticante de academia busca hipertrofia, emagrecimento ou condicionamento físico, o piloto precisa desenvolver força isométrica, estabilidade do tronco, resistência muscular e capacidade cardiovascular suficientes para suportar quase duas horas de corrida.
Isso significa preparar o corpo para resistir às forças que empurram o piloto para frente nas freadas, para trás nas acelerações e para os lados durante as curvas, tudo isso sem perder a precisão dos movimentos.
Cada curva exige uma contração intensa da musculatura do tronco, dos ombros, dos braços e, principalmente, do pescoço. Em muitos momentos, o piloto precisa fazer tanta força para manter a estabilidade que chega a prender a respiração por alguns segundos.
“O corpo é lançado o tempo inteiro. Se a cabeça acompanhar esse movimento, o piloto perde a referência visual da curva. Por isso, ele precisa manter o pescoço firme enquanto o restante do corpo sofre a ação das forças G”, contextualiza Vanderlei.
Esse processo se repete curva após curva.
Em um circuito como Interlagos, são dezenas de curvas por volta. Multiplique isso por 60 ou 70 voltas e fica mais fácil entender por que a resistência física é tão importante quanto a habilidade ao volante.
O pescoço é o verdadeiro protagonista
Foi justamente essa região do corpo que chamou atenção no vídeo de Bortoleto.
E não por acaso.
“O pescoço é uma musculatura extremamente negligenciada pelas pessoas. A cabeça pesa cerca de seis quilos. Durante uma curva de alta velocidade, esse peso aumenta várias vezes por causa da força G”, diz Pereira.
Em algumas curvas de Interlagos, por exemplo, os pilotos chegam a enfrentar 4,5 G. Na prática, isso significa que cabeça e capacete podem exercer uma carga próxima de 50 quilos sobre a musculatura cervical.
Mesmo para pilotos profissionais, não é simples: “Em algumas pistas, eles usam apoios laterais no cockpit porque nem sempre conseguem sustentar o pescoço durante toda a corrida.”
Depois dessa explicação, ficou fácil entender por que justamente os exercícios de pescoço chamaram tanta atenção nas redes sociais. Eles parecem diferentes para quem frequenta a academia, mas fazem todo sentido para quem precisa enfrentar forças que poucas pessoas experimentarão na vida.
Calor de até 50°C dentro do cockpit
Como se não bastasse o esforço muscular, ainda existe um adversário invisível: o calor. Motores, freios, pneus e sistemas elétricos elevam a temperatura dentro do carro, que pode ultrapassar os 50°C, dependendo das condições da prova.
“O piloto pode perder de dois a três quilos durante uma corrida. Por isso existe toda uma estratégia de hidratação, reposição de eletrólitos e até protocolos com sauna para preparar o organismo para competir em altas temperaturas”, revela o preparador físico.
Hoje, quando a temperatura ambiente ultrapassa determinado limite, o regulamento prevê até sistemas de resfriamento para ajudar na termorregulação do corpo.
Uma pessoa comum conseguiria fazer esse treino?
A resposta é: em partes.
Segundo o especialista, muitos exercícios utilizados pelos pilotos podem, sim, ser incorporados por praticantes de atividade física. Corrida, musculação, exercícios de core e até treinos intervalados fazem parte tanto da rotina de atletas quanto de pessoas comuns.
O que muda é a intensidade e, principalmente, a especificidade: “Uma pessoa pode fazer vários dos exercícios usados pelos pilotos, mas dificilmente conseguiria suportar as forças que existem dentro de um carro de Fórmula 1. O pescoço seria um dos primeiros pontos a falhar”, explica Vanderlei Pereira.
Ele faz uma comparação interessante: “É como colocar um piloto para correr uma maratona ou um maratonista dentro de um carro de Fórmula 1. Ambos são atletas de alto rendimento, mas cada modalidade exige uma preparação extremamente específica.”
No fim das contas, o condicionamento físico representa apenas uma parte da performance.
“O físico funciona como uma base para que o piloto consiga aplicar sua técnica, seu talento e administrar o equipamento. O carro ainda faz muita diferença, mas sem preparação física, ele não consegue extrair todo esse potencial.”
Depois dessa conversa, ficou difícil assistir a um Grande Prêmio da mesma forma. Da próxima vez que Bortoleto, Verstappen ou Hamilton mergulharem em uma sequência de curvas, talvez a atenção não fique apenas no carro.
Porque, na Fórmula 1, antes mesmo de disputar décimos de segundo na pista, o piloto precisa vencer uma corrida silenciosa contra o próprio corpo.
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