Verstappen alerta, e F1 chega a Madri sob tensão: ‘Pista não é fácil’
Novo circuito espanhol combina curvas de alta velocidade, muros próximos e a inclinada curva La Monumental

A Fórmula 1 gosta do desconhecido. E o Grande Prêmio da Espanha deste fim de semana leva essa característica a outro nível: pela primeira vez, os pilotos vão disputar uma corrida no Madring, novo circuito construído em Madri que mistura trechos urbanos e setores permanentes.
São 5,4 km de pista e 22 curvas, com mudanças de direção, trechos de alta velocidade, zebras agressivas e muros próximos. Mas existe um ponto que já roubou a cena antes mesmo de o primeiro carro de Fórmula 1 completar uma volta competitiva: a curva 12, batizada de La Monumental.
Com cerca de 550 metros e peralte de até 24%, ela é a curva inclinada mais longa do calendário da F1. E não é apenas a sensação de estar dentro de um carro passando por uma curva inclinada que chama atenção. A geometria do trecho impõe cargas diferentes sobre pneus, suspensão e também sobre componentes internos dos motores.
É aí que, entre curvas, a curiosidade dá lugar à preocupação.
Uma pista que ninguém conhece de verdade
É verdade que os pilotos já deram muitas voltas no Madring mas, em grande parte, virtualmente. Simuladores foram fundamentais para que as equipes começassem a entender um circuito que ainda não tem histórico de corrida na principal categoria do automobilismo mundial.
Carlos Sainz, piloto da casa e embaixador do circuito, foi o primeiro piloto de F1 a completar uma volta no traçado, ainda em um carro de rua, quando a pista estava em construção. Na época, chamou o circuito de “sinceramente impressionante” e destacou que não esperava encontrá-lo “tão fluido, tão largo”.
Agora, com um carro de F1, a história será outra.
Fernando Alonso, que também terá uma corrida especial diante da torcida espanhola, resumiu o desafio de maneira direta: “É uma pista nova, o que representa um desafio adicional para todos, que precisam aprender a pista o mais rápido possível nos treinos livres.”
O espanhol também destacou a combinação de características do traçado: curvas de baixa e alta velocidade, passagens próximas aos muros e grande utilização das zebras.
La Monumental: a curva que virou protagonista
Se existe um trecho capaz de definir a personalidade do Madring, é a La Monumental.
Simulações indicam que os carros poderão passar pelo trecho em aceleração máxima durante vários segundos, submetendo pneus e componentes a cargas laterais elevadas.
E os problemas potenciais não terminam na aderência. A Honda identificou uma preocupação específica: o sistema de lubrificação dos motores.
Shintaro Orihara, gerente-geral e engenheiro-chefe de pista da Honda, explicou que as forças laterais e verticais provocadas pela curva representam um desafio para o sistema responsável por manter o óleo circulando adequadamente no motor: “É bastante desafiadora e interessante”, afirmou o engenheiro.
Segundo ele, a tendência inicial é trabalhar com uma configuração mais conservadora e aumentar gradualmente as margens de segurança conforme as equipes entendam o comportamento do carro na pista.
É um detalhe técnico que talvez passe despercebido para quem acompanha apenas a disputa por posições, mas que mostra como uma única curva pode interferir no desempenho de um carro inteiro.
Um alerta antes mesmo da F1
O primeiro grande aviso sobre o comportamento do Madring veio antes da chegada da categoria principal.
Um teste da Fórmula 3 realizado recentemente no circuito terminou com 19 bandeiras vermelhas, sendo 11 delas provocadas por contatos com barreiras.
O número chamou atenção no paddock.
Mas é importante fazer uma ressalva: um teste de F3 não permite simplesmente concluir que a pista será perigosa para a Fórmula 1. Os carros, pneus, velocidades e características técnicas são diferentes. Além disso, ajustes foram feitos no circuito depois dos testes.
O engenheiro-chefe de pista da Aston Martin, Mike Krack, foi cauteloso ao comentar os incidentes: “Acho que está claro que houve muitos incidentes na Fórmula 3, mas as coisas mudaram desde então.”
A Aston Martin, assim como as demais equipes, analisou os dados da F3 para tentar chegar a Madri com o máximo possível de informação.
E isso diz muito sobre o desafio. Quando ninguém tem experiência real em uma pista, qualquer dado vira vantagem.
Verstappen acende o alerta
Se os testes da Fórmula 3 já haviam deixado um sinal amarelo, a avaliação de Max Verstappen acrescentou ainda mais tensão à estreia do Madring.
O tetracampeão mundial experimentou o novo traçado no simulador da Red Bull e não escondeu a preocupação com a combinação de velocidade, curvas difíceis e barreiras próximas.
“Acho que vai ser muito difícil. Não é uma pista fácil e também tem uma tendência a provocar grandes batidas em alguns lugares”, afirmou Verstappen.
O piloto da Red Bull comparou a sensação de pilotar no Madring com a de Jeddah, outro circuito de rua conhecido pela alta velocidade e pela proximidade dos muros: “Lembra um pouco Jeddah, com curvas rápidas e os muros muito próximos.”
A comparação não é trivial. Em Madri, um pequeno erro pode custar caro, principalmente nos trechos de alta velocidade. E, como os pilotos ainda não têm experiência real de corrida no circuito, encontrar o limite será parte do desafio.
Verstappen também chamou atenção para outro problema: algumas zonas de frenagem são inclinadas, o que pode dificultar as ultrapassagens e obrigar o piloto a frear enquanto já está esterçando o volante.
É uma combinação que torna o primeiro fim de semana do Madring ainda mais imprevisível: os pilotos precisam descobrir os limites da pista ao mesmo tempo em que tentam não ultrapassá-los.
George Russell seguiu na mesma linha e resumiu o sentimento de quem ainda está tentando descobrir os limites do novo circuito: “Para ser sincero, parece uma pista selvagem.”
O britânico também destacou a importância da confiança, especialmente nas curvas de alta velocidade e nos trechos com zebras agressivas.
E existe um detalhe que pode tornar a classificação ainda mais importante: o Madring não parece ser uma pista em que ultrapassar será simples. A combinação de traçado técnico e características de algumas curvas pode fazer com que ganhar posições no domingo dependa muito do que cada piloto conseguir construir no sábado.
Entre curvas, uma incógnita
Confesso que é justamente esse aspecto que mais me chama atenção no Madring.
Em uma temporada em que já estamos acostumados a comparar tempos, estratégias, degradação de pneus e desempenho de carros que conhecemos desde o início do campeonato, Madri chega como uma espécie de página em branco.
E, para mim, isso é uma das coisas mais interessantes da Fórmula 1.
Entre curvas, há sempre uma história sendo construída. Mas, neste fim de semana, até os protagonistas ainda não sabem exatamente qual será a história do Madring.
A pista foi desenhada para ser rápida, técnica e diferente. Agora falta descobrir o que acontece quando os carros de F1 finalmente forem levados ao limite.
Porque uma coisa é conhecer uma pista no simulador. Outra é passar pela La Monumental a mais de 300 km/h, com forças enormes atuando sobre o carro, sabendo que o muro está ali.
E é justamente nessa diferença entre imaginar e experimentar que o novo Grande Prêmio de Madri pode entregar um dos fins de semana mais imprevisíveis da temporada.
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