Fluminense sem plano de saúde. Um brinde ao fracasso do Profut
R$ 4 bilhões de dinheiro público não adiantaram. Os clubes seguem cada vez mais atolados em dívidas. Situação que só beneficia a CBF
Cosme Rímoli|Do R7 e Cosme Rímoli

São Paulo, Brasil
"Artigo 18-O Clube que, por período igual ou superior a 30 (trinta) dias, estiver em atraso com o pagamento de remuneração, devida única e exclusivamente durante a competição, conforme pactuado em Contrato Especial de Trabalho Desportivo.
"O atleta profissional registrado, ficará sujeito à perda de 3 (três) pontos por partida a ser disputada, depois de reconhecida a mora e o inadimplemento por decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).
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Parágrafo 1º - Ocorrendo atraso, caberá ao atleta prejudicado, pessoalmente ou representado por advogado constituído com poderes específicos ou, ainda, por entidade sindical representativa de categoria profissional, formalizar comunicação escrita ao STJD, a partir do início até 30 (trinta) dias contados do encerramento da competição, sem prejuízo da possibilidade de ajuizamento de reclamação trabalhista, caso a medida desportiva não surta efeito e o clube permaneça inadimplente.
Parágrafo 2º - Comprovado ser o Clube devedor, conforme previsto no caput deste artigo, cabe ao STJD conceder um prazo mínimo de 15 (quinze) dias para que o Clube inadimplente cumpra suas obrigações financeiras em atraso, de modo a evitar a aplicação da sanção de perda de pontos por partida."
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Esses são os principais itens do Fair Play Trabalhista, votado e aprovado em congresso da CBF, no dia 9 de março de 2016. Quem comandou as ações foi o então diretor financeiro da entidade, Rogério Caboclo.
"O desejo de todas as partes é que os clubes paguem em dia e não haja necessidade de punição. Se tivermos poucas ou nenhuma condenação, não significa que o Fair Play Trabalhista deu errado.
"O pagamento em dia é o verdadeiro sucesso da lei. Ninguém pretende ver clubes sendo rebaixados ou excluídos de competição por motivos que extrapolem o campo de jogo. Embora isso possa ocorrer, naturalmente, em casos extremos", disse, em entrevista coletiva.
A lei passou a valer para os clubes que disputam o Brasileiro nas séries A, B e C.
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O Fair Play Financeiro da CBF foi 'inspirado' no que a Federação Paulista fez naquele ano.
Na verdade, era as confirmações do que a então presidente Dilma Rousseff havia sancionado, com o Profut, no dia 4 de agosto de 2015. Em termos simples, o clube que não pagasse em dia acabaria punido, perderia pontos, poderia ser rebaixado de divisão.
Houve festa, promessa, comemoração.

O futebol brasileiro viveria uma nova fase de respeito profissional. Seria exemplo para todo o país.
Além de outras contrapartidas, Dilma exigia que cada clube que aderisse criasse uma equipe de futebol feminina.
O Bom Senso Futebol Clube assumia ar de vitória, com seus líderes posando para fotos com a presidente.
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A balela foi denunciada pelo blog, na época.
Os clubes conseguiram o que queriam.
E Dilma tomou uma atitude populista, usou o dinheiro público como demagogia. Fez com que R$ 4 bilhões de dívidas trabalhistas e impostos que os clubes deviam ao governo fossem divididos em 20 anos.
O que nunca aconteceria com um cidadão comum. Inúmeras empresas faliram porque não tiveram suas dívidas parceladas. Pessoas seguiram tendo seus bens indo para leilões. Só o futebol teve direito à farra com o dinheiro público. Mesmo com o país atolado na recessão.
A esmagadora maioria dos dirigentes brasileiros aderiu ao plano correndo. E declarou que haveria nova realidade no esporte do país. Os clubes, com essa facilidade, se fortaleceriam. Os talentos ficariam por aqui, o nível do futebol melhoraria. O que seria ótimo para a população e para a Seleção Brasileira.
Em janeiro de 2016 foi criada a Autoridade Pública de Governança do Futebol para a fiscalização do Profut.
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"Ela será a instância fiscalizadora do Profut, garantindo a efetiva modernização da gestão. Assim acompanharemos com rigor e transparência o cumprimento das contrapartidas assumidas pelos clubes", prometia Dilma, onze meses antes de sofrer o impeachment e não ser mais presidente.
E tudo mudou de vez em agosto de 2017.
A bancada da bola trabalhou forte e conseguiu junto ao STF, Supremo Tribunal Federal de Brasília, o fim dos pontos principais das contrapartidas exigidas por Dilma.

Acabou a obrigatoriedade de os clubes regularizarem suas situações fiscais e trabalhistas e muito menos a condenação ao rebaixamento a quem devesse para os atletas ou não estivesse em dia com os impostos federais.
"Decisão justa e fundamentada que protege a Constituição Federal e respeita o futebol, os clubes e o torcedor brasileiro que tem o direito de ver as competições resolvidas exclusivamente dentro do campo de jogo", declarou o mesmo Rogério Caboclo, que já tinha novo cargo, diretor executivo da CBF.
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Um ano depois, Caboclo já é o presidente eleito da entidade. Embora vá assumir apenas em abril de 2019, já se tornou a pessoa que comanda a CBF.
E está acompanhando que a situação do futebol brasileiro está voltando para antes de 2015. Com os clubes voltando a aumentar suas dívidas, vivendo em regime pré-falimentar. Os jogadores indo embora cada vez mais cedo para o Exterior. O nível técnico do futebol brasileiro cada vez pior.
Os R$ 4 bilhões divididos em 20 anos não fizeram diferença.
A incompetência, irresponsabilidade e falta de transparência na maioria das gestões dos clubes seguem envergonhando o país.
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O novo exemplo é chocante.
O Fluminense.
As dívidas do clube em 2017 chegaram a R$ 631 milhões. Neste ano, já se aproxima de R$ 700 milhões. Fosse uma empresa, já estaria fechada.
Há credores de todos os tipos. Desde a concessionária do Maracanã, passando por empresa de limpeza, funcionários do clube.
E, lógico, jogadores de futebol.
São dois meses de atraso nos salários. E está chegando a três meses a falta de pagamento de direito de imagem.
Só que o irônico está no plano de saúde.
O clube teve por 15 anos o patrocínio milionário da Unimed.
Entre 1999 e 2014, a empresa de saúde investiu centenas de milhões no clube.
O dinheiro trouxe os títulos: três Cariocas (2002, 2005 e 2012), uma Copa do Brasil (2007) e dois Brasileiros (2010 e 2012), além da Série C (1999).
Mas não houve legado algum.
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E agora, quatro anos depois da saída da empresa, a gestão do Fluminense assume. Cortou o pagamento dos planos de saúde dos funcionários e dos jogadores.
É um vexame que representa de vez o fracasso do Profut.
A CBF se cala.
E até brigou para que essa situação vexatória seguisse.
Porque não interessa a mudança, a transformação dos clubes em empresas.
É ótimo que eles continuem cada vez mais fracos.
Seguem dependentes.
O poder no futebol deste país segue nas mãos da CBF e de Federações. Entidades que deveriam apenas ser responsáveis pelo registro dos jogadores.
Se os clubes passarem a ser empresas de capital aberto, com donos e não feudos de conselheiros, de famílias, tudo mudaria. Principalmente na autonomia. Como acontece, por exemplo, na Inglaterra.

Por isso prevalece o interesse nos clubes atolados em dívidas.
Os grandes jamais vão fechar as portas.
Seguirão capengando, dependendo de mecenas, de farra com o dinheiro público.
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Enquanto isso, o clube que já foi um dia o sinônimo da Unimed, cortou o plano de saúde de seus jogadores e funcionários.
Nada fora do normal.
Só resta esperar o novo presidente.
Quem sabe ele não proponha um novo Profut?
E os jogadores não criem um novo Bom Senso FC?
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