Sofrimento extremo. Virada no último minuto dos acréscimos. Com gol de herói improvável. E muitas lições
O Brasil teve de lutar muito. Contra o Japão, contra seus nervos e contra a falta de criatividade. Mas conseguiu uma virada épica, aos 51 minutos do segundo tempo, com gol de Martinelli. Mas está nas oitavas. Enfrentará o vencedor de Noruega e Costa Rica. A Seleção terá de melhorar muito, se quiser chegar às quartas. Neymar não entrou um minuto sequer
Houston, Estados Unidos.
Vitória suada, tensa, de uma equipe que padeceu de criatividade.
O Brasil travou diante da esperada retranca japonesa. Tomou o primeiro gol em um péssimo primeiro tempo.
E, no segundo, apelou para o excesso de cruzamento. Casemiro empatou e, aos 51 minutos, Bruno Guimarães encontrou Martinelli, que bateu cruzado e venceu o ótimo goleiro Suzuki.
Ancelotti terá de trabalhar muito o meio-campo. Paquetá teve atuação assustadoramente ruim.
O time também não consegue triangulações pelas laterais. Danilo quase sabota a Seleção, com passe infantil que permitiu ao Japão fazer 1 a 0.
A virada veio no sufoco.
Como o R7 havia antecipado, com a mesma equipe que havia vencido a Escócia. Ancelotti adorou a movimentação do ataque e, principalmente, a marcação por pressão na saída de bola adversária.
Além disso, havia a grande preocupação com a recomposição; assim que o Brasil perdesse a bola, todo o ataque tinha de fechar a intermediária. Proibir que os japoneses usassem seu maior trunfo: a velocidade.
Apesar dos 35 graus em Houston, a climatização do estádio NRG garantia 20 graus no gramado. O teto retrátil evita o sol escaldante. A arena é usada pelo Houston Dynamo, equipe do atacante Guilherme, ex-Santos.
Ancelotti não blefou quando disse que iria pensar como marcar a saída de bola japonesa. Ele decidiu dosar. Não obrigar os brasileiros a marcarem por pressão o tempo todo. Ele resolveu pedir para que alternassem o ritmo. Para evitar o desgaste físico excessivo no primeiro tempo.
Os japoneses entraram mais fechados, com grande sincronia de movimento, fechavam as intermediárias. E compactos se atreviam a descer em bloco para o ataque. Também estavam atentos à saída de bola brasileira.
Vinicius Júnior tinha atenção redobrada por Tomiyasu e Taniguchi. Os demais jogadores brasileiros eram marcados por setor.
O Brasil procurava trocar passes, mas faltavam dribles, triangulações pelas pontas. Douglas Santos e, principalmente, Danilo não davam o apoio necessário a Vinicius Júnior e Rayan.
Matheus Cunha se desdobrava no meio, buscando tabelas. Mas Bruno Guimarães e Paquetá se mostravam burocráticos demais, carimbadores de bola. Não mostravam ousadia para surpreender as duas nítidas linhas de marcação japonesa, de cinco e quatro jogadores.
Matheus Cunha conseguiu um bom chute que Suzuki defende aos 18 minutos.
A lentidão da Seleção se misturava com insegurança. A parada para hidratação nada melhorou. Pelo contrário, piorou. Os japoneses ganharam confiança, adiantaram suas linhas.
E o pior aconteceu.
Danilo, como um juvenil, decidiu virar o jogo sem olhar. Seu amalucado passe foi perfeito para Sano. O meio-campista encontrou toda a defesa brasileira aberta, porque os zagueiros estavam saindo para a frente, quando Danilo errou.
Sano teve como dominar a bola e bater muito forte, vencendo Alisson.
Gol do Japão, aos 28 minutos do primeiro tempo.
O gol implodiu a confiança dos brasileiros. Até por Danilo ser um dos lideres da Seleção, com seus 34 anos.
As discussões entre os jogadores começaram. Casemiro, Vinicius Júnior, Bruno Guimarães eram os mais à flor da pele.
A torcida brasileira, aqui no estádio, sentia a insegurança da Seleção. E fazia a pior coisa, se calava. Permitia que os japoneses com bumbos faziam a festa.
Parecia que a partida estava sendo disputada em Tóquio.
Os japoneses, confiantes, vibravam, ganhavam as divididas. Era assustador a fragilidade emocional da Seleção.
Ninguém se mostrava capaz de dar um único drible. Apenas tocavam a bola para o lado, facilitando a marcação compacta oriental.
E falta de opções táticas. E técnicas.
O mais desesperado era Vinicius Júnior, já que a bola não chegava aos seus pés.
A monotonia, a falta de criatividade brasileira era excelente para o Japão, que conseguiu diminuir o ritmo de jogo. E conseguiu terminar o primeiro tempo com a merecida vantagem.
E só surpreendente para quem não viu o jogo.
Carlo Ancelotti teria de agir no intervalo.
A Seleção Brasileira estava sendo dominada.
Ancelotti buscou duas soluções. Primeiro, tirar Paquetá do jogo, completamente perdido, improdutivo, de inutilidade incompreensível.
Colocou a explosão, a vontade e a gana de Endrick. O garoto de 19 anos passaria a ser referência no meio do ataque. E Matheus Cunha jogaria como meia.
E o Brasil adiantaria as suas linhas.
A ordem era acabar com pasmaceira, a lerdeza e atacar. Evitar a eliminação precoce, vexatória.
A virada de chave atingiu a torcida brasileira, que também acordou com o time.
Era outro jogo.
A pressão era inacreditável, insuportável.
Os japoneses se seguravam como podiam.
Bruno Guimarães obrigou o goleiro Suzuki a uma defesa sensacional.
O Brasil passou a apelar para cruzamentos laterais, com seus jogadores mais fortes fisicamente que os japoneses.
Principalmente Casemiro.
Vieram dois lances. No primeiro, aos oito minutos, Tomiyasu salvou sua cabeçada, em cima da linha.
Mas aos nove minutos não houve jeito. O cruzamento de Gabriel Magalhães, da esquerda, foi na segunda trave, onde Casemiro estava, em jogada mais do que ensaiada. A cabeçada foi para o fundo do gol do Japão.
1 a 1.
O Brasil acordara.
Vinicius Júnior quase vira o jogo, depois de uma jogada sensacional. Ele arrancou, driblou dois marcadores e deu de bico na bola. O goleiro Suzuki espalmou e ela beijou a trave.
Ancelotti decidiu apostar na verticalidade de Martinelli, tirando Matheus Cunha, deixando Vinicius Júnior e Endrick.
Queria virar o jogo, evitar a prorrogação, a qualquer custo.
O time insistia em cruzamentos, faltava criatividade.
Era só Vinicius Júnior quem tentava os dribles.
A partida caminhava para a prorrogação, quando, aos 96 minutos, Bruno Guimarães descobriu Martinelli na área japonesa. O chute saiu cruzado, chorado. Bateu na trave e entrou.
Brasil com muiito sofrimento, nas oitavas de final.
Ficam muitas lições...












