Silvio Lancellotti Os halteres se juntam ao Judô e à Natação para dourar o Brasil

Os halteres se juntam ao Judô e à Natação para dourar o Brasil

No domingo, 29, no Japão, o País subiu quatro vezes ao topo do pódio. Agora, faltam três medalhas para atingir a sua centésima na História do evento. E foi um domingo, também, de três bronzes.

Mariana D'Andrea, do Levantamento de Pesos

Mariana D'Andrea, do Levantamento de Pesos

@cpboficial

Coisa burlesca escrever sobre fatos e circunstâncias que acontecem num Hoje que já se tornou Amanhã. Ou sobre um episódio que ocorre agora mas carrega o sobrenome relacionado com o ano anterior. Caso de um evento como os atuais Jogos Paralímpicos batizados de Tóquio/2020. Durante a noite do Brasil se desenrolam as eliminatórias que o Japão acompanha na manhã seguinte. As finais se realizam na noite de lá, manhã daqui.

As gêmas Bia e Débora, na Natação

As gêmas Bia e Débora, na Natação

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Tergiverso apenas para dizer que nesta noite de sábado, 28 de Agosto no Brasil, já o domingo 29 no Japão, seis garotas e oito rapazes lutaram por vagas em sete provas diferentes da Natação. Oito dos catorze conseguiram o privilégio de disputar as finais no que seria o crepúsculo no Oriente. Três rapazes: João Pedro Brutos de Oliveira nos 100m Peito SB14 de deficientes intelectuais; Gabriel dos Santos Araújo e Bruno Becker da Silva nos 200m Livre S2 para os deficientes físicos de comprometimento elevado. E cinco garotas: nos 100m Peito da mesma SB14, as gêmeas Débora e Beatriz Carneiro; nos 50m Costas S3 para deficientes físicos de comprometimento elevado, Edênia Garcia e Maiara Pereira Barreto; nos 50 Livre S13 para deficientes intelectuais, Maria Carolina Santiago. As gêmeas e Carol com chance de pódio. Ah, mas como haveria surpresas na jornada...

Renê Campos Pereira, do Remo

Renê Campos Pereira, do Remo

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Por exemplo, saiu para o País, num horário de fronteira, perto da meia-noite por aqui, no finzinho do dia 28 e já quase no 29 de ambos, uma medalha de bronze preciosa e relevante em diversos departamentos. Saiu no Remo, e para um médico de 41 anos de idade, formado na escola de Saúde Pública de Salvador, Renê Campos Pereira, um baiano de Itapetininga, especialista em Ortopedia. Dores estranhas nas costas, em 2006, o compeliram a um exame no próprio hospital em que dava plantões. O diagnóstico: um abcesso epidural, na parte lombar da sua coluna, que provocou uma compressão incurável de vértebras. Já um praticante de várias modalidades, com passagens até pelo Futebol juvenil do Bahia, Renê perdeu o movimento das pernas, tentou a Natação, mas optou pelo Remo. No Rio, em 2016, ficou na sexta posição da contenda dos “Single Sculls”, 2.000 metros. Nestes Jogos, depois de permanecer na quarta colocação durante mais de 3/4 da distância, graças a uma empolgante arrancada conseguiu arrebatar seu galardão.

O quadro do triunfo de Mariana D1Andrea

O quadro do triunfo de Mariana D1Andrea

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Muito melhor, pouco depois do bronze de Renê saiu um ouro, até então o único do já domingo. No Levantamento de Pesos, categoria até 73kg, a ituana Mariana D’Andrea, 35 de idade, nascida com acondroplasia, o nome técnico para nanismo, devastou a favoritíssima chinesa Lili Xu, que se considerava segura depois de alçar 134kg, ou mil gramas além do seu recorde pessoal e a melhor marca de todas as nove disputantes. Mari, que detinha 130kg como o seu recorde pessoal, audaciosa pediu que se montasse o seu equipamento com 137. Bingo! Conseguiu. Lili, para vencer, necessitava de um resultado limpo com 138kg. Porém, dobrou os braços e, desalentadamente derrotada, derrubou os halteres no chão.

Meg Emmerich

Meg Emmerich

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Outro Esporte com medalhas à vista foi o Judô. Quatro atletas, duas mulheres e dois homens, transpiraram nos tatames. Um potiguar de Natal, Arthur Cavalcanti da Silva, 29 de idade, da categoria até 90kg, aos dois anos foi diagnosticado com retinite pigmentosa e aos catorze perdeu totalmente a visão. Batalhou pelo bronze com Oleksansdr Nazarenko, da Ucrânia. Mas um ippon, a 11” do encerramento do combate, lhe consumiu o sonho. O antológico Antonio Tenório da Silva, 51, paulista de São José do Rio Preto/SP, até 90kg, cego do olho esquerdo desde os 13, conseqüência de uma brincadeira boba com estilingues e com sementes de mamona, ouro em Atlanta, Sydney, Atenas e Pequim, daí prata em Londres e no Rio, brigou pelo bronze com Sharif Kalilov do Uzbequistão. Levou um waza-ari logo no começo da porfia, igualou o placar praticamente no encerramento do tempo regular, mas acabou por sofrer um novo waza-ari no equivalente a uma prorrogação.

Alana Maldonado

Alana Maldonado

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Haveria porém, Meg Emmerich, uma paulistana de 35 de idade, da turma acima dos 70kg, nascida com o nervo ótico atrofiado, que batalhou pelo bronze com Nyamaa Altantsetseg da Mongólia, e lhe aplicou um maravilhoso ippon com  1’22” de luta. E haveria, admiravelmente, a primeira judoca brasileira a biscoitar um ouro em Jogos Paralímpicos, Alana Martins Maldonado, uma paulista de Tupã, 26 de idade, que aos 14 foi diagnosticada com a Doença de Stargardt, de raiz hereditária, uma distrofia macular que começa por tornar impossível a percepção das cores e dos detalhes. Já a líder do ranking mundial da categoria até 70kg, brigou pelo ouro com Ina Kaldani, da Georgia, e não concedeu, sequer, uma oportunidade de pensar en título. Venceu com um imponente waza-ari a 1’44.

Carol Santiago

Carol Santiago

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No retorno da Natação, Brutos foi o sexto na sua prova. Edenia lastimou a oitava e última colocação enquanto Maiara, quadriplégica depois de um acidente de moto, foi a quarta nos 50m Costas da S13. Na disputa familiar das gêmeas, por dois centésimos Beatriz levou o bronze e Débora ficou com a quarta posição, ela que já tinha uma medalha da mesma cor graças ao Revezamento 4 X 100 Misto. Carol Santiago, todavia, confirmou ser a melhor da classe S12 nos 50m Livre. Aos 36 anos, a recifense que só percebe formas com o seu olho esquerdo e não dispõe de visão periférica no direito, já dona do bronze dos 100m Costas, cravou 26”82, novo recorde dos Jogos, e abiscoitou o ouro. Aliás, significativo, o primeiro ouro das moças na Natação desde o evento de Atenas, na Grécia, em 2014.

Gabrielzinho

Gabrielzinho

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Nascido com focomelia, uma condição que redundou no encurtamento das suas duas pernas e do braço direito, o curitibano poliglota, Bruno Becker, que tem um diploma de Marketing, foi o quarto nos 200m Livre, categoria S1, aquela destinada àqueles de máximo comprometimento físico. No entanto, Gabriel Geraldo dos Santos Araújo, o Gabrielzinho, mineiro de Santa Luzia, 19 anos, também nascido com fomielia, a quem os dois braços diminutos obrigam a bater na placa de virada e de chegada com a cabeça, já dono de uma prata nos 100 Costas, desta vez não permitiu que o chileno Alberto Abarza o superasse. Com o tempo de 4’06”52, muito, muito melhor do que os 4’24”32 das eliminatórias, devastou o rival, 4’17”14. As suas lágrimas no pódio, confesso, foram contagiantes. O décimo ouro do Brasil em Tóquio. Faltam apenas três para o País alcançar a centésima na História do evento. Quem sabe neste domingo daqui, que será segunda-feira de lá...


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