Silvio Lancellotti O balanço impressionista e muito pessoal dos Jogos de Tóquio/2020

O balanço impressionista e muito pessoal dos Jogos de Tóquio/2020

Propositadamente 48 horas depois do final do evento, um texto que não se preocupa em falar de números mas que reflete, apenas, sensações e emoções de um jornalista com 53 anos de profissão

Olimpismo, Daniel e Kipchoge na liderança da Maratona do Atletismo

Olimpismo, Daniel e Kipchoge na liderança da Maratona do Atletismo

Reprodução

Não perdi o meu pique. E muito menos estou atrasado. Foram 48 horas absolutamente propositais, de modo que passasse a ressaca de duas semanas de Jogos Olímpicos em um fuso invertido, e eu também sobrevivesse à inexorável crise de abstinência. Aprendi, em 53 anos de Jornalismo, que a análise efetiva de um evento tão intenso, crucial, como os Jogos, necessita de algum tempinho razoável de decantação. A respeito de números, de fatos, de especificidades, vários colegas mais competentes já discorreram com eficiência. Eu prefiro falar de sensações, de emoções, de empolgações. De maneira estritamente pessoal.

Ana Marcela e o peixinho

Ana Marcela e o peixinho

Jonne Roriz/COB

Por exemplo, a fotografia que encima este meu texto. Faz dias que eu me esforço para identificar o autor mas apenas descobri que foi publicada genericamente. O COI e a Mídia já elegeram, como a imagem da competição, aquela brilhantemente tirada por Jonne Roriz, enviado do COB, o peixinho que voa sobre a ainda não campeã Ana Marcela Cunha na prova da Maratona Aquática. Talvez raríssimos se recordem que fui eu, modestamente, o primeiro a destacá-la em meu artigo de 4 de Agosto, cá no R7. De fato, esplêndida. Todavia, não me tocou tanto como a linda expressão de euforia do brasileiro Daniel Ferreira do Nascimento ao se perceber na liderança da Maratona do Atletismo, bem ao lado do seu ídolo, Eliud Kipchoge, do Quênia. Daniel sucumbiria à exaustão, logo depois, enquanto Kipchoge conquistaria o ouro até com tranqüilidade. Entre o peixinho e o toque de punhos, entre a estética do Jonne e a ternura que emana de  Daniel & Kipchoge, optei pelo toque.

Laura e Luísa, a dupla de bronze do Tênis

Laura e Luísa, a dupla de bronze do Tênis

@TimeBrasil

Surpresa em Tóquio/2020? Aqui e acolá, por uma questão de composição de texto, utilizei tal palavra várias vezes no desenrolar do Dia-a-Dia dos Jogos. Um mero apelo à facilidade, porque não considero que o inesperado, ou a  sorte, ou o azar, sejam parâmetros dignos do julgamento de performances em competição tão extraordinária. No entanto, é inevitável lembrar o inesperado do bronze das meninas Luísa Stefani e Laura Pigossi, no Tênis, depois de um tiebreak de desempate que parecia perdido. Idem o Boxe/Pugilismo, que depende de abnegados e que levou ao ouro de Hebert Conceição, à prata de Bia Ferreira e ao bronze de Abner Teixeira. Em contrapartida, é impossível não lamentar a fase dolorosa de, perdão, decadência do Judô, apesar do bronze de Mayra Aguiar e de Daniel Cargnin. Ironia: do Judô saiu Paulo Wanderley, hoje o presidente do COB na melhor participação olímpica do País na História. Mas já faz anos que a modalidade anuncia a sua queda num poço sem fundo.

Hebert Conceição, ouro no Boxe

Hebert Conceição, ouro no Boxe

Miriam Jeske/COB

Rebeca Andrade não se abalou com a celeuma que envolveu o estresse da norte-americana Simone Biles, favoritérrima a tudo na Ginástica artística, e abiscoitou um ouro e uma prata. E no entanto, de novo perdão, patéticas todas as  modalidades coletivas do Brasil, apesar do ouro do Futebol dos rapazes e da prata do Voleibol das garotas. O Basquete à parte, pois nem se qualificou a viajar ao Japão, tombos lamentáveis do Handebol, o masculino e o feminino, do Rúgbi e do Futebol das meninas, sem dizer que o Voleibol dos varões se desmilinguiu na reta decisiva, o time rachado até por abomináveis declarações de teor político e homofóbico. Cafajestada semelhante só a cometida pela CBF, que compeliu o seu elenco campeão, na entrega das medalhas do Futebol, a embrulhar os agasalhos da Peak, a patrocinadora do COB, e se mostrar com as camisas da Nike, a sua fornecedora específica.

O Futebol do Brasil no pódio, Nike nas camisas e Peak ns calças

O Futebol do Brasil no pódio, Nike nas camisas e Peak ns calças

@TimeBrasil

A Peak rebateu a desfeita com um comunicado hilariante que diz mais ou menos assim: “Não passa de boato a informação de que a Peak é apenas uma marca secundária da Nike, daí a combinação, no pódio, das camisas da Nike e as calças da Peak...” Pois é: a CBF se esqueceu de determinar aos seus jogadores que vestissem as calças da Nike. E também se demonstrou sem paradeiro algum o depauperado Vôlei de Praia. Insolitamente, desde a sua introdução no programa dos Jogos, em Atlanta/1996, o Vôlei de Praia ficou longe do pódio. Resultado horroroso para um esporte que tinha se acostumado a, no mínimo, duas medalhas por edição. Foi uma lição para os seus praticantes, que não conseguem se manter unidos, não conseguem preservar as suas duplas e o imprescindível entrosamento, a ponto de serem comuns as queixas e os bate-bocas em pleno andar da partida.

Ítalo Ferreiro, o primeiro campeão do Surfe nos Jogos

Ítalo Ferreiro, o primeiro campeão do Surfe nos Jogos

Jonne Roriz/COB

Afortunadamente, contra essa obscuridade o Atletismo exibiu a airosa ressurreição de Thiago Braz no Salto com Vara, e ainda o surgimento de uma figura carismática como Alison dos Santos nos 400m com Barreiras, um talento natural de 23 anos que levou o bronze numa prova em que o seu tempo foi superior ao recorde mundial. Teve o quase do estóico Darlan Romani, que treinou em terrenos baldios para infelizmente empacar no honrosíssimo quarto lugar do Arremesso de Peso. E os chamados Esportes Jovens, que o COI introduziu no seu cardápio de forma a modernizar a sua relação de disputantes e, principalmente, o perfil da sua platéia, encantaram o País de uma maneira absolutamente inédita, inusitada. O ouro de Ítalo Ferreira no Surfe produziu até gritos futebolísticos de torcida em cada manobra bem feita. No Skate, as três pratas, Kelvin Hoefler, Pedro Barros e Rayssa Leal, unificaram famílias na platéia de um espetáculo de deliciosa plasticidade. Ela, a “Fadinha” Rayssa, imediatamente se transformou numa fonte de inspiração de mensagens nas “Redes Sociais”. Ela, a lúcida e incisiva Rayssa, incrível, a mais jovem medalhista de toda a História Olímpica desta pátria tão admirável na sua resistência às impunidades.

Rayssa Leal, a medalha mais jovem do Brasil na História Olímpica

Rayssa Leal, a medalha mais jovem do Brasil na História Olímpica

Wander Roberto/COB

As mulheres e as águas, aliás, representaram o sumo dos Jogos de Tóquio/2020 para o Brasil. As damas subiram ao pódio em nove das 21 vezes que levaram a medalhas. As águas produziram seis. Da Vela veio o bi de Martine Grael e Kahena Kunze – e Martine agora tem dois títulos como papai Torben. A Família Grael, nove medalhas: as de Martine; mais as duas de ouro, uma de prata e duas de bronze de Torben; e duas de bronze do tio Lars, o irmão caçula de Torben. Da Natação, o chefe-de-missão Renato Cordani soube como resgatar o máximo de sumo depois do desastre perpetrado pela gestão Coaracy Nunes, que até chegou a ser detido. A piscina calou de vez a tragédia do Rio/2016, pódio zero em casa, com duas medalhas de bronze, Fernando Scheffer/200m e Bruno Fratus/ 50m.

Ana Marcela e o "Chapolin" no Pan de Lima/2019

Ana Marcela e o "Chapolin" no Pan de Lima/2019

Arquivo Pessoal Gustavo Cardoso

E no oceano, no qual aconteceu o bi de ouro na Vela com Martine & Kahena, fulgurou a Canoagem, graças a um desfecho emocionante, de fato devastador, do baiano Isaquías Queiroz nos 1.000m.  No oceano mais que luziu a baiana Ana Marcela Cunha na Maratona Aquática, com um final igualmente empolgante, e arrasador, nos 10km. Inolvidável a cena que então se seguiu, o impacto de Ana Marcela ao tirar a sua touca: havia pintado os cabelos de auri-verde. Indiretamente, porém, a mesma Ana Marcela, claro que sem saber e sem qualquer intenção, simbolizou toda a melancolia que, num plano paralelo, envolveu os Jogos. Acuados pela pandemia da Covid-19, ao invés de 2020 ocorreram em 2021. E sem público. Numa das “Redes” fôra publicada uma foto sua com o mascote emblemático que os “Chapolins”, seguidores do Time Brasil desde o Pan de Guadalajara/2011, liderados pelo Dr. Rubens Tofolo, um endocrinologista de Belém/PA, costumam regalar aos atletas. Não houve “Chapolins” em Tóquio. Não houve jovialidade nas arquibancadas do Japão.

Rebeca Andrade, um ouro e uma prata na Ginástica Artística

Rebeca Andrade, um ouro e uma prata na Ginástica Artística

Miriam Jeske/COB

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