Não, por favor, o problema do "Timão" não está só no Carille

Depois da sua derrota grotesca para o Del Valle, o Corinthians necessita muito mais do re-acertar os conceitos táticos do seu, aliás ótimo, treinador

Corinthians 0 X 2 Del Valle

Corinthians 0 X 2 Del Valle

@sulamericana

Existem mais coisas entre o céu e a terra do que poderia imaginar a vã filosofia de um sonhador. Frase de Hamlet ao seu amigo Horácio, na obra de William Shakespeare (1564-1616). Guardadas as proporções, tal citação muito bem sugere a presente situação do Corinthians, que tem uma dívida ambulante entre os cerca de R$ 540 milhões com a Caixa Econômica Federal e os quase R$ 4 mil com uma fornecedora de marmitas de alimentação aos garotos das suas categorias de base. Parece inacreditável. 

O Corinthians que fantasiava abiscoitar um alívio de mais de R$ 30 milhões pelo título da Copa Sul-Americana. Que soçobrou em casa, por 0 X 2, diante do Independiente Del Valle do Equador. E que agora precisa de um milagre, no cotejo de retorno, quarta próxima, dia 25, nos 2.850m de altitude de Quito: marcar três tentos e não permitir que o rival faça além de um.

Nos penais, a eliminação do Racing da Argentina

Nos penais, a eliminação do Racing da Argentina

@sulamericana

Onde estaria, no caso, a vã filosofia do sonhador? Antes de mais nada, nos números. Ressurreições já houve nos 109 anos do “Timão”, ainda que não muitas neste 2019. Nos 57 jogos que disputou, em apenas 3 oportunidades o Corinthians obteve o placar de que agora necessita. Em 20 de Fevereiro, Copa do Brasil, 4 X 2 no Avenida/RS. Em 13 de Março, 3 X 1 no Ceará, pela mesma Copa. Daí, em 28 de Junho, 3 X 1 no Fortaleza, pelo Brasileiro.

Poderá sobreviver no Equador, todavia, caso replique os 2 X 0 e leve a decisão ao rude bingo dos penais, no qual preserva 100% de aproveitamento até aqui. Na Sul-Americana, em 27 de Fevereiro, despachou o Racing da Argentina. E no Paulistão, em 27 de Março, desclassificou a Ferroviária de Araraquara; em 8 de Abril, rumo ao tricampeonato, se desvencilhou do Santos.

Cena de um protesto da "Fiel"

Cena de um protesto da "Fiel"

Meu Timão

Sobreviver na Sul-Americana, enfim, parece dificílimo, mas é factível. Só que, entre o céu e a terra do universo do “Mosqueteiro”, existem coisas, inúmeras, muito mais complexas. A sua torcida, passional e exagerada, como de hábito, já começou a pedir a cabeça do treinador Fábio Carille, o mesmo que, desde 2017, assumiu o comando efetivo do elenco em duas etapas, de Janeiro de tal ano até Maio de 2018, e desde Dezembro de 2018. O Carille que, com um elenco mediano, somou o tri do Estadual ao troféu do Nacional, em 2017.

A torcida, a “Fiel”,  considera que o treinador, que já foi tímido e discreto mas se tornou, paulatinamente, irritadiço e respondão, é o responsável único pelos percalços do “Timão”. A ele, porém, talvez, seja correto e justo imputar uma só culpa: não se rebelou contra os sucessivos desmanches com que a diretoria do clube, suprema ironia, o presenteou logo depois de cada celebração.

o meditativo Fábio Carille

o meditativo Fábio Carille

FolhaPress

Por exemplo, dos astros da transição do título do Brasiileiro de 2015 ao de 2017, da era Tite às gestões de Carille, se foram três que, depois, retornariam ao elenco, todavia mais velhos e sem as mesmas condições de luz e de som: Gil, Ralf e Wagner Love. A diretoria, mais preocupada com uma soma idiota de vaidade, ingratidão e autoconfiança, se emaranhou em destrambelhadas batalhas com os agentes de atletas como Pablo, Balbuena e Romero, todos fundamentais. E deixou que se despedissem pelo portão dos fundos.

Pior, e muito pior, desprezou jovens talentos que, nas categorias de base, o próprio Carille havia revelado. Titulares, aqui e ali, atualmente, sobraram Pedrinho e o Gustagol, ambos competentes mas ostensivamente com problemas físicos que só permanência e paciência acabarão por resolver.

Guilherme Arana e Malcom, na Espanha

Guilherme Arana e Malcom, na Espanha

fc.barca.com

O Corinthians negociou, por valores humilhantes, Felipe, Guilherme Arana, Malcom. Desprezou o futuro de jovens como Yago, Del’Amore, Marciel, Mantuan, Marquinhos, Fabrício Oya, estacionados, via empréstimos, em equipes sem a potência capaz de amadurecê-los como convém. E contratou inúteis/inconstantes (me perdoem caso se considerem desrespeitados), de Manoel aos dois Júnior, o Urso e o Sornoza, de Régis a Aráos.

O resumo: um elenco farto, e contudo rasinho na sua profundidade. Por carência de qualidade o treinador não pôde preencher duas vagas à disposição na Copa Sul-Americana. Como o promissor zagueiro Léo Santos se lesionou, não consegue formar uma bequeira razaoavelmente sólida, o pobre Gil atordoado pelas falhas grotescas do atribulado parceiro Manoel.

Rodriginho e Jadson, em idos mais felizes

Rodriginho e Jadson, em idos mais felizes

Ag.Corinthians/Daniel Augusto Jr.

Consta que Rodriguinho, duas vezes campeão Brasileiro pelo “Timão”, 2015 e 2017, bi-Paulista em 2017/18, no Cruzeiro de BH desde Janeiro, quer re-vestir a camisa do alvinegro – e a “Fiel” reza para que seja verdade. Não pelos 35 gols que ele anotou em 175 pugnas. Mas, pela sua importância tática no estilo que Carille implantou lá atrás e que hoje sofre para recuperar. Era proveitoso e era fluente o entrosamento Rodriguinho com Jadson. Graças às triangulações engendradas pelos dois, o treinador, feliz, tinha como desfrutar os avanços constantes dos laterais e tanto fazia quais fossem os laterais.

Sempre sobravam chances excelentes para os arremates de Love ou Jô, e tanto fazia quem seria o artilheiro. Não, não, não estou a afirmar que bastaria um Rodriguinho para o “Mosqueteiro” rebrandir eficazmente a sua espada. Mas, sem o aliado precioso de Jadson, e já que Jadson não reencontra aquele fulgor de antes, cabe a Carille, sim, reformular o seu conceito tático.

E necessita compulsoriamente principiar a experiência neste sábado, quando o Corinthians tem que vencer, tem que vencer o Bahia pelo Brasileiro.


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