Silvio Lancellotti Leo Messi e o perigo de o PSG virar um bando de novos "Galácticos"

Leo Messi e o perigo de o PSG virar um bando de novos "Galácticos"

Casillas, que foi arqueiro do Real Madrid, vinte anos atrás, e Buffon, que não aguentou ficar mais do que 25 jogos no clube da França, recordam os problemas que uma "Fogueira de Vaidades" produz

No Twitter do PSG, Donnarumma, Sérgio Ramos, Messi, Hakimi e Wijnaldum

No Twitter do PSG, Donnarumma, Sérgio Ramos, Messi, Hakimi e Wijnaldum

@PSG_inside

Com uma auto-suficiência bem petulante, ao anunciar a contratação de Lionel Messi a diretoria do PSG utilizou mais ou menos este palavrório: “Agora, no Futebol, nós não temos medo de ninguém.” Pois o PSG deveria ter bastante medo de si mesmo. A História explica. Basta voltar duas décadas atrás e examinar aquilo que aconteceu com o Real Madrid.

Alguns dos "Galácticos" de Perez, ao centro: Beckham, Figo, Zidane e Ronaldo

Alguns dos "Galácticos" de Perez, ao centro: Beckham, Figo, Zidane e Ronaldo

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Então, apenas entre 2000 e 2005, graças a um presidente de ambição desenfreada, o engenheiro-civil e bilionário Florentino Pérez Rodríguez, nascido em 1947 no distrito de Hortaleza, um dos mais abonados da capital ibérica, o clube “Merengue”, que já tinha o lateral Roberto Carlos, mais o arqueiro Iker Casillas e o avante Raúl González, da sua base, desandou a colecionar os contratos dos melhores talentos disponíveis no mercado. Luís Figo, atacante de Portugal, pelo equivalente a R$ 400 milhões. Zinèdine Zidane, meia da França, R$ 500 mi. Ronaldo Nazário, o Fenômeno, um artilheiro do Brasil, R$ 350 mi. Dois britânicos, armadores, David Beckham e Michael Owen, baratos, ambos somados, por R$ 350 mi. E o zagueiro Sérgio Ramos, um reforço caseiro mas muito caro, R$ 210 mi.

Um pôster dos "Galácticos" do Real Madrid

Um pôster dos "Galácticos" do Real Madrid

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Acumulavam-se craques, portadores da Bola de Ouro, a mágicos estimuladores do marketing esportivo. Antes até da explosão dos profissionais do setor, o Real se tornou o maior vendedor de videogames ludopédicos do planeta. Antes da disseminação extensiva dos certames da Europa nas TVs do universo, o clube comercializou mais camisas e seus correlatos do que, talvez juntos, os seus dez principais rivais do Velho Continente. Tivesse patenteado o fantasioso, exagerado apelido de “Os Galácticos”, com que aquele esquadrão “Merengue” ficou conhecido, Florentino seguramente viraria um quadrilionário.

Luxemburgo, nos seus tempos de Real Madrid

Luxemburgo, nos seus tempos de Real Madrid

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E no entanto, naquele período, os tais “Galácticos” não ganharam nada. Tiveram sete treinadores. E meramente levantaram o título de “La Liga” em 2002/2003, já nos estertores da gestão de Vicente Del Bosque. Com o luso Carlos Queiroz levantaram uma edição da Supercopa da Espanha. Permaneceram no zero José Antonio Camacho, Mariano García Remón e Vanderlei Luxemburgo – esse durou 45 pelejas, com sete empates e dez derrotas. O seu sucessor, Juán Ramón López Caro, também empacou na nulidade. Só com Fabio Capello no seu comando o Real retomaria o título nacional, na temporada de 2006/2007, quando Florentino já se despedira e Ramón Calderón já era o seu novo presidente.

Casillas, na sua despedida do Real Madrid

Casillas, na sua despedida do Real Madrid

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Iker Casillas, que permaneceu como titular da meta do Real até 2015, e que daí encerrou a sua carreira, no Porto de Portugal, depois de sofrer um infarto em Fevereiro de 2020, explica, conceitualmente, o motivo fundamental do fracasso: “Não adianta nada você criar um pacotaço de nomes ilustres, de biografias charmosas, e não montar um time. Foram três, quatro temporadas, em que nós lutamos por nada. Se eu pudesse, apagaria aquelas temporadas do meu currículo.” Precisamente o risco que ameaça, agora, o PSG. Um cavalheiro, Casillas não cita nomes e nem dá detalhes. Mas, bem humorado, se recorda da correria para chegar primeiro ao microfone das entrevistas, do debate de bastidores sobre o rodízio da braçadeira de capitão, da ciumeira quando se publicava a lista de salários.

O ex-tenista Al-Khelaifi, presidente do PSG, com Serena Williams

O ex-tenista Al-Khelaifi, presidente do PSG, com Serena Williams

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No PSG, a “Fogueira das Vaidades” já crepitava antes do desembarque de Messi no seu regaço. Em 2020, quando a cartolagem, de origem no Qatar, sob a liderança do ex-tenista Nasser Al-Khelaifi, transformou em definitivo o empréstimo do ítalo-argentino Mauro Icardi, as fagulhas apenas dormitavam à espera de um alento. Famoso por seu estilo capaz de desagregar qualquer vestiário, Icardi carregava uma fama nada simpática desde 2013, quando  rompeu com Máxi López, o seu melhor amigo. A razão: tinha um caso com Wanda Nara, a mulher de Maxi, daí se juntou a ela e ainda a transformou na sua empresária. O mote de Wanda: “Sou a única mulher que ganha dinheiro para o marido.” No episódio, Messi apoiou Máxi López. Idem Ángel Di Maria, aquele que detonou o Brasil na recente Copa América e que forma a ofensiva do PSG com Kilyan Mbappé e um certo Neymar Jr.

Wanda Nara e o então marido Maxi Lopez, e o então amigo Mauro Icardi

Wanda Nara e o então marido Maxi Lopez, e o então amigo Mauro Icardi

Reprodução

Fazer o quê com Icardi? Um probleminha que o treinador Maurício Pochettino, um outro platino, precisará ajustar com Icardi. Ou, claro, com Wanda Nara. E de que forma Pochettino montará o seu ataque com a chegada de Messi e com Icardi na tranqüilidade come-e-dorme do banco de reservas? Sobram opções com a contratação, também, do lateral-apoiador Achraf Hakimi, marroquino ex-Inter. Ou do volante-artilheiro Georginio Wijnaldum, holandês. Ao treinador, porém, opções sobram da intermediária para a frente pois a administração do PSG não se preocupou em reforçar uma retaguarda responsável pela maioria de seus fracassos em torneios anteriores. Não basta a inclusão, na zaga, ao lado do capitão Marquinhos, do espanhol Sérgio Ramos, ex-Real, 35 de idade. Não basta a excelência de Marco Verratti, da Itália que acaba de amealhar a Euro de de seleções, na proteção da sua bequeira. Ultra-suscetível a contusões, Verratti não tem substituto.

Maurício Pochettino, o treinador do PSG

Maurício Pochettino, o treinador do PSG

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E que ocorrerá no instante em que Pochettino definir seus onze e relegar ao limbo alguns jogadores que se empenharam no passado e não merecerão nem lasquinhas dos R$ 24.000 por hora de Messi na “Cidade Luz”? Como responderão os atletas da estirpe do vice-capitão Kimpembe, dos alas Kurzawa e Paredes, do coringa Julian Draxler? Por quê o arqueiro Gigi Donnarumma se o PSG tem o ótimo Keylor Navas? Um outro arqueiro, Gigi Buffon, que defendeu o PSG em 25 jogos entre 2018/19, comenta do modo mais discreto que pode: “Basta dizer que antecipei a minha saída e que preferi esquentar o banco na Juventus.”

Montagem do Twitter do PSG, com Messi & Neymar

Montagem do Twitter do PSG, com Messi & Neymar

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O serviço de RP de Al-Khelaifi, obviamente cônscio do tamanho das brasas que logo deverão se multiplicar na “Fogueira”, depressa se mobilizou, de modo a aplacar a chama nascente. Exemplo: anunciou que Sérgio Ramos, se propôs a acomodar Messi em sua casa enquanto o ex-Barça não encontra a sua própria moradia. E Neymar, igualmente, parece feliz pelo reencontro com seu antigo parceiro. Inclusive porque Messi, gentil, abdicou do uso da camisa 10. Impossível ignorar, no entanto, que uma pequisa acaba de indicar Raí, outro brasileiro, como o grande ídolo do PSG. Ou ignorar que Neymar, quando começou a jogar na Espanha, lá encontrou um Messi já consolidado como vencedor. Hoje, é Messi quem está em Paris para conduzir Neymar & Cia. até o que Neymar & Cia. não fizeram: ganhar a Champions. Ironia. Caso venha a Champions, será por Messi, não por Neymnar,

Messi, e a camisa 30

Messi, e a camisa 30

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