Clóvis Rossi (1943-2019)

Depois de sofrer, nas suas palavras, "um micro-infarto", e receber alta, o extraordinário jornalista, desafortunadamente, faleceu em sua residência

Não faz 48 horas, pelo FaceBook, ao saber que Clóvis Rossi recebera a alta médica e logo retornaria à sua casa, depois de, palavras dele mesmo, “um micro-infarto na sexta (7)... a angioplastia... um stent e, na terça (11), outra angioplastia ... mais quatro stents”, remeti a ele este bilhete: “Grandão, que susto! Bom saber que você já voltou a fazer cestas de três pontos!”

Grandão por causa do seu metro e noventa e tantos de altural. Cestas de três pontos porque, pouca gente sabe, antes de se tornar um jornalista além de excepcional, Clovis Rossi jogou Basquete naquele Sírio fantástico de Amaury Pasos, Victor Mirshawka, Celso Maneschi, Radvilas e Mindaugas Gorauskas, o treinador Angel Crespo etcetera etcetera. Eram os meados da década de 60 e, se o esporte das tabelas e das cestas perdeu um astro, a Mídia Escrita ganhou um dos seus profissionais mais justos, mais aprumados e mais dignos.

O Rossi cristalizou a sua carreira no Estadão e depois na Folha, periódico no qual publicou artigos impecáveis até este dia 12 de Junho, quando relatou o seu internamento no Einstein, agradeceu à equipe médica e ainda, com um humor delicioso, agradeceu “também aos companheiros (da redação) que me ampararam e até mentiram dizendo que estavam sentindo minha falta”.

O destino me concedeu o privilégio de ser seu parceiro de madrugadas em ao menos um episódio antológico, aquele dos 33 dias entre 26 de Agosto e 28 de Setembro de 1978 – o intervalo desde a transformação do sorridente Cardeal Albino Luciani em Papa João Paulo I e o súbito impacto da sua morte. Então, nós trabalhávamos na “IstoÉ” autêntica e legítima de Mino Carta, revista em que todos faziam essencialmente de tudo. Na verdade, a loucura começara em 6 de Agosto, com a morte de Paulo IV, e ainda se estenderia até dia 16 de Outubro, com a inesperada eleição de Karol Wojtyla como João Paulo II.

Muitos anos mais tarde, numa rememoração daqueles tempos, o Grandão me agraciou com o maior carinho que recebi em meu meio século de Imprensa. Quando eu asseverei que ele fora o meu melhor colega de fechamento em décadas de carreira, ele retrucou com uma frase que, agora, aqui, perdão, me faz chorar: “Êpa, Lança, você é que foi o melhor fechador que conheci”.

Típico de Clóvis Rossi, elogiar ao compartilhar, propor afeto em dobro ao dividir um elogio, apaziguar mesmo quando aquele seu tamanho poderia atemorizar. Incrível. Num certo momento da partida entre os Raptors e os Warriors, a decisão da NBA, que me caberia comentar, para o R7, sei lá por quê me veio à cabeça uma cena que não existiu, o Grandão em casa, com a sua família, diante da TV, a presenciar a peleja. Ah, ele já estava lá no Céu.
 

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas