Silvio Lancellotti A empolgante vitória de ouro do Goalball, o gol-a-gol do Brasil

A empolgante vitória de ouro do Goalball, o gol-a-gol do Brasil

Num esporte que foi inventado e destinado exclusivamente à Paralimpíada. os atletas do País subiram ao topo do pódio pela 21ª vez nos Jogos do Japão. E também houve Canoagem, Taekwondo...

Ouro para o Goalball do Brasil

Ouro para o Goalball do Brasil

@cpboficial

Ainda não ocorreu, no idioma luso-brasileiro, a tradução apropriada de Goalball. Digamos, para simplificar, que se trata de um Gol-a-Gol, um esporte no qual dois times, um de cada lado de um campo, sem trocar passes, meramente se limitam a arremessar uma pelota contra a meta do seu adversário. Trata-se, aliás, de um esporte que o austríaco Hans Lorenzen e o alemão Sepp Rindle, cegos durante os conflitos da II Guerra Mundial, desenvolveram em 1946, num campo de sobreviventes, com a intenção precípua de entreter os seus colegas deficientes visuais. Precisamente um esporte desenvolvido com exclusividade em função de paratletas, embora qualquer pessoa consiga praticá-lo.

Gol-a-gol e o arremesso por baixo das pernas

Gol-a-gol e o arremesso por baixo das pernas

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Disputa-se o Goalball em uma quadra de Vôlei, 9m de largura e 18m de comprimento. Em cada fundo, por toda a sua extensão, existe uma meta, com 1m30 de altura. Os times têm três jogadores titulares e três reservas. Os jogos transcorrem em duas metades de 12 minutos. Não se faz no intervalo, de três minutos, a troca de lado. Na bola, de material maciço mas fofo, 76cm de diâmetro e 1kg25 de peso, se embute um guizo, para que os jogadores intuam a sua direção e até a sua velocidade. Com a evolução do Goalball os jogadores aprenderam a aperfeiçoar os tipos de arremesso, sempre com as mãos, depois de volteios de 360 graus, rasteirinho, com efeito, ou inclusive por debaixo das pernas. Ganha o elenco que mais vezes colocar a bola dentro das redes do rival.

Penalidade cobrada por Romário, ao fundo Leomon

Penalidade cobrada por Romário, ao fundo Leomon

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Para valer o arremesso, bola precisa ao menos quicar uma vez na quadra, antes de atravessar a sua linha divisória. A infração a essa regra redunda numa penalidade, na qual a equipe punida se reduz a um só integrante. O equivalente a um pênalti. Aliás, no caso de acontecer a igualdade em pontos ao fim do tempo regular, sucede uma prorrogação de 3’, com direito ao “golden goal” – marcou, levou. No caso, no entanto, de o empate prevalecer na prorrogação, o prélio continua no bingo dos penais, no qual também os reservas tentam seus chutes. Porque perdeu dos Estados Unidos na fase semifinal, nesta sexta-feira 3 de Setembro o Goalball das meninas brigou pelo bronze com o Japão dono da casa.

As meninas, na partida contra os EUA

As meninas, na partida contra os EUA

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Infortunado esse Brasil das meninas no Goalball. Merecia batalhar pelo ouro. Na sua semifinal, diante dos Estados Unidos, mantinha uma folga de 2 X 0 até faltarem 2’31”. Cedeu o empate a 17” do encerramento. E perdeu de 2 X 3 nos penais. Já havia enfrentado o Japão na fase inicial do certame, ambos os times no mesmo grupo. Permitiu ao rival fazer 3 X 0 mas reagiu e o prélio acabou em 4 X 4. Agora, na semi, deixou o hospedeiro escancarar 5 X 0. Inviável qualquer possibilidade de resgate, pois desperdiçou duas das três punições a seu favor, o Japão com apenas uma garota a defender os 9m de meta.

UJma defesa sensacional de José Márcio, o Parazinho

UJma defesa sensacional de José Márcio, o Parazinho

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O esquadrão de Goalball dos rapazes do Brasil aportou na decisão do ouro, diante da China, com uma vantagem estatística avassaladora: cinco triunfos em seis prélios, 53 pontos anotados e 26 cedidos, enquanto a sua adversária ganhou quatro partidas, registrou 36 pontos e sofreu 27. Pois foram brilhantes os seus três craques, José Marcio, o Parazinho, Romário Marques e Leomon Martins, que em momento algum da pugna admitiram que a China fosse minimamente perigosa. O Brasil ignorou sua adversária, despachou a China por indebatíveis, devastadores, inatingíveis 7 X 2. .

João Victor Teixeira

João Victor Teixeira

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No Atletismo, 19 medalhas antes de se iniciar a jornada da sexta-feira, oito pertenciam aos atletas do Arremesso e do Lançamento. E a sua primazia prosseguiu no decorrer do dia 3. Já dono de um bronze no Peso, 14m45, só cinco centímetros longe da prata, João Victor de Souza Santos, um carioca de 27 anos, reprisou a sua façanha no Disco. Adquiriu a deficiência, aos 15 de idade, depois de passar por uma cirurgia destinada a irar um coágulo de sangue do seu cérebro. Durante a sua recuperação, um acidente vascular limitou o controle muscular no lado esquerdo do corpo. Amargou a quarta colocação até chegar à quinta de suas seis tentativas regulamentares. Os 51m88 que obteve ficaram a 55 centímetros da prata de Mykola Zhabnyak da Ucrânia, que havia queimado três chances e perpetrado um único arremesso acima dos 48 metros.

Thiago Paulino dos Santos

Thiago Paulino dos Santos

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Nove em vinte, graças a João Victor. E por que não mais duas medalhas de uma vez para os homens fortes em uma única prova? Poderia acontecer no Arremesso do Peso da classe F57, quando o Brasil participou com os dois atletas de melhor marca de inscrição entre 15 rapazes, os dois do Estado de São Paulo. Marco Aurélio Lima Borges, 43 de idade, nascido na capital, trabalhava de motoboy quando sofreu um acidente, em 1998, ao voltar para casa, e teve que amputar parte da perna direita. E Thiago Paulino dos Santos, 35, de Orlândia, outro que sofreu um acidente de moto, em 2010, e teve que amputar a perna sua esquerda logo abaixo do joelho. No Atletismo desde 2006, Marco Aurélio chegou a Tóquio com 14m38 na bagagem. Líder do ranking, embora mais novo na idade e na experiência, inaugurada logo em 2011, Thiago ostentava 15m26. Com 14m85, Marco Aurélio assumiu o primeiro posto até que Wu Guoshan, da China, o ultrapassasse, 15m00. Thiago, o último a competir, logo conseguiu 15m10, novo recorde  dos Jogos, o 21º ouro do Brasil em Tóquio.

Wendell Belarmino

Wendell Belarmino

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Invariavelmente dominante, com a mesma intensidade de outras datas, 22 medalhas até começarem as suas provas na sexta-feira, o último dia da Natação em Tóquio/2020, o Brasil subiu ao pódio ao menos em mais uma ocasião. Um glaucoma congênito obrigou o brasiliense Wendell Belarmino Pereira a seis cirurgias e a dez transplantes de córnea, sacrificantes mas infrutíferos. Hoje, aos 23 anos, tem meramente 3% de percepção nos dois olhos. E daí se, como ele diz, por exemplo, consegue nadar com “99% de eficiência”? No Parapan de Lima, em 2019, levou as seis medalhas que disputou. Logo em seguida, no Mundial de Londres, abiscoitou o ouro dos 50m Livre, assim como, agora, em Tóquio, de modo arrasador, desde o seu salto na água.Também se mostrou crucial na sensacional prata do Revezamento 4 X 100 Livre. Nas baterias eliminatórias destes 100m Borboleta ostensivamente se poupou. Não importa o seu quarto tempo como referência. De fato, ele realizou uma prova fenomenal. Na primeira metade, e em parte da volta, depois da virada, várias vezes perdeu a direção, até se chocou com um dos separadores das raias. Nos últimos dez metros ocupava a quinta posição quando, de maneira empolgante, arrancou e levou o bronze na batida de mão, tempo de 1’05”20, contra o 1’06”59 da classificação. E a Natação completou a sua bela história em Tóquio com 23 medalhas - oito, cinco e dez.

Luís Carlos Cardoso da Silva

Luís Carlos Cardoso da Silva

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Além do Goalball, também a Canoagem se incluiu, nesta sexta-feira, na relação dos esportes dignos de pódio para o Brasil nos Jogos de Tóquio/2020. Na prova dos 200m do Caiaque KL 1 de velocidade para deficientes físicos, Luís Carlos Cardoso da Silva, 36 de idade, um piauiense de Picos, apenas não conseguiu superar o húngaro Peter Kiss, o melhor do universo na modalidade. Detalhe: Luís Carlos era um líder dos dançarinos de palco na trupe do popularesco Frank Aguiar quando, em 2009, num banho em algum remanso de águas paradas, de rio ou de lagoa, pegou esquistossomose, uma parasitose que infectou a sua medula e acarretou a perda dos movimentos de suas pernas.

Silvana Mayara

Silvana Mayara

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E como na quinta-feira, também na sexta, no desfecho da da jornada, já no fim de noite no Japão, o Brasil chegou a uma final de um esporte ainda inédito em Paralimpíada, o Taekwondo. Depois de bater Brianna Salinaro, dos EUA, Silvana Mayara Cardoso Fernandes, na categoria -58kg,  perdeu de Lisa Gjessing, da Dinamarca, a precisou lutar pelo bronze com Gamze Gurdal da Turquia. Paraibana de João Pessoa, 22 anos, a Sil nasceu sem a parte inferior do braço direito. Antes de aderir às Artes Marciais, formada em Educação Física, praticou o Atletismo e flertou com o Lançamento do Dardo. Curiosidade: em 2019, na terra da rival de agora, tinha se sagrado campeã mundial. Por um largo placar, 26 X 9, devolveu Gurdal, tonta, à Turquia. Belo resumo do Brasil até aqui: 61 medalhas (21-14-26).

O time do Goalball, com o seu outro fardamento

O time do Goalball, com o seu outro fardamento

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