Dizer não à Copa da França decidiu a saída de Glenda da Globo
A emissora carioca queria fazer história no Mundial Feminino. Com narradora, comentarista e uma repórter. Traumatizada, Glenda disse 'não'
Cosme Rímoli|Do R7 e Cosme Rímoli

São Paulo, Brasil
Não foi ontem que Glenda Kozlowski colocou o final da sua trajetória da Globo. A decisão pela saída excelente apresentadora e ótima repórter foi tomada no final de 2018.
As portas da Globo se fecharam para ela quando se recusou a fazer história na emissora.
A Globo queria uma equipe de mulheres, na Copa do Mundo da França.
Glenda narrando, Ana Thais Matos comentando. E Carol Barcellos na reportagem.
Seria 'sensacional', 'inesquecível' e 'maravilhoso' para os patrocinadores.
Já se sabia na emissora que a Copa do Mundo bateria recordes de audiência em todo planeta. Foram mais de um bilhão de pessoas acompanhando os jogos.
O Ibope mostrou que 108 milhões de pessoas no Brasil seguiram a competição.
Mas Glenda disse 'não'.
Não aceitou narrar os jogos do Brasil de Marta e as partidas decisivas do torneio.
Ela alegou todo o sofrimento que viveu em 2016, quando narrou alguns eventos da Olimpíada no Brasil.
Foi muito criticada na imprensa e massacrada pelos internautas.
Era cobrada por se emocionar demais, gritar, se empolgar.
"Se não fosse por causa da Rosane Araújo [então editora do Esporte Espetacular] e do Renato Ribeiro [na época diretor da Central Globo de Esportes], eu teria saído da cobertura olímpica", confessou no Rio2C, evento audivisual que aconteceu no Rio de Janeiro.

"A coisa foi reverberando, fui vendo os meus 27 anos de dedicação ao Esporte jogados fora, indo pro lixo. Eu não tinha coragem de andar no corredor, aquilo me tomou de um jeito que eu andava curvada, só chorava."
Mas ela se recuperou nos últimos dias de competição.
E foi elogiada pela cúpula da Globo.
Só que Glenda ficou traumatizada.
Nunca havia sido atacada na Internet.
Mas executivos da Globo já tinham decidido.
Na Copa do Mundo Feminina colocaria uma equipe de mulheres.
Acreditavam que Glenda cederia.
Erraram.
Ela relembrou que foi direta ao receber o convite de ser a narradora da Copa do Mundo.
"Eu não quero fazer futebol, não quero. Falei que não quero porque não é o meu negócio", disse.
Houve pressão, insistência, tentativas de convencimento, mas Glenda foi inflexível.
A contragosto da cúpula global, o eterno Galvão Bueno assumiu a narração da Copa do Mundo das mulheres.

A audiência foi ótima.
Mas a crítica insistente é que a emissora, dona do monopólio do futebol na tevê aberta, deveria ter uma mulher narrando. Não o onipresente Galvão Bueno.
Todos na Globo sabiam que só não tiveram por conta de Glenda.
O tratamento especial dedicada a ela mudou radicalmente depois da negativa para narrar a Copa do Mundo.
Ela deixou a Globo e passou a trabalhar no Tá Na Área, no Sportv.
Sumiu dos grandes eventos.
E, aos 45 anos, acabou se tornando uma profissional cara demais para a emissora a cabo.
Executivos globais decidiram não renovar seu contrato.
E ela deixou a emissora "em comum acordo" ontem.
Depois de 23 anos de uma passagem impressionante, por sua versatilidade, profissionalismo.
Mas que se encerrou de maneira precoce.
Por conta de a emissora não perceber o trauma que ela viveu na Olimpíada de 2016. E que se a via como narradora, que buscasse ajuda psicológica para Glenda enfrentar a pressão da crítica, dos internautas.
Nada foi feito.
A Globo deixou de fazer história na Copa do Mundo da França.
Assim como Glenda.
E três meses depois, a saída.
A sensação é de puro desperdício...
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