‘Estou em um lugar além da escuridão: o inferno. O diabo está me encarando.’ O deprimente fim de carreira do fenômeno Connor McGregor,o homem que mudou o UFC
69 segundos. Foi o tempo que Connor ficou no octógono, no seu palco predileto, em Las Vegas. Era a sonhada revanche contra Max Holloway. Seu retorno depois de cinco anos. Mas o corpo combalido e mal treinado não suportou o esforço da tentativa de um chute alto. Agiu como se tivesse 26 anos, quando liquidou José Aldo em 13 segundos. Tem 37 anos. Quando sua perna direita foi dar sustentação ao golpe, que buscava chocar o mundo, os ligamentos cruzados estouraram. As vaias, a desilusão dominaram o T-Mobile Arena. A carreira de Connor McGregor chegava ao fim. O patrimônio de R$ 1,3 bilhão é o pagamento para quem acabou com a ingenuidade dos lutadores do UFC

São Paulo, Brasil
“Meu ligamento cruzado foi para o espaço. Destruído (...). Estou num lugar além da escuridão aqui. Só consigo descrever isso como o inferno. Eu estava tão afiado e tão pronto para essa luta que não consigo acreditar no que aconteceu.
“Eu estava calmo, pronto e confiante. Estou em choque com o que aconteceu.O diabo está literalmente encarando a minha cara aqui. Não vou ceder. Estarei na igreja amanhã”, escreveu hoje, Conor McGregor, nas redes sociais.
O vexame era para acontecer na Casa Branca.
Diante do presidente Trump, que desejava muito mais ver o irlandês falastrão midiático do que acompanhar o brasileiro Alex Poatan.
Só que o esperto Dana White sabia que não haveria tempo para Connor se preparar. E reservou o irlandês como atração principal ao UFC 329. Na revanche contra Max Holloway. Os dois haviam lutado há 13 anos. E McGregor estava no auge.
Por 15 milhões de dólares, limpos, sem descontos, o irlandês aceitou voltar a pisar no octógono.
Mas os amantes das artes marciais viram o deprimente final de carreria do lutador que mudou a história do UFC.
Em um delírio egocêntrico, típico de sua vida, ele quis terminar a luta logo nos primeiros segundos.
Tentou um chute alto com sua perna esquerda. Holloway se esquivou sem problema algum. Só que McGregor caiu, com todo o peso na sua perna direita. Os ligamentos cruzados anteriores estouraram.
Ele ainda tentou o milagre, foi trocar socos com o norte-americano.
Holloway percebeu que o irlandês estava contundido, tentou avisar o árbitro.
O irlandês só desistiu quando seu joelho o impediu de andar.
O depoimento de Holloway foi incrível.
E mostra a alma combatente de Connor.
“Eu estava tentando avisar o árbitro mais cedo, os filhos deles estavam na primeira fileira, não quero que eles vejam ele receber um dano desnecessário.
“Eu estava querendo parar a luta, mas o Conor é louco desse jeito, a primeira vez que ele estava no chão, eu estava socando ele e ele disse: “lute, lute!”.
“Eu disse: ok. Por isso eu em afastei e falei: vamos nessa então. Vamos lutar! Aí ele caiu de novo e a luta foi encerrada.”
Especialistas, que acompanham diariamente o UFC, sabiam que Connor McGregor é uma sombra do lutador que já foi.
Dana White também.
Mas o presidente do UFC é movido a pesquisas e busca incessante por dinheiro e mais popularidade.
E o mundo queria a volta de Connor.

A vida desse irlandês é digna de vários documentários, filmes, livros.
Ele nasceu em Dublin, de uma família muito pobre.
Rebelde, brigão, encrenqueiro desde a infância, detestava estudar. Seu pai o matriculou à força em um curso de encanador.
Connor detestava, achava complicado.
Até que descobriu uma maneira de extravasar sua ira, a revolta pelo pouco dinheiro e a busca por ser conhecido: o boxe.
Em lutas amadoras já se destacava.
Se batizou como ‘Notorius’, ‘Notável’ prevendo como seria sua vida.
Mas logo percebeu que o mundo estava encantado pelo MMA. E passou a se dedicar de maneira muito esperta.
Juntando seu enorme talento com o ‘trash talk’.
Percebeu que a televisão adorava as provocações, as ofensas, o total desrespeito aos adversários.
E teve uma escalada impressionante no Reino Unido.
Lutava como um selvagem dentro de uma jaula, na categoria Cage Warrios Fighting Championship.
Logo foi para no UFC.
E a maior organização de MMA do mundo precisava de um campeão europeu. Só tinha brasileiros e norte-americanos.
Foi quando José Aldo caiu no caminho de Connor McGregor.
Depois de meses e meses provocando, irritando, ofendendo ironizando o brasileiro, a luta pelo título finalmente aconteceu, em Las Vegas.
Dia 12 de dezembro de 2015.
O mundo parou para ver o combate.
Connor ‘entrou’ na mente de Zé Aldo.
O manauara entrou com ódio, se esqueceu da técnica, partiu para a briga.
Ao tentar dar um soco de direita, de qualquer maneira, abriu a guarda para o letal direto de esquerda, do canhoto McGregor.
Nocaute aos 13 segundos de luta
O cinturão dos pesos penas era de Connor.
O UFC capitalizou a vitória.
A Europa tinha seu campeão.
Foi além.
Conseguiu ser o primeiro vencedor em duas categorias do UFC.
Dos penas, ao humilhar o brasileiro.
E dos leves ao vencer Eddie Alvarez, em outro nocaute, em novembro de 2026.
Era o seu auge.
Só que Connor tratou de aproveitar tamanha ostentação para aumentar, e muito, as bolsas por suas lutas.
E mais: a exigir participação nas vendas por pay-per-view.
É o lutador que mais ganhou dinheiro em todos os 32 anos do UFC.
Fez fortuna e acabou se deixando levar pelas tentações, perdendo a gana para se manter como lutador fantástico, que foi.
Preferiu aproveitar a vida.
Fez cinema, virou dono da marca de uísque Proper No Twelve. Do pub The Black Forge Inn, em Dublinn, de uma linha de roupas, August McGregor, além de sócio da Bare Knuckle Fighting Championship (uma categoria de boxe sem luvas.)
Fora tudo isso, tem dezenas de imóveis de luxo em Dublin.
Está bilionário.
Mas tem uma vida de excessos. Principalmente ligado a bebidas, brigas, processos perdidos em acusações de estupro.
Foi preso por agressão.
Participou, com sua equipe, de uma briga vergonhosa com a equipe do russo Khabib Nurmagomedov, em 2018, no UFC 229.
Sua popularidade como o maior bad boy da história das artes marciais chegou a tal ponto que, no ano passado, se lançou à presidência da Irlanda.
A principal linha de sua candidatura era proibir a imigração ao seu país. Foi recebido como candidato na Casa Branca, por Trump.
Mas com apenas 7% de apoio dos eleitores e pressionado pelas acusações de estupro, desistiu.
Suas vitórias foram no mundo das lutas. Fez o UFC ficar de joelhos e aceitar que ele lutasse boxe com Floyd Mayweather Jr. Nos contratos, lutadores só podem combater no octógono de MMA.
Connor perde no décimo round, por nocaute técnico. Mas embolsou incríveis 130 milhões de dólares, R$ 664 milhões.
Connor aproveitou ao máximo sua notoriedade. Mas no octógono começou a perder.
Sua carreira a decair.
Fugiu de três exames antidoping, em 2024.
É espantoso seu cartel no UFC.
São só 13 lutas.
Tem 8 vitórias e já cinco derrotas.
Seu corpo não respondia mais aos excessos.
Os músculos de um atleta muito bem treinado protegem os ossos e os tendões, ligamentos.
Não foi o caso de Connor.
Acumulando porres, excessos públicos, noitadas.
Sua decadência chegou ao octógono.
A penúltima luta aconteceu há cinco anos, em julho de 2021, contra Dustin Poirier, quando fraturou o tornozelo esquerdo.
Era a revanche, depois de ter sido vergonhosamente nocauteado, cinco meses antes, em janeiro do mesmo ano.
Até os 69 segundos de ontem.
Dana White foi muito pressionado na coletiva de ontem.
Repórteres desconfiavam que Connor já estivesse contundido.
Ele garantiu que não.
Mas com McGregor tudo é possível.
A lesão de ontem encaminha o fim de sua passagem no octógono.
De forma constrangedora, desnecessária.
O bilionário irlandês não deveria ter se exposto ontem.
Estava visivelmente fora de forma.
Proporcionou um combate lamentável, constrangedor.
Seus excessos o consumiram como atleta.
‘Voltarei’, garante.
Mas perdeu a credibilidade como lutador de elite.
Ele já fez história, ganhou mais dinheiro e notoriedade do que teve a coragem de sonhar.
E mudou o status dos lutadores diante da sede de lucro do UFC.
Agora precisar ter dignidade e se retirar.
Para o preservar seu legado.
E sair do inferno.
Não precisa ficar encarando diabo nenhum.
Ninguém jamais vai se esquecer de Conor Anthony McGregor...














