Especiais 'Grau de bike' movimenta periferia com fenômeno da internet

'Grau de bike' movimenta periferia com fenômeno da internet

Wheeling, nome complicado para empinada de bicicleta, transformou rotina e virou febre longe dos grandes centros urbanos graças a trabalho de youtuber

Grau de bike

Hudson Xavier tem quase 1,5 milhão de inscritos em seu canal no YouTube

Hudson Xavier tem quase 1,5 milhão de inscritos em seu canal no YouTube

Edu Garcia/R7

É só uma rua no Grajaú, na zona sul de São Paulo, mas vai dizer isso para dezenas de meninos que passam o dia por ali empinando a bicicleta. E também não é ‘empinando a bicicleta’. O nome agora é ‘grau de bike’.

O lugar escolhido para desafiar a gravidade e andar sem uma das rodas no chão é a porta da loja de bicicletas de Edmilson e Hudson Xavier. Pai e filho ainda não entendem ao certo o que atraiu tanta gente e tratam apenas de comemorar a reinvenção de um dos primeiros brinquedos de criança. Só ir de um lugar para o outro, sem nenhuma emoção no meio do caminho, nunca foi opção para os mais novos.

Hudson, de 24 anos, é quem comanda o canal Portal Whelling. O estrangeirismo vem do nome da modalidade em inglês e que rapidamente caiu no gosto dos jovens na periferia. Com mais de 1,6 milhão de inscritos em seu canal no YouTube, muitos dos consumidores dos seu vídeos investem em créditos no celular ou usam o Wi-Fi da própria loja para ter acesso à internet.

“Aqui o dia inteiro é assim. Para onde você olha tem criança dando um grau de bike. É só uma rua, mas eles fazem questão de passar por aqui para mostrar o que sabem, o que aprenderam e a evolução deles com a bike”, disse Hudson, que também se apresenta pelo país, com a equipe que formou no próprio bairro e hoje também trabalha na loja.

O canal na internet poderia só ensinar as manobras ou provocar desafios. Mais do que isso, nutre uma relação de admiração com exemplos que deram certo apesar da pesada correia de marginalização. Devolver à comunidade da bike o que a bike proporcionou para a família está na essência do portal, com programas em que distribuiu bicicletas ou partes delas para crianças carentes.

As bicicletas recebem o carinho digno de motos superesportivas. Apesar dos freios, quadros e guidões específicos para a modalidade, algumas horas de treino já fazem com que qualquer pessoa possa empinar uma bicicleta, garantem os donos do lugar. Os praticantes da região aparecem na loja para incrementar a bike, mas estão por ali por se sentirem daquele grupo. 

‘Fora da minha rua’

No pedaço em que está a loja, as ruas são planas, asfaltadas e relativamente tranquilas se descontados os horários de entrada e saída da escola. Justamente nesse momento que as bike se dividem com os carros colorindo a vizinhança. Por ali, quem não pratica o wheeling até gosta de ficar no portão observando os garotos. 

“É legal. Vire e mexe as crianças estão aí com eles. Não atrapalha, não. As crianças aqui precisam de uma coisa para se divertir. Essa da bicicleta é bacana”, disse a moradora Léia dos Santos, que voltava de mãos dadas com uma criança em idade escolar.

Por outro lado, há quem não goste nada da história de empinar bicicletas. Hudson conta que já foi inúmeras vezes ‘convidado a sair da rua das pessoas’ ou teve de dar explicações para a polícia. Isso sem falar em fechadas e buzinadas nos locais em que treina sua paixão.

“As pessoas não gostam que fiquem várias pessoas andando de bicicleta na frente da porta delas. Elas têm um certo empoderamento de que ‘se está na porta da minha casa, tenho poder sobre eles e então não quero eles fazendo barulho’”, disse Hudson.

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Ainda que haja certo preconceito com a modalidade, Edmilson e Hudson comemoram a alegria proporcionada pelo grau de bike, em uma rua qualquer no Grajaú.

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