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BRASILEIRO 2022
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Em 1895, Charles Miller atuou na várzea no 1º jogo oficial de São Paulo

Origem do futebol de várzea se mistura com a chegada do esporte ao Brasil, trazido por Charles Miller, no século 19. Várzea do Carmo foi palco do 1º duelo

Futebol|Cesar Sacheto e Guilherme Padin, do R7

Registro do 1º jogo oficial da cidade de São Paulo, em 1895, na Várzea do Carmo
Registro do 1º jogo oficial da cidade de São Paulo, em 1895, na Várzea do Carmo Registro do 1º jogo oficial da cidade de São Paulo, em 1895, na Várzea do Carmo

O futebol brasileiro nasceu na várzea de São Paulo. A primeira partida oficial da cidade — e consequentemente do país —, organizada por Charles Miller, foi disputada na antiga várzea do Carmo, atual Largo do Gasômetro, na região do Brás.

O jogo reuniu funcionários de uma companhia de gás (Gas Company of São Paulo) e outra de ferroviários (São Paulo Railway) no dia 14 de abril de 1895.

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Os ferroviários de Charles Miller — filho de um escocês e uma brasileira, responsável por introduzir o esporte no Brasil — venceram por 4 a 2.

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"No início, todo mundo jogava na várzea. Os campos e estádios especificamente construídos para o futebol vieram só depois, como um tipo de demanda já específica a esse esporte", explica a escritora Diana Mendes, autora da obra "Futebol de várzea em São Paulo: a Associação Atlética Anhanguera (1928-1940)", publicado pela Editora Alameda.

A importância da várzea para o futebol paulistano pode ser explicada pela topografia da cidade. "Basta pensar no tipo de terreno necessário para uma partida se desenrolar. São Paulo era — e é — uma cidade de rios. E rios possuem várzeas, amplos e planos espaços para a vazão das águas durante o período de cheias", complementa a historiadora.

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No entanto, havia muito preconceito por parte dos indivíduos de extratos mais altos da sociedade paulistana com as pessoas que habitavam às regiões de várzea, próximo das margens dos rios Tamanduateí e Tietê.

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"Havia quem propagasse que a necessidade de acabar com as várzeas para eliminar doenças que se transmitiam por um ar úmido e contaminado. O projeto de sanear, aterrar e pavimentar a várzea do Carmo abriu oportunidades para uma série de empreendimentos comerciais e industriais antes de se tornar a região do Parque D. Pedro, como conhecemos hoje", conta Diana Mendes.

A ideias sanitaristas demonstram o desprezo pela região da várzea, seus moradores e frequentadores: os varzeanos. Para muitos médicos e urbanistas à época, acabar com as várzeas significava também acabar com os varzeanos, suas doenças e práticas tidas como pouco higiênicas.

Mas o futebol não distingue classe social ou econômica e se tornou popular. Muitos clubes foram fundados até os anos 1940.

"Você tinha os clubes de elite, formados por quem tinha ido para a Europa e aprendido a jogar em escolas ou grêmios, e quem aprendeu a jogar com marinheiros, ferroviários, pessoas que vieram para a construir prédios, etc.".

Explosão do futebol varzeano

Com o passar dos anos, inúmeros times surgiram ao longo do Rio Tietê entre os bairros da Penha, na zona leste, e Lapa, na zona oeste da cidade. Na década de 1950, os representantes das agremiações colocavam anúncios em jornais da época para combinar os jogos.

O Alviverde do Peruche foi fundado no início dos anos 1960
O Alviverde do Peruche foi fundado no início dos anos 1960 O Alviverde do Peruche foi fundado no início dos anos 1960

"Sou da várzea que tinha os 100 campos da Marginal. Era um esquema mambembe. Daí, começaram a aparecer os primeiros 'coordenadores' da várzea. Eles começaram a marcar jogos pela Gazeta Esportiva: ‘Jogo com a Vila Maria, ligar para o Cordeiro', isso na década de 1950", relembrou Otacílio Ribeiro, presidente do Dragões da Casa Verde, tradicional equipe da zona norte da cidade.

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Nas décadas seguintes, já com o futebol profissional consolidado no Brasil — a seleção nacional já era tricampeã mundial —, a várzea tomou novos rumos. Empresas começaram a montar equipes e alguns jogadores recebiam para entrar em campo. Foi também o início dos grandes torneios.

Desafio ao Galo

O Desafio ao Galo foi uma competição que começou nos anos 1970 e teve o seu auge na década seguinte. Dois times se enfrentavam aos domingos e o vencedor retornava na semana seguinte para um novo desafio. No fim da temporada, havia o "Super Galo", embate entre as equipes mais vencedoras.

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Grandes nomes do futebol brasileiro jogaram o Desafio ao Galo, como os atacantes Viola, Casagrande, o meia Juninho Paulista, o volante Cesar Sampaio e o lateral-direito Cafu, capitão do pentacampeonato mundial da seleção brasileira na Copa de 2002.

Cesar Sampaio (no alto, à esq.) jogou o Desafio ao Galo
Cesar Sampaio (no alto, à esq.) jogou o Desafio ao Galo Cesar Sampaio (no alto, à esq.) jogou o Desafio ao Galo

Os jogos eram exibidos pela Recordtv e as transmissões eram feitas por estrelas do jornalismo esportivo nacional, como: Joseval Peixoto, Faustão, Vital Bataglia, Thiago Leifert — ainda menino — e Samuel Ferro, repórter que ficou conhecido pelos telespectadores do Desafio ao Galo como "o moço de Pederneiras".

"O programa começou no campo do Juventus, na Rua Javari. Depois, foi para o CMTC Clube. Era a chamada Copa do Mundo da várzea. Era uma loucura. Você mexia com os bairros. Era realmente uma festa. Em uma dessas transmissões, o Telê Santana, que era técnico do São Paulo, viu o Cafu e encontrou em contato com ele", contou Elias Skaf, diretor do programa por 24 anos.

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Entretanto, o sucesso do Desafio ao Galo também trouxe críticas de personagens que viram uma transição entre um esporte puro e outro focado no dinheiro e na publicidade.

"O varzeano quer destaque. Quer que o time dele seja campeão. Portanto, em termos de divulgação, foi bom. Mas em termos de perder a várzea romântica, foi ruim", ponderou o veterano Otacílio Ribeiro.

Copa Kaiser

O fim do Desafio ao Galo deixou órfãos inúmeros seguidores do futebol de várzea. No entanto, uma nova disputa tomaria o lugar de maior competição varzeana de São Paulo: a Copa Kaiser, surgida em 1995.

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O formato era diferente do antecessor. A Kaiser era um campeonato longo, com várias fases. Nas etapas iniciais, as equipes dos bairros se enfrentavam em chaves. Depois, havia os confrontos entre times de regiões diferentes da cidade e, por fim, as fases de mata-mata.

O torneio não oferecia premiação em dinheiro. Eram entregues troféus e caixas de cerveja da empresa patrocinadora aos campeões. Porém, o investimento para manter o time na Copa kaiser era grande.

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"Teve time que gastou R$ 100 mil e nem chegou na final", revelou Rogerinho Ferradura, neto de um dos fundadores do Nove de Julho, último campeão da competição, em 2014. Segundo ele, os gastos incluíam despesas com ônibus para a delegação, torcedores e pagamento de jogadores, entre outras.

Jogadores do 9 de Julho comemoram título da Kaiser de 2014
Jogadores do 9 de Julho comemoram título da Kaiser de 2014 Jogadores do 9 de Julho comemoram título da Kaiser de 2014

A Copa Kaiser também elevou algumas equipes à categoria de grandes da várzea. Entre elas, destaca-se o Ajax da Vila Rica (zona leste), uma das agremiações de maior torcida do futebol amador paulistano.

Em 2012, a final reuniu Turma do Bafô e Ajax e levou mais de 30 mil torcedores ao estádio do Pacaembu. O time da zona leste foi o vencedor daquele campeonato.

Novas copas ampliam o poder da várzea

Atualmente, outros torneios têm chamado a atenção pelo alto nível de organização, investimentos e prestígio entre os varzeanos. Entre as novas atrações da modalidade, pode-se elencar como as mais importantes as Copas Pionner, da Paz e Martins Neto.

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"A Pionner é candidata a tomar o espaço da Kaiser. Em termos de investimentos, estrutura e organização, é a número um. A Copa da Paz é o 'brilho'. Todo mundo quer disputar. A Martins Neto tem o mesmo formato, mas perdeu a mão na organização", analisou Rogerinho Ferradura.

É decisão! Saiba como é um dia de final no futebol de várzea em SP:

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