Silvio Lancellotti Yeltsin, o centésimo ouro, e a importância do guia para o atleta

Yeltsin, o centésimo ouro, e a importância do guia para o atleta

No caso do deficiente visual de Campo Grande, o Bira, seu escudeiro fiel, essencial na estratégia que, em Tóquio/2020, levou ao seu triunfo nas provas dos 5.000m e, agora, dos 1.500m

Yeltsin e Bira

Yeltsin e Bira

@cpboficial

Por mais que galopassem, por mais velozes que fossem, os adjetivos e os advérbios de plantão no dicionário não conseguiriam acompanhar as performances de Yeltsin Jacques, sul-matogrossense de Campo Grande, e de seu fiel escudeiro Carlos Antonio dos Santos, um paulista de Ubirajara e, por isso, apelidado Bira. Assim, serei contido e bem econômico nos elogios. Aliás, eu utilizo no plural a palavra performance porque seria impossível, e injusto, dissociar o comportamento do atleta, no caso deficiente visual de nascença, uma retinite congênita que o relegou a meros 5/% de acuidade, do seu guia na competição.

Detalhe do enlace do atleta deficiente visual com o seu guia

Detalhe do enlace do atleta deficiente visual com o seu guia

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No Paratletismo, um guia como o Bira faz muito mais do que meramente escoltar. Ajuda na definição da estratégia e da tática; depois, durante a prova, sempre atento a todos os movimentos dos rivais, coordena o ritmo, antecipa as ações a adotar e, literalmente, corre junto do atleta. Isso, com uma fita que os conecta, geralmente presa aos dedos das mãos opostas. No caso, a direita de Bira e a esquerda de Yeltsin. Ao guia, apenas, é proibido, terminantemente, puxar o atleta, atravessar à sua frente a linha de chegada ou deixar que a fita escape, razões para desclassificação. No caso da fita, eventualmente uma regra cruel.

Yeltsin e Bira, unidos pela mãos

Yeltsin e Bira, unidos pela mãos

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Bem, no caso, os 1.500m da categoria T11 desta terça-feira, 31 de Agosto, nos Jogos de Tóquio/2020, triunfo espetacular de Yeltsin, a centésima medalha de ouro do Brasil na sua gloriosa aventura em Paralimpíada, pois na prova do dia 26, dos 5.000 que ele havia vencido, a fita ficou no seu punho direito. Explico. Ocorre que, então, além do Bira, o campeão teve um outro guia, Laurindo Nunes Neto. Costumeiramente, nas longas distâncias, um atleta pode trocar de guia no meio da prova. Sempre por uma questão de estratégia, Yelstin & equipe resolveram desfrutar ao máximo a resistência de Laurindo, que gosta de segurá-la com a mão esquerda. Os dois lideraram um pelotão de dez até os 3.500m e não se abalaram quando, no comecinho da volta derradeira, Kenya Karazawa, do Japão, abriu vinte passadas. O rápido Bira assumiu a função e daí Yeltsin disparou.

Yeltsin e Bira, depois do triunfo e pouco antes de se soltarem

Yeltsin e Bira, depois do triunfo e pouco antes de se soltarem

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Para os 1.500 a estratégia foi ganhar a ponta logo ao som da largada. Completou 400m em 1’04”12, cerca de cinco passadas à frente de um pelotão de seis adversários. Nos 800m, tempo de 2’07’88”, uma volta mais acelerada que a inicial, a vantagem se ampliou quatro vezes. Nos 1.200, quando o sino da fiscalização anunciou que se avizinhava a linha de chegada, com 3’11”03 a diferença já se abrira para uma meia curva da pista. Yeltsin & Bira encerrariam a disputa em 3’57”60, um tempo 9” melhor do que o seu primado pessoal, um novo recorde mundial, cerca de 15 metros de folga sobre os desalentados Shinya Wada, do Japão, com 4’05”27, e Fedor Rudakov do Comitê Olímpico da Rússia, com 4’05”55.

Raíssa Rocha Machado

Raíssa Rocha Machado

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O segundo ouro de Yeltsin, 13º do País em Tóquio/2020, o centésimo do Brasil desde a sua estreia no evento no já longínquo ano de 1984, nos Jogos ainda incipientes que Los Angeles/EUA e Stoke Mandeville/Inglaterra, de todo modo não empanariam as conquistas que talvez viessem na segunda-feira. Yeltsin e Bira ainda não tinham subido ao pódio quando Raíssa Rocha Machado, uma baiana de Ibipeba, 25 de idade, abiscoitou a prata no Lançamento de Dardo da categoria F56, para os deficientes físicos que necessitam precisam competir sentados: ela nasceu com uma má-formação nas pernas. Capaz da marca pessoal de 23m96, Raíssa havia obtido 24m39 na terceira das suas seis chances, atrás somente dos 24m50, recorde mundial de Hashemiyeh Motaghian Moavi, do Irã, quando Diana Dadzite, da Letônia, a dona do melhor índice de entrada, principiou as suas tentativas. Dadzite, da categoria F55, menos comprometida e favoritíssima, tinha 27m07. Mas não passou dos 24m22. E a baiana relaxou, vibrou, e amealhou a justa prata.

Carol Santiago

Carol Santiago

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Ocorreria, então, o já clássico intervalo, a madrugada no Brasil e a tarde no Japão. E a piscina logo hospedaria a decisão dos 100m Livre, classe S2, de deficientes visuais, com duas brasileiras em ação. Uma recifense de 36 anos, Carol Santiago só percebe formas com o olho esquerdo e não dispõe de visão periférica no direito. De todo modo, já havia arrematado o bronze dos 100m Costas e o ouro dos 50m Livre – este, com o novo recorde dos Jogos. Nas eliminatórias, cravara a terceira melhor marca, 1’01”61. E Lucilene de Silva Souza, 21, paraense de São Miguel do Guamá, registrara a segunda, 1’01”61. Caçula de dez irmãos, Lucilene nasceu com lesões de nervo ótico, e, aos poucos, perdeu totalmente a visão, condição congênita que afetava dois de seus manos, os seus estimuladores na busca de algum esporte. A paraense não melhorou o seu tempo e, com 1’02”42 ficou na quinta posição. Carol, no entanto, impactou a russa Daria Pikalova, única da prova a ostentar um tempo abaixo do minuto nas eliminatórias, 59”48, e abiscoitou o ouro, 59”01. Enquanto Carol ouvia os gritos que confirmavam seu sucesso e abria um sorriso de serena alegria, Pikalova, 59”13, dava murros na água. Esportividade zero diante do ouro #101 do Brasil. Aliás, detalhe, o 14º em Tóquio/2020, igualado o número dos Jogos do Rio/2016.

Gabriel Bandeira

Gabriel Bandeira

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Como Carol, também voltou à piscina de Tóquio outro multi-ganhador de lauréis, os seus na categoria S15 para deficientes intelectuais. De Indaiatuba/SP, 21 de idade, Gabriel Bandeira atravessou a infância com dificuldade de aprendizado e de entendimento. E compensa os seus atrasos de largada com arrancadas irresistíveis. Levou o ouro nos 100m Borboleta, a prata nos 200m Livre, e o bronze no revezamento de 4 X 100 Medley. Agora, nas eliminatórias dos 200 Medley, marcou apenas 2’15”35, o sexto tempo. Prometia, porém, melhorar na decisão. E de fato realizou uma exibição sensacional, tipicamente sua. De segundo no Borboleta, a sua especialidade, caiu para quarto no nado de Costas, brigou para manter o quarto no Peito, e reagiu brilhantemente no Crawl, o tempo final de 2’09”56 a apenas 1”54 do ouro do britânico Reece Dunn, um novo recorde mundial.

Mariana Ribeiro

Mariana Ribeiro

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Muitas vezes não passa de ilusão uma classificação em primeiro lugar nas eliminatórias. Na sua imensa maioria os atletas de ponta, seguros da sua classificação, poupam energias para a decisão. Fluminense de Itaboraí, 26 anos, quinta colocada nos 50m Livre da classe S10, deficientes físicos de menor comprometimento, Mariana Gesteira Ribeiro não tinha dúvida quanto a tal situação. Tanto que, pouco antes da prova, numa conversa de WhatsApp, manifestou que ficaria felicíssima se subisse ao pódio. A sua condição deriva de uma certa Síndrome de Arnold Chiari. que afeta desde o cérebro ao sistema nervoso e à pressão sanguínea, pode levar a um turvamento da visão e cria a sensação incômoda de estar prestes a cair. O seu tempo de 1’03”56, de fato, foi o melhor da classificação. Na final, até aprimorou a sua marca, 1’03”30. Todavia, não resistiu às investidas da espanhola Sarai Gascón, com 1’02”77, e da neozelandesa Sophie Pascoe, 1’02”37. No pódio, de posse do bronze, Mari vibrou como se tivesse coletado uma medalha de ouro.

Douglas Matera

Douglas Matera

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Na última prova da Natação, no último dia de Agosto, o Revezamento Misto de 4 X 100 Livre, 49 pontos, o Brasil foi à piscina com o segundo índice de inscrição, 3’53”17. Os pontos se referem à soma dos valores que o Comitê de Avaliação estabelece para cada categoria dos atletas. Por exemplo, os deficientes físicos vão de 1 até 10, e quanto menor o número, menor a sua funcionalidade. Os visuais vão de 11 até 13. Aos deficientes intelectuais se designa o 14.  A soma dos quatro integrantes do time não pode ser superior a 49. Os treinadores do Brasil escolheram Carol da S12, Lucilene Souza da S12, Wendell Belarmino da S11 e Douglas Matera da S13. Total de 48 pontos. Ou, dentro do limite máximo.

Carol Santiago, um ouro e uma prata em menos de duas horas

Carol Santiago, um ouro e uma prata em menos de duas horas

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Fator crucial no Revezamento Misto é a ordem com que os atletas entram na água. Um time pode começar com um 13 e daí disparar à frente de outro que começou com um 11. Ou começar com os homens diante das moças dos rivais, abrir uma folga enorme, e esperar que as garotas, depois, contenham os rapazes dos rivais. Precisamente a opção deste 4 X 100. Wendell e Douglas conduziram o Brasil a uma liderança farta, Lucilene preservou a folga como pôde mas Carol foi atacada impiedosamente pelo russo Vladimir Sotnikov e por Kirylo Garashchenko, da Ucrânia. Não conteve o russo mas se defendeu do outro, Brasil dono da prata. E inominável o comportamento do outro, machista. Furioso por perder de uma dama, lançou longe a sua touca e quase espancou a borda da piscina.

Thalita, Veloso, e a fita que se solta no último metro

Thalita, Veloso, e a fita que se solta no último metro

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Completado o programa da Natação, principiaria o do Atletismo. E depressa, na pista, com duas competidoras numa final de apenas quatro disputantes, aquela dos 100m T11 para deficientes visuais, o Brasil já teria, no mínimo uma medalha assegurada. Haveria, porém, uma enorme possibilidade do ouro com Jerusa Geber dos Santos e o guia Gabriel Aparecido. Uma acreana de Rio Branco, 39 de idade, Jerusa nasceu com as vistas cobertas por cataratas, aos quatro anos passou por cirurgias que atenuaram as deficiências mas, aos 18, um glaucoma a tornou cega de vez. Um amigo de curso de adaptação a convenceu a aderir ao Atletismo e, logo aos 19 se tornou a primeira do planeta a correr os 100m em menos de 12”. Era a recordista mundial, 11”85 desde 2019. Potiguar de Natal, 24 de idade, Thalita Simplício já tinha a prata dos 400m na T11, escoltada por seu guia Felipe Veloso. Um problema congênito se agravou na sua infância e a tornou praticamente cega aos 12 anos. Infortúnio absoluto. Um chuvaréu caiu bem no momento da largada. Tanto Jerusa como Thalita perderam suas fitas de conexão com cada guia. Jerusa parou no meio da reta. Thalita ainda cruzou a chegada em terceiro lugar e acabou desclassificada. As duas choraram, desbragadamente, como o temporal que desabava, inoportunamente.

Jardênia, um bronze antes de fazer 18 anos

Jardênia, um bronze antes de fazer 18 anos

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Também uma potiguar de Natal, 18 anos no próximo dia 9 de Setembro, desde meninota Jardênia Félix da Silva se dedicou ao Atletismo convencional sem imaginar que era uma deficiente intelectual. Dificuldades de aprendizado e de concentração levaram sua família e seus professores a procurar orientação e ela mudou o seu roteiro. Seu tempo de 58”19 foi o quarto das eliminatórias. Cresceu demais, todavia, na decisão. Esbelta, pernas longas, as passadas elegantemente largas, prenunciou um belo futuro com 57”43, o melhor registro de sua vida, na distância, e a inesperada medalha de bronze que fechou o dia 31.

Jardenia e a sua medalha

Jardenia e a sua medalha

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