Uma análise de cinco novas regras propostas para o velho Futebol
Ideia do IFAB e da Fifa, até Março de 2021 em testes nas categorias menores da Holanda. Praticamente todas, porém, não passam de enormes tolices.
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Imagine-se o cenário. Paróquia de Craigavad, “A pedra que ancora o barco”. E a cidadezinha de Holywood, “O bosque santo”, 12.000 habitantes. Região metropolitana de Belfast, 700.000, a capital e a maior cidade da Irlanda do Norte, uma das nações da Grã-Bretanha. Lá fica o Colluden Hotel, num castelo magnífico de 1876, diária mínima em torno de R$ 1.100,00 por cabeça.

Em tal esplendor, de 29 de Fevereiro a 1º de Março, cerca de cem pessoas, entre cartolas do Futebol internacional, os seus assessores e inclusive familiares, se congregaram na 134ª reunião da vida do IFAB, o International Football Association Board, criado em 1883 para administrar as normas que teóricamente regulamentam o chamado Esporte Bretão, ou Ludopédio.

Apesar de todo o volume de gente que colocou no hotel, o IFAB, na realidade, só ostenta oito integrantes decisivos. Quatro representam a Grã-Bretanha: além da Irlanda do Norte, a Escócia, a Inglaterra e o País de Gales. Os outros quatro são indicados pela FIFA, uma entidade mais nova, fundada em 1904, a encarregada de tudo que envolve o Futebol, com a exceção das suas regras. Por cláusula pétrea, apenas o IFAB pode promover modificações nas normas existentes e autorizar a inclusão de outras, destinadas a modernizar o esporte menos flexível de todos. Difícil. É compulsória a maioria de seis votantes.

Na sua reunião de número 134, sob a liderança de David Martin, o presidente da federação da Irlanda do Norte, os membros do IFAB, mais Gianni Infantino, presidente da FIFA, e mais um elenco providencial de anspeçadas, se analisaram mudanças determinadas na reunião anterior, a 133, realizada em Aberdeen, na Escócia, em 2 de Março de 2019, como a não obrigatoriedade da exposição de um cartão amarelo em todas as situações de pênalti, e como a orientação aos mediadores nos casos de toque de mão no interior da grande área: evitar uma punição quando a pelota meramente resvalar, ou apenas se desviar, naquelas partes dos antebraços mais próximas dos omoplatas.

Principalmente, porém, na reunião se autorizaram testes que, até Março de 2021, ocorrerão em certames de base dos Países Baixos, ou Nederlândia. Olheiros da FIFA e do IFAB testemunharão os testes e, então, produzirão um relatório para a análise da 135ª reunião, já marcada para 6 de Março de 2021. Como o protocolo do IFAB propõe um rodízio nas sedes, a 135ª acontecerá provavelmente no Miskin Manor Hotel de Groes-faen, no País de Gales. Então, se houver a indispensável maioria dos seis votantes, o velho Futebol passará a exibir uma ou talvez mais de uma das seguintes novidades experimentais. Eu, se você que me lê permitir a ousadia, sou favorável a somente uma delas.
Nas saídas pela lateral, reposição da bola com os pés.
Totalmente contra. Transforma o jogo numa interminável sucessão de cruzamentos ou de chuveirinhos. Aliás, como num arremesso lateral não existe o impedimento, provocaria um congestionamento infame na grande área. O atacante, claro, tenderia a ficar o mais perto possível da meta e exigiria o recuo concomitante da defesa. Só deve valer nas categorias de base, mesmo, porque meninos e meninas não dispõem de força nos braços.

Nas cobranças de infração, não mais se penalizar aquele atleta que, mesmo involuntariamente, tocar duas vezes na bola.
Totalmente contra. Cobranças nas imediações da linha da grande área estimulam o treinamento e a especialização. Com essa autorização, estaria honrado quem precisa dar uma ajeitada, por ter menos competência.
Autorização de trocas ilimitadas, como no Basquete.
Totalmente contra. Uma quadra de Basquete mede 28m X 19m. E um gramado de Futebol, no Padrão FIFA, mede 100/110 X 64/75. Trocas ilimitadas, em tais dimensões, transformariam uma partida numa balbúrdia. Sem falar no tempo absurdo que as substituições em série consumiriam. Sou favorável apenas às substituições temporárias no caso de um jogador qualquer se lesionar, por exemplo, depois de uma cabeçada, e parecer ameaçado de uma concussão. Depois de recuperado, e liberado, se faria a reversão.

Com a bola parada, cronômetro sempre desligado.
Totalmente contra. Já me parecem suficientes as normas atuais, com os acréscimos em cada metade de prélio. Sem falar que a duração de um cotejo ficaria imprevisível, e tornaria basicamente inviável a programação da TV.

Eventual exclusão de campo por tempo determinado.
Favorável, como já existe, por exemplo, no Handebol, no Pólo Aquático e no Hóquei no Gelo. Às vezes, um atleta recebe dois cartões amarelos por bobagem, como tirar a camisa numa comemoração. Merece uma punição. Mas, por meros minutos, e de acordo com a intensidade do seu erro.
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