Um adeus ao Zé Hugo, o inspirador de uma "Nova Cozinha Brasileira"
Paulista de 1932, radicado no Rio mas cidadão do mundo, foi um pioneiro na criação de cardápios de degustação baseados nos ingredientes do País
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Amizade, carinho e respeito à parte, posso escrever que, profissionalmente, eu fui o pai e fui o filho de José Hugo Celidêonio (1932-2018). Era paulista, porém morava no Rio, e não nos cruzávamos tantas vezes assim. Desde os anos 60, porém, a cada vez em que eu rumava à Cidade Maravilhosa, aceitava os seus convites para visitar a Flag, uma boate, coisa rara, então, que também ostentava a possibilidade de uma Gastronomia de fato deliciosa.
Quando, já nos anos 70, o Zé abriu a Flag da Paulicéia, o contato se tornou mais costumeiro. Assim, naturalíssimo que, em 1977, quando eu assumi a direção de redação da “Vogue-Brasil”, decidisse chamá-lo a escrever na revista. Funcionou, o Zé logo conquistou uma coluna bi-semanal na “Folha” e, em 1981, me revelou que pretendia abrir um restaurante no Rio. O seu mote: abrasileirar a então na moda “Nouvelle Cuisine” e daí praticar uma culinária bem moderna com os ingredientes mais típicos aqui do País.

Nasceu em Botafogo, num imóvel aprazível que ele e a esposa Marialice cuidavam com um desvelo exemplar, o Club Gourmet, que logo se transformou em um dos lugares multiestrelados da América do Sul. Principal destaque, o seu superlativo menu de degustação. A cada noite o cliente deparava com a possibilidade extasiante de três entradas, três segundos pratos (dois de pescados e um de massa), três pratos de carne e três de sobremesa. Fazia a sua escolha, um item de cada, e então se deleitava.

Paralelamente, montou a melhor cave de vinhos do Brasil – 5.000 garrafas devidamente climatizadas. E o Zé não se limitava à retaguarda. Com os bigodões que viraram sua marca registrada, de jaqueta branca desfilava pelo salão a contar as histórias formidáveis das suas andanças através do planeta. O Club Gourmet perdurou até o princípio do Século XXI, quando o mestre optou, digamos assim, por uma semi-aposentadoria pública.

Não resistiu, contudo, e em 2017 refez o ponto precioso num complexo da Lagoa Rodrigo de Freitas. E foi perto de lá que, na noite de domingo, numa charmosa pizzaria do Jardim Botânico, se sentiu mal e partiu. Marialice, a sua parceira de 55 anos, obviamente estava ao seu lado. Os dois de fato, eternos namorados, nunca se separavam. E como, profissionalmente, o Zé foi meu pai? No final da década de 80 ele apresentava, na Manchete, um programa bem humorado, o “Lugar de Homem é na Cozinha”. Quando resolveu parar, me designou como o seu herdeiro. Sem outras palavras, Zé: “Grazie mille”.
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