Silvio Lancellotti Situação difícil, o futebol da Velha Bota nas mãos de não-italianos

Situação difícil, o futebol da Velha Bota nas mãos de não-italianos

De novo a Roma troca de donos. Investidores ou especuladores? Um drama que atinge Inter e Milan. Só Juve, Lazio e Napoli continuam com os nativos.

A Juve de 2018/2019, no oitavo dos seus nove títulos consecutivos

A Juve de 2018/2019, no oitavo dos seus nove títulos consecutivos

juventus.com

Ainda faltam quatro semanas para que principie, no dia 19 de Setembro, a temporada de 2020/21 da Série A do futebol da Velha Bota, a briga de dezenove clubes versus a Juventus de Turim, que busca o decacampeonato, o décimo título em seguida. A janela de transferências se abre em 1º de Setembro, na próxima terça-feira. Mas, no departamento da cartolagem, o denominado “mercato estivo”, ou o “mercado de Verão” no hemisfério Norte, já apresentou ao menos uma novidade radical. De novo, e foi a segunda vez apenas nesta década, que a Roma mudou de donos. E desafortunadamente continua em poder de cidadãos imponntes mas não-italianos.

Rossella e Franco Sensi, da Roma

Rossella e Franco Sensi, da Roma

ASRoma

Na Bota, as agremiações seguem a conceituação “S.p.A”, ou “Società per Azioni”, o seu capital fracionado em um determinado volume de quotas, ou títulos de propriedade. Desde 1979 sob o domínio das famílias Viola e Sensi, em Setembro de 2011 a tradicional esquadra rubro-amarela da Cidade Eterna foi adquirida por um grupo dos Estados Unidos, liderado por um certo Thomas DiBenedetto, que também era sócio, por exemplo, do Liverpool inglês e do Boston Red Sox do beisebol norte-americano. Depressa DiBenedetto se cansou do brinquedo e em Agosto de 2012 cedeu o negócio a James Pallotta, este conectado a diversos investidores de ramificações multinacionais.

Pallotta, da Roma

Pallotta, da Roma

ASRoma

Os torcedores da “Loba”, sempre criticaram DiBenedetto por seu ostensivo distanciamento do cotidiano da equipe. De certo modo, até apreciaram Pallotta, mais constante e simpático, inclusive na tribuna do Stadio Olímpico. Pena, porém, que a sua aparente dedicação e que a dinheirama aplicada em reforços não tenham produzido nada além de três vices no campeonato, atrás da odiada Juventus, ou de uma heróica exibição nas semis da Liga dos Campeões de 2017/2018. Depois de perder do Liverpool, 2 X 5, como visitante, chegou a fazer 4 X 2 em casa e ficou a um mero tento da possibilidade de uma prorrogação. E Pallotta, daí, paulatinamente se desgastou.

Friedkin, da Roma

Friedkin, da Roma

ASRoma

Consta que DiBenedetto gastou o equivalente a R$ 1,6 bilhão na compra da agremiação, valores corrigidos para 2020. E consta que passou a Roma a Pallotta por cerca de R$ 1,2 bilhão. Agora, dia 17 de Agosto, um outro norte-americano se tornou proprietário do clube, Dan Friedkin, um mega-produtor de cinema e um mega-distribuidor de veículos Toyota. Consta que despendeu o correspondente a R$ 3,1 bilhões. Tudo formalmente documentado, o que evita qualquer acusação de picaretagem. Mas, bem difícil  acreditar que a cotação da Roma tenha se alterado em função da sua irregularidade. Melhor imaginar que a “Loba” tenha virado uma simples ação entre amigos.

Andrea Agnelli com os pais, Umberto e Allegra, da Juventus

Andrea Agnelli com os pais, Umberto e Allegra, da Juventus

juventus.com

Nesse cenário, pode-se aceitar como lógicas as condições que, por exemplo, propiciaram à Juventus abiscoitar os seus nove “scudetto” seguidos. E que a Lázio, também da Cidade Eterna, e que o Napoli, da Terra da Pizza, tenham se transformado nos seus contendores mais agressivos. A “Senhora” pertence à mesma Família Fiat/Agnelli, ou aos seus apoiados, desde 1923. Claudio Lotito, um empresário na terceirização de serviços de higienização de edifícios e de distribuição de refeições, assumiu o trono da “Águia” em 2004. Ano da compra do “Burro” por Aurelio de Laurentiis, ultra-magnata do cinema e da TV.

De Laurentiis, do Napoli

De Laurentiis, do Napoli

Reuters/Ciro de Luca

Alguém lembrará que a Internazionale de Milão acabou o certame de 2019/2020 um ponto atrás da Juventus, e que essa mínima distância deve ter aborrecido a líder. A “Biscione”, a serpente mitológica da Lombardia, contudo, só reduziu a vantagem na tabela de classificação depois de a “Zebra” vestir as faixas e depositar o troféu numa prateleira. Pior ainda, derrotada a Inter pelo Sevilha da Espanha na final da Liga Europa, o seu treinador Antonio Conte protestou vementemente contra a sua diretoria e contra o atual dono, o chinês Zhang Jindong, que tomou a coroa do indonésio Erick Tohir (2013-2018), que tinha destronado a Dinastia Moratti, no comando desde 1955.

Tohir e Màssimo Moratti, da Inter

Tohir e Màssimo Moratti, da Inter

Inter.it

Herdeiro de um grupo hoje batizado de Suning Holdings, cujos tentáculos nasceram em 1990 num ponto de venda de aparelhos de ar condicionado na cidade de Tianchang, Zhang tem um passado tão misterioso que sequer se sabe o dia exato do seu aniversário. Biografias vagas falam em 1963. E no entanto cravam o seu patrimônio em cerca de R$ 36 bilhões, estações de rádio e TV, dezenas de canais de e-commerce e mais de 1.600 lojas através da China. O “Calcio”? Só um brinquedo. De todo modo, nesta manhã de terça, 25 de Agosto, Zhang se reuniu com Conte na desesperada tentativa de segurar o décimo treinador da Inter desde a sua última gestão exclusivamente italiana, a dos Moratti. Acertaram as pazes. Até quando? Uma enorme incógnita.

Antonio Conte e Zhang, da Internazionale

Antonio Conte e Zhang, da Internazionale

@Inter

Parece tão maluco o caxangá, o troca-troca nos postos de poder no futebol da Bota, que a Fiorentina, ineditamente na sua história quase centenária, inaugurada em 1926, em Junho de 2019 desembarcou por vias transversas no colo de “stranieri”: seu presidente Rocco Commisso, também o dono do ressuscitado New York Cosmos do King Pelé, nasceu na Calábria mas preferiu adotar a cidadania norte-americana. Joey Saputo, dono do Bologna desde 2014, é um canadense filho de um siciliano que enriqueceu com o comércio de laticínios e que, afortunadamente, ao invés de queimar fortunas com atletas em decadência, escolheu se empenhar na revitalização do venerável Stadio Renato Dall’Ara, construído em 1927 e mal reformado em 1989.

Joe Tacopina, com o cachecol do Venezia

Joe Tacopina, com o cachecol do Venezia

Reprodução Venezia

Maluco também parece ser Joseph Tacopina, igualmente de sangue siciliano, um advogado criminalista de táticas tão histriônicas que o “The New York Times” o batizou de “O Donald Trump” dos tribunais. Tacopina, apelidado Joe, já defendeu de atletas acusados de doping a políticos pronunciados por prevaricação. Seu cliente mais famoso: o célebre Michael Jackson, denunciado como molestador de crianças. Tacopina tentou ser sócio de DiBenedetto na Roma. E tentou ser sócio de Saputo no Bologna. E enfim, em 2015, adotou um caminho menos tortuoso e, por uma ninharia, comprou o falido Venezia. O clube chafurdava na Série D. Porém, graças às generosas injeções de grana de Tacopina, conseguiu, em 2017, retornar à Série B e lá permanecer.

Jiang, do Parma

Jiang, do Parma

Chinaples

Dois episódios, patéticos, envolvem times que já viveram matizes diferentes de sucesso. O Parma, de apogeu entre o final da década de 80 e os meados da década de 90, nos idos da Família Tanzi/Parmalat, em Junho de 2017 ouviu o canto da sedução emitido pelo chinês Jiang Lizhang, de origem obscura, simultaneamente majoritário no Granada do futebol da Espanha e nos Minnesota Timberwolves do basquete dos EUA. Em Outubro de 2018, aconteceu uma recomposição societária e, em Janeiro de 2020, Jiang não depositou um aporte que prometera e, claro, foi excluído do negócio.

Berlusconi e Li, do Milan

Berlusconi e Li, do Milan

@ACMilan

Trauma semelhante abalou o Milan, que havia pertencido à Fininvest do controverso Sílvio Berlusconi desde 1986 a Agosto de 2016 e foi vendido a um tal de Li Yonghong, especialista chinês no golpe da “Pirâmide de Dinheiro” e que, na hora aprazada, não apareceu com a grana. Em 12 de Julho de 2017, outro especulador, Paul Singer, criador da Elliot Management, topou pilotar a nau sem governo e indicou como preposto Ivan Gazidis, um sul-africano de origem grega que logo se indispôs com os atletas e com o treinador Stefano Pioli, quinto “mister” do time em meia década. Na Era Berlusconi o “Diavolo” havia arrebatado oito “scudetto”, levado cinco vezes a Liga dos Campeões, mais duas a Intercontinental e noutra o Mundial da FIFA. Bem capaz de os seus “tifosi” ainda sentirem saudades do ditadorzinho Berlusca...

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