Quem diria, cinquenta anos de Jornalismo neste 11/3/2018
Uma pequena recordação de como tudo começou, depois de um acidente de helicóptero no Jardim Europa de São Paulo, no já longíquo Março de 68
Silvio Lancellotti|Sílvio Lancellotti

Um acidente, em todas as acepções da palavra, me tornou Jornalista no dia 11 de Março de 1968, exatamente meio século atrás. Era uma segunda-feira e, no sábado anterior, o dia 9, um helicóptero havia caído no Jardim Europa, menos de um quarteirão abaixo da casa do avô da minha então namorada, a Lulu, futura mãe dos meus filhos mais velhos. O sábado em que, num mero acaso, eu estava por lá. Talvez um evento de família, não me recordo. Apenas sei que ouvi o estrondo, que algo indefinível, insondável, me atiçou, e que lá fui eu, com a Lulu, no rumo daquele barulhão atordoante.
Obviamente, um exército de gente já se concentrava nos arredores do lugar da queda. E, depressa, apareceram os bombeiros e a polícia, que isolaram o espaço. Naqueles idos eu era um Arquiteto em busca de um novo caminho profissional. Havia estagiado na Prefeitura do Faria Lima (1909-1969), o Brigadeiro que viraria avenida no mesmo bairro, mas não me satisfizera com a perspectiva de me eternizar como funcionário público. Tinha respondido a um anúncio na revista “Realidade”, de saudosa memória, tinha passado por uma infinidade de testes e, com mais cento e tantos jovens esperançosos, ganhara uma vaga no “I Curso Abril de Jornalismo”. O curso que prepararia a equipe de base de um semanário internamente apelidado de “Bacd”.

Desde o dia 4 nós presenciávamos palestras no auditório do Edifício Itália e, daí, num edifício recém-inaugurado da Marginal do Tietê, sob o comando de Mino Carta e de meia-dúzia de editores-professores, realizávamos várias tarefas práticas e, a cada duas semanas, eliminatórias. O companheirismo à parte, uma briga de foice entre moças e rapazes com diploma universitário ou com experiência na mídia em outros Estados. Imediatamente eu intuí que havia ganho da loteria. E, sem nenhuma pré-orientação, entrevistei circunstantes, bombeiros etcetera e descobri que, no desastre, tinha morrido Olavo Castro Fontoura, o magnata do Biotônico, que também viraria avenida.
Na tarde seguinte, domingo, retornei ao local da tragédia. Já não existiam curiosos. Felizmente incólume, o dono da residência havia se instalado com a família num hotel. O imóvel também não sofrera danos, além da edícula e de parte do quintal. Entrevistei, porém, quem se incumbia do rescaldo. Outros idos. Bastava se afirmar da Imprensa que os portões se escancaravam. Ninguém atentou que o documento que eu portava dizia: “Provisório”.

À noite, numa maquineta Sears, elétrica, de meu pai, eu escrevi o texto de acordo com o roteiro que já aprendera numa das palestras: “Quê-Quem-Quando-Onde-Como”. Um texto que jamais seria publicado mas que mudou a minha vida. Claro que na segunda, no tal dia 11 de Março, eu o passei a Ulysses Alves de Souza, o coordenador do Curso. Que o mostrou a Paulo Cotrim, soma de empresário da noite, psicólogo, advogado e cronista gastronômico. O Ulysses mal me olhou e disse: “É, isto não vai ir pra lata do lixo”. E, ao invés do lixo, enfiou o texto numa gaveta. No entanto, eu me desesperei. Pensei em me enfiar embaixo da mesa quando o Paulo me tirou da saleta, sorriu, e garantiu: “Garoto, fique tranquilo. Esta é a primeira vez neste século inteirinho que o Ulysses não amassa o papel, joga no lixo, manda o foca fazer tudo de novo e daí joga no lixo umas outras várias vezes...”

Eu não sabia que fora aprovado num teste essencial, o do exame vocacional, quando o foca prova ser um repórter. Daí, encerradas as duas semanas e perpetrados os cortes de uns vinte ou trinta colegas, com Pedro Cavalcanti, que viraria correspondente da Abril em Paris, me deparei sob a guarda afabilíssima e sempre didática de José Roberto Guzzo, ainda hoje, quinzenalmente, na última página de “Veja” – isso, a revista que fora “Bacd”. Cabia ao Guzzo montar a equipe que se encarregaria de “Internacional”. E porque eu conhecia alguns idiomas, além do italiano de família o inglês de meia década de Cultura, o Guzzo me colocou – quem poderia imaginar? – na área de Estados Unidos e, por extensão lógica, Guerra do Vietnam.

Eu apenas tiraria a Carteira de Trabalho em 16 de Maio e me tornaria um funcionário efetivo da empresa em 1º de Junho. O meu devido registro de Jornalista Profissional, pelo Ministério do Trabalho, apenas sairia em 28 de Abril de 1970. Mas, na série de diversos exemplares “zeros” de treinamento da turma de “Bacd/Veja”, treze efetivamente impressos, inclusive com publicidade, cheguei a cometer uma amostra de reportagem de capa sobre o assassinato de Martin Luther King, em 4 de Abril, e uma outra, ainda mais pesquisada, sobre o assassinato de Bobby Kennedy, em 6 de Junho. Depois do lançamento oficial de “Veja”, em 11 de Setembro, eu me responsabilizaria pelo texto da matéria de capa do número 9, sobre a disputa de Richard M. Nixon contra Hubert H. Humphrey pela presidência dos Estados Unidos. Nada mal para um Arquiteto. Em seis meses, da queda de um helicóptero à Casa Branca.
PS: Presente do R7, em honra desta data, a minha página ganhou uma nova e lindíssima apresentação. O desenho foi um mimo carinhoso do Ziraldo.
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