Silvio Lancellotti Por Beth Gomes, o ouro de número 99 na História paralímpica do Brasil

Por Beth Gomes, o ouro de número 99 na História paralímpica do Brasil

Numa segunda feira em que uma vitória não aconteceu por um centésimo de segundo, e Vinícius Gonçalves ganhou só a prata nos 100m, a santista de 56 anos leva o País a um passo da centésima

Beth Gomes quebra recorde mundial e leva ouro no lançamento de disco

Beth Gomes quebra recorde mundial e leva ouro no lançamento de disco

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Prometia alegrias variadas a segunda-feira, 30 de Agosto de 2021, o sexto dia dos Jogos da XVI Paralimpíada, ou Tóquio/2020, no Japão. Haveria sete provas eliminatórias na Natação, nove atletas do Brasil na piscina, quatro com chances de classificação às disputas de medalhas. Daí, no Atletismo, além de oito decisões com dez brasileiros, oito homens e duas mulheres, outras doze qualificatórias, seis rapazes e seis garotas. Ainda haveria um pódio garantido na decisão do Tênis de Mesa categoria T10 de deficientes físicos, Bruna Alexandre Costa X Qian Yang, australiana nascida na China. Ambas foram semifinalistas no Rio, em 2016. Yang, ainda pela China, levou uma prata. Bruna, o bronze. O Brasil sonhava com sua centésima medalha de ouro. Desembarcaria na sexta já com 87 na sua conta.

Claudiney Batista dos Santos

Claudiney Batista dos Santos

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A luta pelo pódio, de todo modo, começou no Atletismo, quando a noite de 29 ainda se despedia por aqui, a manhã já se anunciava no Oriente. Recordista mundial desde um evento em São Paulo, 2018, marca de 46m68, Claudiney Batista dos Santos, campeão nos Jogos do Rio, buscaria o bi, no Lançamento do Disco F56, contra sete adversários de marcas bem inferiores. Mineiro de Bocaiuva, 42 anos, em 2005 ele havia sofrido um acidente de moto e depois, numa cirurgia radical, se obrigaria a uma amputação total da sua perna esquerda, exatamente abaixo do quadril. Os atletas da F56, consequência desse tipo de lesão, têm que competir sentados e, assim, ao invés da rotação clássica, um contendor e um arremesso por vez, cada qual realiza todas as suas seis tentativas em seguida.

Claudiney

Claudiney

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Sétimo a participar, para amealhar uma prata Claudiney necessitava ao menos bater os 44m38 do indiano Yogesh Kathuniya. Queimou uma das suas seis chances. Porém, em todas as outras, sobrepujou o indiano. Melhor, com 45m59, quebrou seu recorde dos Jogos, estabelecido em 2016. Restava aguardar o grego Konstantinos Katzounis, que nunca havia passado de 42m74. O grego só evoluiu para 42m86, e não impediu o 11º ouro do Brasil nestes Jogos de Tóquio, a dois degraus do centésimo. Na final do Peso categoria F54 para mulheres, Poliana Jesus, uma mineira de Uberaba, 35 de idade e paraplégica desde um acidente brutal de trânsito em 2019, ficou em 5m68, só a sétima colocação entre oito competidoras. Uma prova bem forte, a sua. Mesmo que repetisse o seu índice de 6m20, estaria longe do bronze, 7m77, e longíssimo da possibilidade do ouro, 8m33.

Bruna Alexandre

Bruna Alexandre

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Enquanto avançava a madrugada no Brasil, ou a tarde no Japão, a torcida daqui, principalmente no Tênis de Mesa, concentrava as suas ótima energias em Bruna Alexandre da Costa, uma catarinense de Criciúma, 26 de idade, que teve seu braço direito amputado aos seis meses por causa de uma trombose. A sua rival, que nasceu sem parte do esquerdo, já havia defendido a China em Londres/2012 e no Rio/2016. Favorecida no sorteio que a colocou numa chave de só três participantes enquanto Yang caiu numa de quatro, a brasileira disputou uma porfia menos na fase das qualificação e ainda foi bye nas etapa das quartas de final. Yang, enfim disputou dois jogos mais até a decisão. Sobreviveu a uma derrota por 2 X 3, ganhou uma peleja por 3 X 1 e outras duas de 3 X 0. Na final, Bruna esteve prestes a ganhar o set inugural,10-8, a um mero ponto do desfecho, mas permitiu a virada, 11-13. Abriu 9-4 no segundo e segurou a folga até fazer 11-6 e igualar, 1 X 1. Mas não resistiu à experiência de Yang e perdeu os outros, 7-11 e 9-11, e o combate, por 1 X 3..

Daniel Dias

Daniel Dias

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E também não brotaria da Natação o almejado ouro #99.  Gabriel Mellone de Oliveira, um paulista de Cubatão, 22 anos, inaugurou nesta segunda a jornada dos brasileiros à procura de um pódio. Ele tinha 15 quando perdeu braço e perna esquerdos, atropelado por um trem no Guarujá, sua cidade de moradia, então. Nos 50m Borboleta S6, anotou apenas o sétimo tempo, 33”01. J[a com três medalhas em Tóquio, todas de bronze, ou 28 das três cores desde a sua eclosão em Pequim/2008, aos 33 anos Daniel Dias queria mais do que só aumentar o seu butim no geral. Desejava levar ao menos um ouro do Japão. Difícil tarefa nos 50m Costas S5. Na classificação, fizera apenas 36”11, o quinto tempo. Melhorou para 35”99 mas manteve a mesma colocação. Agora, quem sabe, talvez nos 50m Livre...
 

Maiara Pereira Barreto

Maiara Pereira Barreto

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Da classe S11, deficientes visuais de comprometimento extensivo, Wendell Belarmino Pereira, um catarinense de Brusque, 28 anos, passou por seis cirurgias infrutíferas na tentativa de tratar um glaucoma congênito. Tem hoje 3% de percepção nos dois olhos. De todo modo, arrasou com o seu triunfo espetacular nos 50m. Mais complicada a sua missão numa prova mais longa, de 200, e Medley, quatro estilos. Tinha como o seu melhor tempo 2’32”51. Fora o sétimo nas eliminatórias e em sétimo ficou na decisão. Só melhorou a sua marca pessoal, 2’30” 17. Uma paulista de Jacareí, Maiara Pereira Barreto, 34 anos, num acidente de moto ficou quadriplégica, mas reaprendeu a movimentar os braços. Na classe S13 para deficientes físicos, já tinha uma quarto posto nos 50m Costas, e nos 100m Livre o seu índice, 2’12”02, não lhe dava esperanças. Fez 2’10”90, um honroso sétimo lugar.

Vanilton Filho

Vanilton Filho

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Não entrou na conta das eliminatórias da Natação a prova do Revezamento 4 X 100 Livre, 34 pontos. Os 20 pontos se referem à soma dos valores que o Comitê de Avaliação define as classes dos atletas.  Os deficientes físicos vão de 1 até 10, Menor o número, menor sua funcionalidade. Os deficientes visuais vão de 11 até 13. E aos intelectuais se designa o 14. Caso um time selecione um competidor de grau 10, ou com um menor comprometimento, precisará fazer a devida compensação e relacionar os outros dentre aqueles de mais implicações. O Brasil montou o quarteto com Ruiter Silva (SM9), Vanilton Filho (S9), Talisson Glock (S6) e Phelipe Andrews Rodrigues (S10). Esteve em segundo até Talisson, o de maior comprometimento, quando caiu para a sexta posição. Não seria suficiente a recuperação do Phelipe. Um digno quarto lugar, 3’52”28, apenas 4”88 atrás do bronze da Ucrânia.

Vinícius Rodrigues Gonçalves

Vinícius Rodrigues Gonçalves

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Restava fantasiar que o centésima medalha de ouro viesse da metade derradeira da jornada do Atletismo do dia 6 de Tóquio. Antes, claro, o Brasil necessitava que explodisse a de número 99. Dispunha da chance maior um velocista, Vinícius Rodrigues Gonçalves, paranaense de Maringá, 26 anos, recordista mundial dos 100m T63 com 11”95. Vinícius sofreu um acidente de moto, aos 19, e teve a sua perna amputada. Aprendeu a correr com uma prótese e se tornou um campeão em todos os certames que disputou. Pena, desta vez foi prata apenas, Foram fatais o seu atraso mínimo na resposta ao som da largada e o fato de Anton Prokhorov, o vencedor, pertencer à categoria T42, atletas de comprometimento menor. Num acidente doméstico na sua infância, Prokhorov perdeu o braço esquerdo e se feriu na perna. O que não dificulta a sua arrancada. Fez 12”04 contra os 12”05 de Vinícius.

Alessandro Rodrigo

Alessandro Rodrigo

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Restava fantasiar que ao menos o ouro 99 despontasse do Atletismo, e das competições de campo e de força. Por 54 centímetros não proveio do Arremesso de Peso F11, com Alessandro Rodrigo da Silva, paulista de Santo André, 37 de idade. Em 2009 foi acometido de toxoplasmose e daí, paulatinamente, começou a perder a acuidade visual. No Rio, em 2016, ele ganhou no Disco, com 43m06, porém ficou apenas na décima posição no Peso, 13m99. Desta vez, um arremesso um tico mais curto, de 13m89, bastou para lhe garantir a prata. E ele ainda vai disputar a prova do Disco no dia 3, com enormes possibilidades de ouro. É o recordista mundial, desde 2019, com 46m10. Então, a expectativa se dirigiu inteirinha à uma dama santista de 56 anos, Elizabeth Rodrigues Gomes, guarda municipal e jogadora de Voleibol na seleção da sua cidade até que em 1993 recebeu o diagnóstico de Esclerose Múltipla. “Cada dia é um dia” se tornou o seu lema, desde então. Beth chegou a praticar o  Basquete de Cadeira de Rodas Mas escolheu o Atletismo. Felizmente. A última a entrar em cena, num total de 9 adversárias, logo no seu arremesso inicial, com 15m68, sobrepujou os 15m48 da então líder, a ucraniana Iana Lebiedeva, recorde paralímpico, o topo do pódio já no seu currículo. Ainda 17m62, novo recorde mundial. Marfavilhosa Beth. A centésima medalha do Brasil bem pode ficar para ujma outra data.

Beth Gomes

Beth Gomes

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