Silvio Lancellotti Os dilemas e os impasses que atrapalham o retorno do Calcio

Os dilemas e os impasses que atrapalham o retorno do Calcio

O governo da Bota autorizou o retorno de qualquer cidadão aos exercícios em espaços abertas. Para os profissionais, porém, o problema ainda é enorme.

O Futebol em tempos de distanciamento social

O Futebol em tempos de distanciamento social

Reprodução

No livro “I Promessi Sposi”, aqui traduzido como “Os Noivos”, o milanês Alessandro Manzoni (1785-1873), um dos expoentes da literatura da Velha Bota, descreve as agruras de um casal de apaixonados em meio à peste que, em 1628,  assolou a região da Lombardia dominada pelo Império Espanhol e ainda ameaçada de invasão pelo Império Austríaco. Num dos seus diálogos mais famosos e, no momento, mais pontuais, um nobre determina a seu cocheiro de que modo agir durante a praga: “Avanti, com giudizio”. Ou, siga adiante; com a maior das cautelas, porém. Nada mais natural.

Alessandro Manzoni

Alessandro Manzoni

Reprodução

Certamente um leitor de Manzoni, tão obrigatório, lá na Itália, como o Machado de Assis (1839-1908) por aqui, Vincenzo Spadafora, Ministro do Esporte da Bota, adota a mesma ponderação em relação à retomada do Calcio. A sua posição: “Embora se afirmem coisas diferentes, deixo claro que apenas autorizei um retorno aos treinamentos a partir de 18 de Maio. Quanto à volta dos campeonatos, eu repito, nós nem começamos a discutir. E, por favor, me perdoe, mas tenho outros temas com que me preocupar, a reabertura dos ginásios, das piscinas etcetera etcetera e tal.”

Luciana Lamorgese, Ministra do Interior

Luciana Lamorgese, Ministra do Interior

@Palazzo_Chigi

Enfim, não passa de ilusão a mal interpretada autorização de Luciana Lamorgese, a Ministra do Interior, para que os atletas em geral já possam realizar seus “treinamentos individuais” a partir desta segunda-feira, o dia 4 de Maio. Na verdade, a licença vale para qualquer cidadão do país, nos espaços públicos ou privados. E lógico, nos públicos, com uma infinidade de procedimentos de segurança, da meticulosa e constante higienização dos equipamentos de uso até a manutenção do crucial distanciamento físico de dois metros entre cada pessoa. Exemplo: os corredores de distância, de exercícios liberados nos parques abertos; os adestradores de cachorros, em praças e em calçadões; os ciclistas, nas alas designadas das avenidas.

A quadra de Tênis do Estádio Olímpico, no Foto Itálico de Roma

A quadra de Tênis do Estádio Olímpico, no Foto Itálico de Roma

CONI

Praticantes do Tênis, que sejam fichados nas federações respectivas, também podem freqüentar as quadras ao ar livre que estejam aprovadas pela fiscalização sanitária. O caso do Futebol, todavia, é absolutamente atípico. Ainda que os centros técnicos dos clubes estejam higienizados, é totalmente impossível impedir o contato dos jogadores nos vestiários ou em outros espaços de cada instalação. Spadafora conhece perfeitamente a óbvia dificuldade. E por isso solicitou, no domingo, dia 3, ao CTS, Comittato Tècnico Scientífico, do Ministério, uma análise urgente: como solucionar esse impasse das modalidades coletivas, prejudicadas em relação às individuais.

A UEFA e a Covid-16

A UEFA e a Covid-16

Reuters/Anton Vaganov

O drama se acentua no confronto entre a Federcalcio da Bota e a UEFA, a entidade que regula o Futebol no Velho Mundo. A UEFA impôs o dia 2 de Agosto como o limite para o encerramento dos certames nacionais. A França e os Países Baixos formalizaram os seus ganhadores, PSG e Ajax. No caso gaulês, houve um consenso, tão grande era a folga do time de Neymar na tabela. No caso neerlandês, porém, o AZ Alkmaar, um ponto atrás do Ajax, promete batalhar na Justiça. A Bélgica já tinha definido o Brugge como o seu campeão. Ameaçada por brigas nos tribunais, no entanto, optou por se precatar e empurrou a questão para o dia 15 de Maio.

Paolo Dal Pino, da Lega Serie A

Paolo Dal Pino, da Lega Serie A

Serie A Tim

Claro que, acuada, a Federcalcio recorre às contas. Numa hipótese otimista, imagina poder resgatar a sua Série A a partir de 6 de Junho. Na visão pessimista, o dia 13. Paolo Dal Pino, o Presidente da Liga de Clubes, depois de uma exaustiva videoconferência com os 20 da A e os 20 da B, obteve uma rara unanimidade. Todos querem que tudo se resolva nos gramados. Também prometem se adequar às imperiosidades da segurança sanitária. Todavia, quanto à eventual suspensão dos certames, lançam a granada sobre o colo dos políticos: que o Governo, só o Governo, se responsabilize.

Roberto Mancini, o treinador da Azzurra, Spadafora e Gravina

Roberto Mancini, o treinador da Azzurra, Spadafora e Gravina

FIGC

Apregoa um provérbio da Bota que o homem se prova na crise. Vicenzo Spadafora, nascido em Afrágola, região de Nápoles, 46 de idade, de carreira originada na Unicef, um ramo da ONU dedicado à promoção da infância, formado em ONGs de teor humanitário, deputado desde Março de 2018, no governo de Giuseppe Conte desde Setembro de 2019, não passava de um personagem secundário até que explodisse a Covid-19. “Apoiador da juventude que sou”, ele diz, “espero abrir os ginásios e as quadras cobertas em 18 de Maio”. Mas, embora um torcedor do Napoli, um time que necessita do campeonato para abiscoitar uma vaga na próxima Europa League, não titubeia: “A não ser que nós tenhamos uma certeza integral, podem me acusar de maluco, demonizador do Calcio, mas não permitirei a insensatez”.

Pierpaolo Sileri, o Vice-Ministro da Saúde

Pierpaolo Sileri, o Vice-Ministro da Saúde

Reprodução Agi.it

Concorda com ele Pierpaolo Sileri, o Vice-Ministro da Saúde, recém-curado de uma forma branda da Covid-19: “Não se trata de uma partida de Tênis, ou de uma prova de Fórmula 1, mas de um esporte de choques diretos, de fonte de contágio.” Enquanto isso, do outro lado da ponte segue impávido e colosso Gabriele Gravina, o presidente da Federcalcio, firme como as rochas do desfiladeiro de Castellaneta, sua terra natal na Apúlia, calcanhar da Bota: “Sim, eu tenho um Plano B, e um C, e um plano D. Mas, nenhum que faça rima com ‘fim’. Vou repetir, aqui, e pela milionésima vez. Se for o caso, se subsistirem as condições objetivas, risco à saúde de atletas, de treinadores, de assessores, de acompanhantes e tal, que o governo se responsabilize”. O bis de Dal Pino.

Damiano Tommasi, da Associazione Calciatori

Damiano Tommasi, da Associazione Calciatori

Vini Pietro Zardini

Gravina, ao menos, ainda acalenta algumas esperanças: “O tempo trabalha ao nosso favor. Os números melhoram a cada novo dia. Cancelar os campeonatos significaria a perda de 700 a 800 milhões de Euro” – o equivalente a cerca de R$ 4,8 bi. “Um retorno com os portões fechados reduziria esse prejuízo a um terço. E, com platéias, a um oitavo. Todos precisam entender que a Itália, no Futebol, é única na Europa. Temos mais de uma centena de clubes de fato profissionais. E eu não vou sepultá-los.” Dal Pino avaliza a tese: “Gravina tem a minha sintonia absoluta.” Idem, Damiano Tommasi, o presidente da Associazione Calciatori, a entidade dos jogadores: “Estamos diante da escalada do Zoncolan”, um dos montes mais íngremes da Volta da Itália no Ciclismo. “Mas, chegaremos”. Oxalá. Apenas resta convencer um intrusozinho invisível, insidioso e malévolo, o SARS-CoV-2.


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