O "Timão" prossegue na Liberta. Mas, talvez sem Fábio Carille.
Dentro da Venezuela, 7 X 2 sobre o Deportivo Lara. O seu treinador, todavia, deve se transferir, em poucos dias, aos universo saudita dos petrodólares.
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Num desses absurdos tipicamente de Terceiro Mundo, para a Copa América de 2007, na sua Venezuela, o governo de Hugo Chávez (1954-2013) inaugurou, na cidade de Cabudare, um formoso Estádio Metropolitano, capacidade para 45.212 espectadores. Detalhe: com menos de 80.000 habitantes, a cidade não tinha sequer um clube profissional de Futebol. O Deportivo Lara, que nesta noite de 17 de Maio, pela Libertadores de América, desafiou o Corinthians, nasceria apenas em 2009, com o estádio em funcionamento.

Surpreendentemente, a presença do Campeão Brasileiro, e a performance do Lara nesta 59ª edição da competição continental, não serviram para encher sequer metade do Metropolitano. No Grupo G, que inclui o “Timão” (até então 7 pontos), o Independiente de Buenos Aires (6) e o Millionários de Bogotá (4), o representante venezuelano (6), cotado como o mais fraco do quarteto, já havia superado, em sua casa, o argentino (1 X 0) e o colombiano (2 X 1). Mesmo em São Paulo, só perdeu de 0 X 2 porque cedeu um autogol aos 78’.

Conseguiria o Lara preservar a sua escrita e sobrepujar o Corinthians em Cabudare? Ocorresse um seu triunfo e, na verdade, ironicamente o elenco apelidado de “Rojinegro” quebraria um antiquíssimo tabu. Antes desta quarta, em sete combates anteriores, o “Mosqueteiro” jamais havia perdido de um adversário da Venezuela. No distante ano de 1953, na Pequena Taça do Mundo de Caracas, 2 X 1 e 2 X 0 sobre uma seleção local. Na Copa Sul-Americana de 1994, 6 X 0 e 5 X 2 no Minervén. Na Libertadores de 2012, que o “Timão” acabaria por conquistar, 6 X 0 e 1 X 1 diante do Deportivo Táchira. E os 2 X 0 de 14 de Março na sua Arena Sem-Nome de Itaquera. Pobre Lara, em pleno Metropolitano engoliu o placar desabusado de 7 X 2. E ainda corre o perigo de uma suspensão do seu estádio, conforme se lerá adiante.

À parte os fatores viagem, torcida e campo do inimigo, o elenco do Corinthians subiu ao gramado do Lara com um problemaço no cangote: a ameaça praticamente definida de que o seu fraternal treinador Fábio Carille deve assinar um contrato milionário com os petrodólares dos sauditas. Claro, Carille merece, provavelmente o sub Osmar Loss se transformará no titular. Como reagiriam, todavia, os seus pupilos queridos? Aparentemente, sem abalos. Tanto que o “Mosqueteiro” sossegadamente mandou nas ações, sem sofrer o mínimo perigo, até que aos 10’, num avanço fulminante, o garoto Pedrinho, outra vez predominante numa pugna, tocou a Jadson que bateu de canhota. A bola resvalou no interior do poste e entrou, 1 X 0.

Dono da pugna, o “Timão” duplicou aos 31’, um penal ingênuo mas indiscutível, de Anzola em Rodriguinho. De novo Jadson, 2 X 0. Antes da cobrança ocorreu um episódio simultaneamente costumeiro e inusitado na Libertadores. Um objeto, talvez uma garrafa, atingiu um atleta. Objeto lançado exatamente de onde se localizavam as organizadas do Lara, bem atrás da meta de Curiel, absurdo, o su próprio arqueiro. O objeto explodiu no travessão e um pedaço acertou a nuca de Curiol, perplexo. Balbuena, um dos paraguaios do Corinthians, liderou a cata dos cacos que se espalharam. Pena, para Carille & Cia, que a vantagem levasse ao imperdoável relaxamento.

Aos 45’, o rápido Reyes invadiu o flanco esquerdo da retaguarda do “Mosqueteiro” e, quase sem ângulo, desferiu o petardo da sua vida. Cássio mal percebeu que um foguete não identificado atravessou os seus braços. Rodriguinho já havia desperdiçado uma chance crucial, a sete metros do arco de Curiel, na etapa inicial. Pois logo depois do intervalo, aos 48’, queimou outra chance. Aos 51’, contudo, Sidcley, o cada vez melhor substituto de Guilherme Arana, cruzou da esquerda e, no outro lado, majestosamente, Jadson aparou de chapa, 3 X 1. Prélio basicamente fechado, não insistissem alguns idiotas mais bravios do Lara em arremessar coisas no campo. Agora, sem que a polícia interviesse, no rumo das costas de Cássio.

Por treze minutos, cotejo interrompido, o árbitro, os seus auxiliares, delegados da Conmebol e congêneres, alguns a esconderem nas mãos as tais coisas ou os seus cacos, confabularam e reconfabularam sem que as apelidadas forças da ordem adotassem qualquer providência. Enfim, de novo a bola em jogo, aos 69 oficiais, uma triangulação Pedrinho-Jadson-Rodriguinho propiciou a Sidcley o gol dos 4 X 1. O Lara ainda cravaria o seu segundo, 2 X 4, aos 76’, num lance curioso e acidental, chute de Reyes que, à maneira de um fliperama, rebimbou na canela de Jesús Hernández e enganou Cássio. Vã alegria. Aos 86’, Mantuan cruzou da destra e, na linha da área pequena, num voleio espetacular, inesquecível, Romero arrematou, 5 X 2.

Nos acréscimos, recém-entrado, Júnior Dutra capturou uma pelota ainda na sua metade do gramado e galopou na lateral canhota até conquistar os 6 X 2. E logo após ele mesmo pegaria um rebote na marca das onze jardas, 7 X 2. Como a porfia Millionários X Independiente terminou em 1 X 1, na cota dos 10 pontos o “Timão” assegurou a sua passagem à próxima fase da Libertadores. O clube de Buenos Aires subiu aos 7, no degrau em que o Deportivo Lara empacou. O clube da Colômbia ficou em 5. Dia 24 a decisão da liderança: Independiente X Lara e Corinthians X Millionários. Com o “Mosqueteiro” possivelmente sem Fábio Carille, o seu excelente condutor desde 2017.
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