O projeto de Roberto Mancini para uma renovada "Squadra Azzurra"
Com a Itália fora da Copa pela primeira vez desde 1958, ele critica os atletas que vêem na seleção um mero objetivo e não um meio de crescimento
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Suprema ironia. Na mesma data em que o mundo todo conhecia os elencos básicos das 32 nações qualificadas à Copa da Rússia, melancolicamente, sem trombetas e sem tambores, diante de um pequeno pugilo de jornalistas, a FIGC, Federazione Italiana Giuoco Calcio, apresentou o novo treinador da “Squadra Azzurra”. Depois do fracasso do frustrante Gianpiero Ventura, que não conseguiu levar a representação do Calcio ao seu primeiro Mundial desde 1958, enfim, no palco, alguém com um currículo de fato, Roberto Mancini, de Jesi, leste da Bota, 53 anos idade, completados em Novembro.

Um ponta-de-lança à moda antiga, um fantasista, capaz de driblar e de lançar, apelidado Mancio, ele se destacou na Sampdoria de Gênova que, na temporada de 1990-91, ganhou o único scudetto da sua história. Muito amigo de Toninho Cerezo, compunha com Gianluca Vialli a dupla dos “gêmeos do gol”. Cerezo os apresentou ao Guaraná e os gemelli até montaram uma empresa para importar o refrigerante brasileiro. Pela Samp, em 424 pugnas anotou 132 tentos, Pela “Azzurra”, 4 em 36 prélios. Dependurou as chuteiras na Lazio de Roma, em 2000, e logo se tornou treinador. Foi tricampeão com a Internazionale de Milão, de 2006 a 2008. Com o Manchester City, levantou a taça da Premier League da Inglaterra no torneio de 2011/12. Estave no Zenit da Rússia, até que Roberto Fabriccini, interino na FIGC, o levasse à “Azzurra”.

Interino? A denominação atesta a crise que atravessa o Calcio, quatro vezes o detentor da Copa. No furacão que redundou na ausência da Itália na competição de agora, o presidente da FIGC, Carlo Tavecchio, demitiu Ventura e daí, acuado por diversas manifestações de desconfiança, entregou o próprio cargo. O CONI, ou Comitê Olímpico Nacional Italiano, fez de Fabriccini, seu Secretário-Geral, uma espécie de interventor pelo prazo de noventa dias, quando haverá uma nova eleição na FIGC. Como a Bota deverá disputar, nos próximos dias 28 de Maio, 1º e 7 de Junho, jogos contra Arábia Saudita, França e Holanda, se tornou impositiva a indicação de um treinador. Mancini aceitou o risco, um contrato razoavelmente curto, até o final de 2020.

Sobre o prazo do acordo e o seu salário, ele não hesita: “Eu topei o desafio, como sempre fiz na minha vida, de frente. Dirigir a Nazionale é muito mais do que o sonho de qualquer esportista. Sim, sim, eu sacrifiquei boa parte dos meus ganhos, o Zenit pagava melhor. Mas eu topei compartilhar as dificuldades por que passa a Federcalcio e basta”. Ao lado de Lele Oriali, campeão do planeta na Espanha/1982 e atual supervisor da seleção, o Mancio firmou o seu acordo no CT de Coverciano, pertinho de Florença, e ressaltou a sua emoção: “Pisei neste chão, a primeira vez, em 1978, com a Under-14. Quem diria que eu retornaria no posto de comandante?” E um líder diante de uma trabalheira monumental: a remontagem integral de uma equipe que, por deficiências de orientação, se esfacelou na moral e na técnica.

De que forma começar? Mancini não se esconde atrás da cautela: “A longo prazo, evidentemente, eu quero colocar a “Azzurra” de novo no topo da Europa e do mundo. Mas eu sei que, antes, existem muitas etapas a cumprir”. E ele solta um comentário bem-humorado: “Felizmente, como treinador da Nazionale eu não preciso correr a Europa, as Américas, a Ásia ou a África, como fazem os olheiros, para descobrir gente nova. Mesmo em situações difíceis a Itália sempre produziu talentos de enorme qualidade.” O curto prazo ele pretende encarar com pragmatismo: “Sei que os calendários de hoje são terríveis. Véspera de Copa da Rússia, os principais clubes ainda em ação, jogadores desgastadíssimos, esperar o quê? Faremos o viável”.

Por viável, nos três amistosos em que os seus adversários principiarão a sua preparação em função da Copa, o Mancio imagina, inclusive, recorrer a desprezados por Ventura, como o polêmico Mario Balotelli, ou como De Rossi, no desfecho da carreira. “Não me interessa o que aconteceu com eles no passado. Sairemos do zero, todos. Eu já conversei com o Andrea (Pirlo) e com o Alessandro (Costacurta), para que participem da comissão. Inclusive, quero convidar o Gigi (Buffon), se ele se retirar, mesmo.” E o estilo, que sistema Roberto Mancini vai implantar na sua “Azzurra”? A resposta surpreende pelo seu impacto: “O meu estilo será 11. Um grande portiere e mais 10.”

Ele decifra: “Antes de tudo eu vou montar o meu elenco com aqueles jovens que não vêem a Nazionale só como um objetivo porém como um meio de valorizarem a sua história.” E com Mancini no seu timão a seleção da Itália talvez reencontre o melhor destino em Setembro. Pois em Setembro a UEFA abrirá uma nova competição, bianual: a Copa das Nações. No sorteio, coube à “Azzurra” cair no grupo, apenas, da Polônia de Robert Lewandowski e do Portugal de Cristiano Ronaldo. Nada mal para que o seu prestígio ressurja, como a Bota merece, a caminho da Copa do Qatar/2022.
Gostou? Clique em “Compartilhar”, em “Tuitar”, ou registre a sua importante opinião em “Comentários”. Muito obrigado. E um abraço enorme!



