O livro empolgante de Rabino, um bravo correspondente de guerra
Adequadamente intitulado "Escritos com a pele", reúne uma bela coletânea dos 55 anos anos de carreira de Moisés Rabinovici, jornalista brilhante
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Está no prefácio assinado por meu saudosíssimo amigo Clóvis Rossi (1943-2019), de quem me despedi, triste, com uma homenagem, aqui no R7, em Junho passado: “O jornalismo no papel pode estar vivendo momentos difíceis, talvez terminais, quem sabe. Mas a função que você exerce, a de contar histórias com alma e cor, viverá para sempre, porque os seres humanos sempre haverão de querer saber o que os outros seres humanos estão fazendo, na paz ou na guerra...”. O tal “você” a quem o Clóvis Rossi se refere é Moisés Rabinovici, nascido no Rio em 1945, criado como jornalista em Minas Gerais, consolidado em São Paulo nas redações de “O Estado” e do “Jornal da Tarde” e daí entronizado repórter através do mundo, desde a América Latina até o Oriente Médio, da África aos Estados Unidos, do Brasil até a Ásia.

Rabinovici, ou simplesmente o Rabino, já acumula 55 anos de profissão e, por isso, nada mais natural do que reunir em livro uma coletânea de três dezenas de textos dentre os talvez 30.000, nem ele sabe, que perpetrou em vetustas máquinas de digitar, diretamente nos teclados daqueles extintos teletipos sem uma chance de correção de qualquer bobagem, daí nos trambolhões do telex, nos primitivos laptops, em teclados de micros, eventualmente em “smartphones” etcetera. Textos que o livro define em seu título brilhante: “Escritos com a Pele”. E, de fato, da mais singela descrição do cotidiano de uma cidadezinha do Piauí que não conhecia a televisão, até a impactante desventura de um casal com Alzheimer que optara por morrer ao ser abandonado pelo filho médico, o Rabino toca fundo mesmo o colega que já havia lido essas histórias no venerando periódico de papel.

Evidentemente, ganha destaque singular a sua estada de quase duas décadas como um correspondente no Oriente Médio, quando o Rabino precisou perpetrar seus escritos também “com as entranhas”. Comove especialmente um momento em que ele relata o esforço para se rebocarem as paredes das casas feridas por milhares de buracos de tiros de todos os calibres. Diverte a manha do transeunte armênio que, num hotel de Beirute, o aconselha a dizer que se chama Pedro, e não Moisés, por óbvias razões. E daí, no aeroporto, a descrença do guarda que não acredita no nome e no entanto o libera: “Ok, Maurice.” Então, no final do livro, a emoção e a graça se superpõem quando, depois de uma cirurgia de onze horas para a extração de um câncer, ele recorda que, a fim de celebrar a vida, num barco alugado, de nove metros, motor a diesel, com Cyra, a esposa, e Virgínia, a filha, decidiu navegar sem destino através de um dos cem canais que cortam a França. Marinheiro de primeiríssima viagem, quase trombou no atracadouro.

“ESCRITOS COM A PELE”, de Moisés Rabinovici. 11Editora. 312 páginas.
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