Silvio Lancellotti Na rodada 16 do Calcio, a Juventus atua em dois estádios diferentes

Na rodada 16 do Calcio, a Juventus atua em dois estádios diferentes

Enquanto o Napoli, o Milan, a Inter e até a Atalanta brigam pela liderança da tabela, a "Senhora" se desdobra entre o gramado e a investigação, pela Justiça, das suspeitas de mutretas contábeis

Os "Scudetto" do campeão da Itália e o emblema da Série A

Os "Scudetto" do campeão da Itália e o emblema da Série A

Reprodução

Desde as temporadas de 1999/2000 e de 2000/2001, as últimas em que as equipes da capital, respectivamente a Lazio e a Roma, bordaram o “scudetto” tricolor em suas camisas, o título de campeão da Itália virou monopólio das regiões do seu Norte, o Piemonte e a Lombardia. Pelo Piiemonte, especificamente por Turim, ficou onze vezes com a Juventus, o bi de 2002/2003 e o mágico enea de 2012 a 2020. Pela Lombardia, o Milan levantou o troféu em duas ocasiões, 2004 e 2011. E, sem um vencedor em 2005, como consequência do “Calciopoli”, o escândalo das designações arbitrais, a Inter acumulou um penta de 2006 a 2010 e ainda acaba de retomar o topo do pódio com o seu triunfo em 2020/2021.

A Inter, atual campeã da Itália

A Inter, atual campeã da Itália

@Inter

Nesta “stagione”, a de 2021/2022, o Napoli, um time do Sul da Bota, da Campânia, ou do “Mezzogiorno”, algo como um eternamente ensolarado “Meio-Dia”, ousado decidiu se intrometer no domínio exclusivo das potências do Norte. Carinhosamente chamado de “Ciuccio”, ou o “Burro” da Terra da Pizza, em toda a sua história, iniciada em 1926, até aqui apenas somou dois “scudetto”, certames de 1987 e 1990, os áureos tempos de Maradona-Careca-Alemão. Desde a rodada inicial, todavia, airosamente batalha pela liderança, cabeça a cabeça, com o Milan, ou o “Diavolo”. Por 12 rodadas, inclusive, ambos se mantiveram invictos. Então, na 13ª “giornata” o Milan perdeu da Fiorentina. O Napoli, da Inter. Sorte que se mantiveram no alto. Ironia: a Inter, a “Biscione”, serpente mitológica da Lombardia, que parecia descartada com uma triste antecipação, progressivamente se recuperou.

Na camisa do Napoli, a efígie de Maradona

Na camisa do Napoli, a efígie de Maradona

@SSCNapoli

Num certame de 38 “giornate”, 114 pontos disponíveis, o Napoli já arrebatou 36 dos 45 oferecidos. O Milan segue logo atrás com 35 e a Inter acumula 34. E uma outra agremiação da Lombardia também desponta na espreita: a Atalanta, ou a “Deusa” de Bérgamo, desde 2016 sob a orientação de um treinador de estilo agressivo, Gian Piero Gasperini, de 26 de Janeiro de 1958, nascido em Grugliasco, menos de 40 mil habitantes. Curiosidade: quase uma cidade-satélite de Turim. Um mastim de meio-campo, que principiou a sua carreira na Juve e que chegou a treinador da Inter, o Gasp assumiu o banco da Atalanta em Junho de 2016 e, principalmente graças à carta-branca que lhe propiciou a Famìglia Percassi, sua proprietária, encontrou tempo e paciência para construir um elenco que já alinhava três terceiras colocações e, nos dois certames recentes, também o ataque mais positivo.

Gasperini, treinador e líder na Atalanta

Gasperini, treinador e líder na Atalanta

@Atalanta_BC

Nos 31 pontos, neste sábado, 4 de Dezembro, a Atalanta pode se tornar a transformadora revolucionária da classificação. Estarão em ação as quatro ponteiras da tabela. O Milan joga mais cedo, às 11h00 do Brasil, no seu San Siro, contra a frágil Salernitana, candidatíssima ao rebaixamento. Claro, deve subir aos 38 pontos. Depois, às 14h00, a Inter faz uma visita bem arriscada à Roma, no Olímpico da Capítal. Embora num patamar inferior, só 25 pontos, a “Loba” ocupa o quinto posto e, evidentemente, não deseja se afastar da zona de promoção à futura Champions League. Um cenário ideal para que a “Deusa”, às 16h45, surpreenda o seu rival de data, precisamente o “Burro”, no Diego Armando Maradona de Nápoles.

O Palazzo di Giustizia de Turim

O Palazzo di Giustizia de Turim

Reprodução

O panorama da “giornata” também favorece a “Senhora”, necessitadérrima de um resgate na classificação. Com 24 pontos e a sétima posição, hoje no máximo coletaria uma vaga na fase qualificatória da Conference League. Porém, em casa, hospeda o Genoa periclitante, meros 10 pontos e na zona de queda à Série B. Deve prevalecer. Ocorre, no entanto, que a Juve ainda compete em outro campeonato. O seu adversário não atua em um estádio mas no Palazzo di Giustizia de Turim – e nos escritórios dos magistrados Marco Gianoglio, Ciro Santoriello e o seu adjunto Marco Bendoni, mergulhados numa complexa inquisição das entrenhas da contabilidade alvinegra nas temporadas de 2018/2019 até 2020/2021.

O magistrado Marco Gianoglio

O magistrado Marco Gianoglio

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No processo se averigua uma eventual supervalorização nos contratos dos atletas cedidos e, em contrapartida, um estranho rebaixamento nos montantes gastos pela Juve com aquisições. Em palavras mais cruas, uma falsificação de resultados de forma a valorizar as ações da “Senhora”, que são cotadas em Bolsa de Valores. Ou, uma gambiarra matemática, capaz de falcatruar a posição financeira da sociedade nos casos de aumento de capital, com nítidos prejuízos para os minoritários ou para os entrantes. Uma situação que, a depender do grau de responsabilidade de quem a idealizou e/ou realizou, pode mesmo ser acusada de criminosa. Detalhe: no cerne da investigação paira um suposto documento secreto, relacionado à passagem de Cristiano Ronaldo do Real Madrid à "Vecchia" alvinegra.

O CR7 na sua chegada à Juventus

O CR7 na sua chegada à Juventus

juventus.com

Tal documento aparece citado logo na página 6 das atas do processo. Corresponderia a uma, digamos, escritura de compra-e-venda. Graças a várias escutas telefônicas e a interceptações legítimas, os magistrados acreditam que o documento exista. Todavia, não conseguiram encontrá-lo em nenhum dos endereços formais da Juve: a sua sede oficial, o seu antigo CT em Vinovo e o seu moderno CT na Continassa, mais as dependências do Allianz Stadium. Desde a semana derradeira de Novembro, um comitê já se incumbe de interrogar um batalhão de dirigentes e de funcionários da “Senhora”, inclusive seu CEO Maurizio Arrivabene e o seu Diretor Esportivo Federico Cherubini, sucessor do agitado e controvertido Fabio Paràtici, em cuja gestão os malfeitos teriam proliferado. Já se fala, no comitê, em notificar Paràtici e o CR7. Paràtici, hoje, mora na Londres, trabalha como DE do Tottenham. E, como cidadão italiano, tem a obrigação de obedecer. O CR7, todavia, bate a sua bola com as cores do Manchester United, na Grã-Bretanha. Cidadão português, além de ultra-personalista, parece quase impossível que aceite qualquer tipo de intimação.

Paràtici, agitado num jogo do Tottenham de Londres

Paràtici, agitado num jogo do Tottenham de Londres

@spursofficial

Um detalhe crucial: esse recurso à “plusvalenza”, com as tentativas bem marotas da maquilagem de balanços, não é uma exclusividade da Juventus de Turim. Diversas outras agremiações da Itália, e até de diversas outras nações da Europa, adotam metodologia parecida. E são números de fato impressionantes, extraídos de fontes irrepreensíveis. Na Itália, o agregado dos 20 clubes da Série A atinge os 699 milhões de Euro, ou o equivalente a quase R$ 4,5bi. Praticamente o mesmo total da Bundesliga da Alemanha: R$ 4,3bi. E um pouquinho mais do que os R$ 4,27bi da Liga da Espanha ou que os R$ 4,1bi da Ligue da França. Um tanto distante dessas cifras, só, a Premier League da Inglaterra, R$ 2,7bi.

Uma das inúmeras lojas de artigos da Juventus

Uma das inúmeras lojas de artigos da Juventus

juventus.com

E atordoa, basicamente, descobrir que os clubes da Bota movimentaram muitíssimo mais grana com as transações de jogadores do que puderam recolher dos seus acordos comerciais ou de publicidade: 647 milhões. Uma danosa, perigosa constatação: na Itália, aparentemente, mais vale especular no mercado de atletas do que investir na marca de um patrocinador de uniformes ou em cadeias de lojas que ofereçam mimos, prendas, e assim se mantenha acesa a paixão dos torcedores. No caso da Juve, os magistrados se intrigaram, fundamentalmente, com duas operações. Efetivamente, operações bem nebulosas.

Andrea Agnelli e John Elkann, primos e íntimos rivais

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juventus.com

A que envolveu o Manchester City, ida de João Cancelo e chegada de Danilo. E outra que envolveu o Barcelona, Pjanic X Arthur. Um estranhíssimo caxangá, do tipo tira-põe-e-deixa-ficar. No resumo, pairam mais sombras, nas coisas da “Senhora”, do que o documento misterioso do CR7. Um especialista em fluxos financeiros, Enrico Stasi, acaba de entrar na investigação com a missão de analisar, passo-a-passo, toda a mastodôntica contabilidade amontoada nos escritórios do Palazzo di Giustizia. Mais: os majoritários da Juve, liderados por John Elkann, o primo-inimigo do atual Presidente, Andrea Agnelli, já asseguraram a carta-branca ao CEO Arrivabene. Custe o que custar. Doa em quem doer. Inclusive em família. Nesse quadro, esperar tranqüilidade do elenco, sem dúvida, é desejar que Max Allegri e os seus pupilos tenham o ânimo de perpetrar um rotundo, robusto milagre.

Paulo Dybala, o capitão, numa derrota da sua Juve

Paulo Dybala, o capitão, numa derrota da sua Juve

@JuventusFC

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