Na milenar Ferrara, a Juventus vai atrás do inédito octocampeonato
Basta um empate à "Senhora" diante da pequenina SPAL, uma agremiação de quem só perdeu uma única vez em 35 jogos, e no ano longínquo de 1957
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Acostumada a rebrilhar nas metrópoles e a se exibir em arenas ultramodernas e volumosas, neste sábado, dia 13 de Abril de 2019, a lideríssima Juventus de Turim quase que seguramente celebrará o seu octocampeonato numa cidade de 132.000 habitantes e num estádio inaugurado em 1928 e capaz de abrigar, ao máximo, 12.348 pessoas. Quiseram o destino e o calendário de jogos, estruturado com antecedência por um computador, que a sua partida de celebração aconteça diante da SPAL de Ferrara. Em 24 de Novembro, mandante, “Zebra” venceu por 2 X 0.

Com 84 pontos ganhos em 93 disponíveis, 20 à frente do Napoli, agora na 32ª “giornata” do certame, a Juventus só necessita de uma simples igualdade diante da SPAL para se garantir no topo da tabela. Subirá aos 21 e restarão 21 em disputa nas sete rodadas remanescentes. Mesmo que, no domingo, o “Burro” da Terra da Pizza vença o Chievo em visita a Verona, mesmo que, depois, suplante todos os seus adversários remanescentes e a “Senhora” sucumba aos dela, o “scudetto” pertencerá à Juve graças ao quesito do confronto direto: venceu o Napoli nos dois turnos. No degrau dos 32 pontos, a 16ª colocação na tabela, a SPAL ainda corre algum risco de rebaixamento.

Estatisticamente, é avassalador o favoritismo da “Zebra” sobre a agremiação de Ferrara. Desde o primeiro duelo, sucesso da Juve, 4 X 1 em Turim no certame de 1917/18, até o mais recente, houve 35 cotejos, domínio absurdo da “Senhora”, 69 gols a 30, 22 vitórias e uma única derrota, em Ferrara, SPAL 3 X 1, em 10 de Fevereiro de 1957. A sigla, aliás, significa Società Polisportiva Ars et Labor. A agremiação nasceu, em 1907, aliás, pela obra e pela graça de um abnegado sacerdote salesiano, Dom Pietro Acerbis, que mais se interessava em proporcionar atividades culturais à garotada carente da comunidade.

O Futebol entrou na história da SPAL em 1913. Porém, apenas entre 1950 e 1968 a agremiação se tornou uma protagonista e participou da Série A. Na temporada de 1961/62, na Coppa Italia, só perdeu do Napoli, e na final. Corriam os idos do antológico Paolo Mazza (1901-1981), que foi seu atleta, treinador e presidente, hoje o nome do estádio de Ferrara. Paolo Mazza inclusive co-dirigiu, com Giovanni Ferrari, a “Squadra Azzurra” da Copa do Chile, em 1962. Rebaixada em 1968, a SPAL ainda faliria, no Século XXI. Em 2012, acabaria reconstruída com o apoio financeiro da Vetroresina, uma indústria de laminados de plástico que tem uma filial até mesmo em São Paulo. E, em 2016/2017, conquistaria o título da segunda divisão.

Um apaixonado radical, o presidente Walter Mattioli faz questão de se misturar aos torcedores e de interagir com os jogadores. Como treinador, preserva no cargo, desde 2014, o “simpaticone” Leonardo Semplici, hoje nos 51 de idade, a quem valoriza “por não ter profissionalizado o seu amor pelo Calcio”. Tradução: Semplici se recusou a topar as inúmeras propostas que lhe fizeram para trocar de time. Num elenco basicamente jovem, o destaque é um veterano na casa dos 34, o capitão e atacante Mirco Antenucci, que já atuou na Inglaterra e se caracteriza pela barba de fato espetacular.

Localizada na Emilia-Romagna, centro-norte da Itália, a 48km de Bolonha e 312 de Turim, a cidade de Ferrara não tem uma data exata de nascimento. A Arqueologia atesta que provém dos Etruscos do Século 6 A.C. Porém, o seu apogeu se desenrolou entre 1240 e 1697, quando viveu sob a égide da Casa d’Este, uma dinastia de nobres que, principalmente durante o Renascimento, de 1300 a 1600 e tantos, a transformaram numa maravilha digna de conquistar da Unesco o título de Patrimônio Histórico da Humanidade. O azul-e-branco do fardamento da SPAL homenageia precisamente as cores da Casa d’Este. E os torcedores da equipe se orgulham de ser os “estenses”.
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