Silvio Lancellotti Na Ginástica dos EUA, os julgamentos de Larry Nassar, o abusador em série (e mais o meu Adieu ao Mestre Paul Bocuse)

Na Ginástica dos EUA, os julgamentos de Larry Nassar, o abusador em série (e mais o meu Adieu ao Mestre Paul Bocuse)

As denúncias formais de cerca de 150 crimes

Na Ginástica dos EUA, os julgamentos de Larry Nassar, o abusador em série (e mais o meu Adieu ao Mestre Paul Bocuse)

Larry Nassar: um personagem de "Criminal Minds"?

Larry Nassar: um personagem de "Criminal Minds"?

Lansing State Journal

Não sou particularmente um fã da teoria do antropólogo e psiquiatra Cèsare Lombroso (1835-1909), para quem o crime provém de condições atávicas e hereditárias e se pode identificar um criminoso, basicamente, pelas suas características faciais e corporais. De todo modo, basta o exame visual das expressões de Lawrence Gerard Nassar para considerá-lo digno de inclusão no seriado “Criminal Minds”, em que perfiladores do FBI perseguem “Serial Killers”, ou assassinos em série. O rosto de Larry Nassar já prenuncia a sua condição de um abusador em série.

Cesare Lombroso

Cesare Lombroso

Divulgação

Parece inacreditável que, contrariamente a uma tonelada de suspeitas e de evidências prévias, esse cidadão nascido em 1963, diplomado em Medicina pela Universidade de Michigan e integrante da Comissão Técnica de Ginástica Artística dos Estados Unidos a partir de 1986, apenas em 2016, trinta anos depois, e graças às denúncias em massa das suas vítimas, tenha encerrado a sua odiosa carreira de assediador e, eventualmente, estuprador de meninas. Do seu rol de vítimas, cerca de 160 já identificadas, constam estrelas fulgurantes como Aly Raisman, Gabby Douglas, Jordyn Wieber e McKayla Maroney, medalhistas de ouro nos Jogos de Londres/2012, e Simone Biles, que fascinou o público dos Jogos do Rio de Janeiro em 2016.

Simone Biles

Simone Biles

Rio/2018

Boatos, papos entreouvidos em vestiários e conversações incômodas nas chamadas Redes Sociais já insinuavam as perversidades de Nassar desde 2010. Porém, apenas em Setembro de 2016, através de uma reportagem do jornal “The Indianapolis Star”, as primeiras denúncias formais o enredaram irremediavelmente. Embora tarde, a Michigan State University, onde Nassar também era um professor, o demitiu. Muitas vítimas enfim se sentiram protegidas e, sob a capa impermeável da mídia, se revelaram. A reação em cadeia obviamente produziu ricochetes na direção da Federação de Ginástica dos EUA. Soube-se que em 17 de Junho de 2015 a treinadora Sarah Janitzi havia feito, por escrito, uma acusação a Nassar – e a entidade ignorou.

Uma das 37.000 provas apreendidas pelo FBI

Uma das 37.000 provas apreendidas pelo FBI

FBI

De todo modo, em Dezembro de 2016, o FBI deteve o médico, vasculhou a sua residência e encontrou, pasme!, perto de 37.000 imagens e vídeos de pornografia infantil, alguns com o próprio Nassar em ação. O depravado já sofreu diversas condenações em diferentes tribunais dos EUA, mais de mil anos de pena. Paralelamente, correm na Justiça mais de 150 ações de indenização contra a Federação e os seus cartolas. Acabou fechado o famoso Károly Ranch, que o romeno Bela Károly e sua mulher Maria, criadores do mito Nadia Comaneci (preciosidade em Montreal/76), instalaram no Texas, em 2001, para funcionar como a base na preparação das meninas, e onde Nassar perpetrava parte das suas barbaridades.

Maria e Bela em Atlanta/96

Maria e Bela em Atlanta/96

USA Olympics

Notificado das transmissões ao vivo por colegas do grupo “Rumo a Tóquio”, do WhatsApp, pude presenciar, nesta semana, pelo portal do Lansing State Journal, detalhes de mais um dos julgamentos de Nassar. Impactantes nas suas minúcias os depoimentos das vítimas. Que a sua coragem tocante ao descrevê-las valham como uma semente.

Paul, em Collonges

Paul, em Collonges

Arquivo do autor

PS.: Foi-se, neste dia 20, o fabuloso Paul Bocuse, o meu primeiro grande mestre nos idos em que o Jornalismo me desviou à Gastronomia. Quarenta anos atrás, passei uma semana no seu restaurante de Collonges-au-Mont-D’Or, e ainda guardo o original, em letra cursiva, de uma receita para crustáceos que ele me cedeu para o meu primeiro “O Livro dos Molhos”, de 1984. Já estava velhinho, prestes a completar, em 11 de Fevereiro, os seus 92 de idade.  Mas, mesmo com Parkinson, permanecia lúcido. Adieu, ami.

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