Silvio Lancellotti Memórias da Copa 8: no México, o triunfo já na primeira cobertura

Memórias da Copa 8: no México, o triunfo já na primeira cobertura

Depois de mais de mês de muito trabalho, enfim a vitória sobre a Itália na decisão de 1970, enfim um jantar sem preocupações mas uma volta atribulada, com pane de avião e um terremoto no Peru.

Festa no Estádio Azteca, o Brasil arrebata, definitivamente, a Jules Rimet

Festa no Estádio Azteca, o Brasil arrebata, definitivamente, a Jules Rimet

Reprodução

No dia 21 de Junho de 1970, antes dos meus 26 de anos de idade, dos três de Jornalismo, pude desfrutar o privilégio sublime de delirar, no espetaculoso Estádio Azteca da Cidade do México, com a posse definitiva da Taça Jules Rimet. Ironia: no altiplano desde 17 de Maio, ainda não havia saboreado uma só refeição sem os incômodos das semanas anteriores, como a pressa de fechar a conta por causa do trabalho da tarde ou do horário de dormir, nem  a preocupação com o tamanho do gasto. Brasil campeão, bem sucedida a cobertura da Equipe Abril, a mescla das revistas “Veja” e “Placar”, o diligente Woile Guimarães, nosso chefe na viagem, garantiu: “O Sr. Victor paga”. Woile se referia a Victor Civita, dono da Abril.

A capa de "Veja" sobre a decisão da Copa

A capa de "Veja" sobre a decisão da Copa

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O fuso horário nos desfavorecia: 18h00 por lá, 20h00 aqui. Para “Placar”, uma diferença desimportante. Mas, para “Veja”, impiedosa. A semanal tirava os seus, digamos, 300.000 exemplares, e para chegar às bancas de todo o País na segunda-feira, cedo, começava a impressão na manhã do sábado. Solução do Mino Carta, o diretor de redação: um caderno extra de oito páginas a se encartar no miolo da publicação já pronta. Dei sorte, eu apostara na vitória e despachara por antecipação um texto com os perfiletes dos titulares do time de Mário Zagallo. Quer dizer: eu praticamente não tive mais trabalho a fazer depois de Rudi Gloeckner, o árbitro da Alemanha Oriental, trilar seu apito pela última vez. E me empenhei na reserva de lugares numa casa de grelhados em que se exibia uma conhecida de outras situações, a cantora Leny Andrade. Um catálogo de telefones me ajudou na operação.

Leny, o show de uma brasileira numa churrascaria argentina depois da final da Copa de 70

Leny, o show de uma brasileira numa churrascaria argentina depois da final da Copa de 70

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A casa se chamava Rincón Argentino. Todavia, nenhum problema de alguns brasileiros festejarem num espaço platino. A “Albiceleste” não participou daquela Copa e o pessoal do atendimento, exclusivamente constituído por nativos do altiplano, “hinchava”, torcia pelo Brasil. Inclusive um companheiro inesperado, porém lógico, se incorporou à nossa brigada: Fernando Sandoval (1942-2020), a quem em conhecera na escola secundária, apelidado o “Peixe”, freelancer de texto e foto, que tinha viajado até o México por conta própria mas conhecia muito bem a capital. Um craque do Pólo Aquático, estivera na cidade durante os Jogos Olímpicos de 68, com a delegação do Brasil. Além de nos reforçar nas emergências e nos inesperados, ele seria um guia fundamental naquela impressionante megalópole.

O Centro de Entretenimiento da Cidade do México

O Centro de Entretenimiento da Cidade do México

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Por exemplo, o “Peixe” nos apresentou ao monumental Centro de Entretenimiento em que nos divertiríamos com o jogo do “Frontón”, ou "Jai-alai", a “Pelota Basca”, uma espécie de Squash gigante, no qual os contendores rebatem bolinhas com longas cestas numa das mãos. Também um veterano de passagens através da América Latina, o mestre Aymoré Moreira, o treinador do bi no Chile/62, um comentarista extra da Abril, sabia de todas as manhas que envolvem o “Frontón”, mais um jogo de apostas do que um esporte. Enquanto os trouxas e noviços, como eu, estupidamente detonavam suas últimas reservas de pesos, o “Biscoito” e o “Peixe”, aqui e ali, placidamente beliscavam uma graninha apreciável.

Sandro Mazzolla, Valcareggi e Gianni Rivera, um dia antes da final de 70

Sandro Mazzolla, Valcareggi e Gianni Rivera, um dia antes da final de 70

Arquivo Pessoal

Ainda graças ao “Peixe”, na véspera imediata da final, a tropa da Abril havia beliscado as gordas lasanhas de um restaurante italiano chamado La Pèrgola, exatamente um ponto de encontro de enviados especiais da Bota. Chovia bastante. E, na mesa logo ao lado, após reconhecerem o nosso idioma, alguns deles desandaram a ironizar: “Com o gramado pesado, ‘brasiliani’, amanhã, ‘arrivederci’ ao seu estilo bonitinho de toque de bola”. Bem, conforme se sabe, o temporal cessou, a drenagem do Azteca devolveu o campo ao ideal e a seleção de Zagallo sovou implacavelmente a “Azzurra” de Ferruccio Valcareggi.

O Azteca, na entrada das duas equipes

O Azteca, na entrada das duas equipes

Arquivo Pessoal

Claro, decisão é decisão e, apesar da fé em Pelé & Cia., amanhecemos tensos naquele domingo, 21 de Junho. Eu, principalmente. Por mais que confiasse na minha cueca verde, nas meias amarelas, na camisa e na calça que mal lavara desde a estreia diante da Tchecoslováquia, ou nas bênçãos de talismã do distintivo com a bicicleta do “Rei”, eu temia que um insucesso arruinasse a matéria que tinha pré-remetido, sobre os onze do Zagallo, e me obriguei a matutar numa alternativa. Muito pior, motorista da turma, fiquei tão nervoso que até esqueci o Michel Laurence no hotel. Apenas me apercebi daquela imperdoável falseta já diante do Azteca. Felizmente o Michel deu o seu jeitinho e chegou ao estádio antes de o combate se iniciar. Não me poupou, porém, daquele olhar de “eu pego você lá fora, pode me aguardar depois do jogo, seu moleque safado”. Encerrada a partida, a paz prevaleceu e ele me ajudou desparafusar uma placa de madeira do Centro de Imprensa na qual colecionei os autógrafos de todos os colegas e trouxe comigo em minha bagagem.

Detalhe da testada de Pelé, então Brasil 1 X 0 Itália

Detalhe da testada de Pelé, então Brasil 1 X 0 Itália

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Na verdade, briga só ocorreu, durante a pugna, com dois colegas de mídia, o Orlando “Eclético” Duarte, creio que de “A Gazeta Esportiva”, e Paulo de Aquino, o mano do José Maria, creio que do “Estadão”. A nossa posição, nas tribunas da Mídia, se localizava bem ao lado de onde se situavam vários “tifosi” da Itália, afastados de nós por um alambradinho. Pelé, de cabeça, inaugurou o marcador, 1 X 0. Mas, assim que a “Azzurra” igualou, 1 X 1, um casal desandou a provocar os “brasiliani” com palavrões e o famoso dedo-do-meio. A dupla nos enfernizou até os 65’, quando o Gérson “Papagaio” cravou um petardo fatal de canhota, 2 X 1. Um dos tentos mais lindos que eu já vi nos meus agora 54 de carreira.

Na loucura da festa, o sequestro do uniforme do Tostão

Na loucura da festa, o sequestro do uniforme do Tostão

Arquivo Pessoal

Vendetta. Num rompante, do nada, o Orlando e o Paulo explodiram. Faltou bem pouco para que não pulassem o alambradinho. Precisei impedir que o Orlando atirasse a sua máquina de escrever no casal. A polícia surgiu, levou o casal para um outro lugar. E daí a História se delineou, sozinha. Com um gol esquisito do Jarizinho “Furacão”, e inclusive com o maravilhoso do Carlos Alberto, aquele cujo roteiro o Aymoré havia desenhado num guardanapo em Guadalajara. A minha primeira Copa encontraria um epílogo perfeitíssimo não fosse uma pane que acometeu o “Remendão”, o avião da Canadian Pacific programado para a nossa volta– e aqui revelo seu nome porque a empresa se extinguiu em 1987.

O Hotel Crillón, de Lima. Peru

O Hotel Crillón, de Lima. Peru

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Pois é, “Remendão” pelo excesso inacreditável de placas metálicas de tonalidades diferentes na sua fuselagem. E o aparelho se obrigou a uma escala extra em Guaiaquil, no Equador, um atraso de seis horas. Deveríamos realizar a nossa conexão em Lima, no Peru. Obviamente, todavia, perdemos o vôo da saudosa Varig. Era uma terça-feira e apenas haveria outro na sexta. E sem roupas limpas, pois as nossas bagagens ficaram retidas no aeroporto. Menos mal que a Canadian nos hospedou no Hotel Crillon, com os seus rebrilhantes candelabros de cristal até mesmo nos apartamentos. Os candelabros que, em determinada madrugada, principiaram a tilintar. Isso. Um terremoto nos Andes.

O cartaz de "Sabata", com Lee Van Cleef, diversão involuntária depois da Copa

O cartaz de "Sabata", com Lee Van Cleef, diversão involuntária depois da Copa

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No susto, os hóspedes todos correram à rua. Digamos, todos em trajes menores, inclusive as senhoras, em camisolas. Sim, sobrevivemos, a minha presença aqui atesta. Daí, graças ao Aymoré, brilhante globetrotter, passeamos por Lima, comemos Ceviche, inclusive fomos ao cinema, “Sabata”, um bang-bang com Lee Van Cleef. Eu também comprei uma cueca nova, “sunga” na nota fiscal. Cuja, na prestação de contas, o financeiro da Abril glosou, por acreditar que se tratasse de um maiô. Evidentemente, eu provei a minha necessidade da cueca nova. E o episódio se tornou lenda nos fuxicos da editora. Mereci até um bilhetinho bem-humorado de Victor Civita: “Na próxima vez, peça que escrevam ‘mutande’. VC”

PS: Este texto representa o esboço de mais um capítulo de uma tentativa de eu escrever a minha autobiografia; no mínimo, uma seleta de causos que vivi e/ou testemunhei. No próximo, uma síntese dos certames de 74 até 82. E, até esgotar o tema “Copa do Mundo”, publicarei, aqui no meu espaço do R7, textos sobre as outras disputas de 1986 até 2018. Algumas que inclusive cobri in loco: além desta de 70, também a da Itália/1990 e a dos Estados Unidos/1994.


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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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