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Silvio Lancellotti - Blogs
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Memórias da Copa 10: a frustração por não voltar ao México em 1986

Programado para uma Colômbia sem dinheiro, o Mundial recaiu com o México. Só que, ao invés de matar as saudades de 1970, na retaguarda do jornal e da TV eu vi funcionar "La Mano de Diós".

Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Diego Maradona, a Argentina campeã pela segunda vez em oito anos
Diego Maradona, a Argentina campeã pela segunda vez em oito anos Diego Maradona, a Argentina campeã pela segunda vez em oito anos

Obviamente eu desejava muitíssimo cobrir ao vivo e em cores a Copa de 86, competição originalmente destinada à Colômbia, que desistiu um ano antes por falta de grana e o México topou assumir. Claro, eu gostaria de revisitar o palco da minha primeira experiência, e rever os muitos lugares com que tanto tinha me encantado em 1970. Mas, ironia cruel, foi a suposta qualidade do meu trabalho que me impediu de retornar ao altiplano. Fazia tempo que eu já me especializava em “Futebol no Mundo”, tanto como comentarista da Band e como colunista da “Folha”. E ao invés de me utilizarem em viagem, as minhas respectivas chefias optaram por me desfrutar aqui mesmo, e numa função até que sumamente digna, aquela de suporte, apoio e de coordenação na retaguarda.

Os irmãos Luiz e Otávio Frias, idealizadores do "Datafolha"
Os irmãos Luiz e Otávio Frias, idealizadores do "Datafolha" Os irmãos Luiz e Otávio Frias, idealizadores do "Datafolha"

Desde 1983, sob a inspiração dos Frias, proprietários da empresa, os saudosos Octávio Pai e Otavio Filho, mais o Luiz, o seu agora presidente, através de um “Datafolha” ainda incipiente o jornal flertava com as estatísticas e os seus correlatos. Hoje, no papel, mal destina uma página a todos os esportes. Naqueles idos, porém, em um caderno especial, os cotejos do Futebol ganhavam fichas técnicas e uma equipe de observadores arriscava notas aos atletas. Uma bagunça generalizada. Por exemplo: um arqueiro de atuação excelente sofria o acidente de um frango e levava Zero. Um avante de exibição horrorosa anotava um tento ocasional e levava 10. A pedido do Otavio eu formalizei um sistema de pontuação de performances com base num critério consagrado por “La Gazzetta dello Sport”. Todos os atletas começam com uma nota 6, que representa a sua obrigação. Daí, na medida em que o prélio se desenvolve, se acrescentam sinais de mais (+) ou de menos (-) ao seu registro. Ao controlar os julgamentos que então eram disparatados, um critério que garantia justiça.

Com Luís Carlos Largo, num estúdio de transmissão e de "backup" da ESPN, anos depois
Com Luís Carlos Largo, num estúdio de transmissão e de "backup" da ESPN, anos depois Com Luís Carlos Largo, num estúdio de transmissão e de "backup" da ESPN, anos depois

Na TV, a missão do “backup” é fastidiosa. O narrador, o comentarista, os câmeras, os iluminadores, os sonoplastas etcetera permanecem de plantão, num estúdio, com o seu cenário completo e as roupas de quem vai a uma entrega do Oscar. E por três, quatro horas, lá empacam, enquanto os colegas titulares, em posições efetivas nos estádios, se incumbem da transmissão de fato. O elenco da retaguarda apenas entra em ação caso ocorra uma queda de sinal nos satélites ou algo assemelhado. Calculo que acumulei, em 54 anos de Mídia, por volta de 1.000 horas como backup. Mas eu só entrei de fato no ar, numa transmissão integral, na decisão do Handebol dos rapazes do Pan-Americano de Santo Domingo/2003, na descrição de uma partida que propiciou um ouro ao Brasil.

Bearzot e o indefectível cachimbo de fumo aromatizado por cerevjas
Bearzot e o indefectível cachimbo de fumo aromatizado por cerevjas Bearzot e o indefectível cachimbo de fumo aromatizado por cerevjas

Atravessavam entressafras lastimosas as duas seleções do Sarriá em 82. Com o seu cachimbo de fumo aromatizado por cerejas, Enzo Bearzot permanecia no comando da sua “Squadra Azzurra” vencedora na Espanha. Pena, porém, da brilhante geração que ele havia começado a estruturar para a Argentina/78, o artilheiro Pablito Rossi e o mastim Marco Tardelli, lesionados, se limitaram à reserva. Único remanescente dos 3 X 2 contra o Brasil, o líbero Gaetano Scirea já patinava numa curva descendente. E o arqueiro Giovanni Galli, a quem coubera a herança do formidável Dino Zoff, fracassou em quatro dos seis gols que a "Azzurra", abatida nas oitavas pela França, 0 X 2, concedeu em seus quatro desafios.

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Telê comanda o elenco da seleção de 1986
Telê comanda o elenco da seleção de 1986 Telê comanda o elenco da seleção de 1986

Telê Santana tinha se demitido logo depois da Espanha e fora sucedido, sem glórias, por Carlos Alberto Parreira, por Edu Antunes (mano do Zico) e, daí, por Evaristo de Macedo. Nas vésperas das eliminatórias continentais, no entanto, duas derrotas bisonhas em amistosos, Colômbia 1 X 0 em Bogotá e Chile 2 X 1 em Santiago, provocaram a sua queda. O desespero e a pressão da Mídia obrigaram a CBF a resgatar Telê. E, mesmo sem brilho e com uma equipe em absoluta transição, Telê passou pela Bolívia e pelo Paraguai. Era, contudo, um homem diferente desde o Sarriá, extrapolava em demasia nas idiossincrasias disciplinares.

Leandro e Renato Gaúcho
Leandro e Renato Gaúcho Leandro e Renato Gaúcho

Cortou o indispensável Renato Gaúcho, por se atrasar na sua reapresentação depois de uma folga. Daí, solidário, o lateral Leandro, que havia escapulido com Renato e Telê havia perdoado, abandonou a delegação. Dirceu, coringa na seleção desde a Alemanha/74, e Toninho Cerezo, um dos “stranieri” mais elogiados na temporada da Bota, se contundiram. E, além disso, também aquela bela base de 82 havia envelhecido. Oscar se tornara suplente absoluto. Falcão entrava e saía do time. O futebol dos desgastados Sócrates e Júnior sumia ao lado de meros utilitários como Elzo e Alemão. Ao menos se sobressairam, na ofensiva, o garotão Casagrande e o experiente Careca, que uma lesão havia sacrificado em 1982. Esses e mais Edinho, o becão impositivo que Telê, infelizmente, havia preterido por Luizinho.

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O gol de Michel, da Espanha, que Mr. Bambridge não validou
O gol de Michel, da Espanha, que Mr. Bambridge não validou O gol de Michel, da Espanha, que Mr. Bambridge não validou

Cumpri meu “backup” nos prélios da “Azzurra” e ainda da “Canarinho”. Que não cedeu um tento sequer na fase de grupos mas apenas venceu a Espanha precariamente e com o auxílio de Christopher Bambridge, um apitador da Austrália que não validou um tento da “Fúria” e garantiu a vitória do Brasil, 1 X 0. Suplantou a retrancada Argélia, um outro 1 X 0, no sufoco da etapa derradeira. E superou um pouco mais aliviada a Irlanda do Norte, 3 X 0. Atuar, digamos, razoavelmente, apenas nas oitavas, 4 X 0 sobre a Polônia, graças a dois gols de penal, Sócrates e Careca, mais um, imagine, exatamente dele, Edinho, e um outro de Josimar, um lateral fogoso, carismático, de enorme velocidade, convocado de última hora.

A vibração de Josimar
A vibração de Josimar A vibração de Josimar

Prestativamente eu testemunhei os prélios do Brasil com um fone nos ouvidos, um microfone ao meu alcance, um par de enormes monitores à minha frente. Detalhe: dentro de um estúdio não se torce, não interessa se o microfone está seguramente desligado. Sempre existe o risco de um som qualquer vazar. Mas, diante da França, na etapa das quartas, eu não resisti. Com o placar igual, 1 X 1, aos 72’ o treinador Telê remeteu Zico à batalha. Mal recuperado de uma lesão, o “Galinho” apenas havia atuado, contra a Irlanda do Norte e contra a Polònia, respectivamente, nos últimos 22 e 20 minutos, os resultados absolutamente já definidos. Zico entrou e logo aconteceu um penal em favor do Brasil.

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O penal que Zico não deveria ter cobrado
O penal que Zico não deveria ter cobrado O penal que Zico não deveria ter cobrado

Confesso o meu pecado. Segurei o braço do incumbido da narração eventual, se o hipocampo não me atraiçoa o saudoso Marco Antonio Mattos, e literalmente bradei: “Não, o Zico não!” Sobrava lógica na minha apreensão. O “Galinho” mal se aquecera. Desafortunadamente, no entanto, Zico bateu e Joel Bats catou. Prevaleceu aquele placar até o desfecho da prorrogação. Loteria. A disputa dramática de tiros da marca de cal. Gritei de novo quando Sócrates, o meu amigo “Magrão”, desperdiçou tolamente a sua tentativa, uma cavadinha que Joel Bats antecipou. E berrei bem mais alto quando Bellone arrematou.

A defesa de Bats na cavadinha que Sócrates não deveria ter tentado
A defesa de Bats na cavadinha que Sócrates não deveria ter tentado A defesa de Bats na cavadinha que Sócrates não deveria ter tentado

Explico, a quem não viu ou a quem não deseja recordar. Bellone bateu num poste, a bola retornou, se chocou nas costas de Carlos e só então invadiu a meta. As regras que vigiam em 1986 eram além de claríssimas: numa disputa pós-prorrogação, a validade da cobrança se interrompia no preciso momento em que a bola cessava a sua viagem até a meta. Por instantes Ioan Igna, o árbitro da Romênia, hesitou. O suficiente para que eu, num acesso ridículo de sub-patriotismo, urrasse: “Pô, alguém no México avise o Telê que esse gol não aconteceu! Alguém avise o Telê!” Rio de mim mesmo quando recordo tamanha estulice.

O gol de pênalti de Bellone, que Ioan Igna deveria ter anulado
O gol de pênalti de Bellone, que Ioan Igna deveria ter anulado O gol de pênalti de Bellone, que Ioan Igna deveria ter anulado

O pênalti convertido por Bellone, com a ajuda essencial das costas de Carlos, provocou tal polêmica que a FIFA baixou uma normativa, anos mais tarde reformulada, que determinava como “não convertido” um lance naquelas condições. Sim, Ioan Igna deveria ter invalidado o gol de Bellone. E a França abiscoitaria aquela disputa bizarra por 4 X 3. Parou, depois, na Alemanha, numa das semis, por 0 X 2, exatamente como a Argentina despachou a Bélgica.

Maradona e o lance da "Mano de Diós"
Maradona e o lance da "Mano de Diós" Maradona e o lance da "Mano de Diós"

Já livre do “backup”, entregue a outra dupla, em casa eu pude ver a decisão entre a Argentina e a Alemanha, 3 X 2, numa apresentação memorável de Diego “La Mano de Diós” Maradona. O Dieguito assim se autodenominara porque, nas quartas, contra a Inglaterra, 2 X 1, além de anotar um dos tentos mais deslumbrantes da História, fez um outro de mão, que só Ali Ben Naceur, o mediador da Tunisía, não percebeu. A minha súmula na “Folha”? Diante de peleja tão luminosa que nota eu atribuiria? Na decisão, pelo fulgor, honrei Diego com uma nota 9,5. E por que não 10? Ah, perfeição eu só admito num “Diós de verdad"...

PS: Este texto representa o esboço de mais um capítulo da tentativa de eu escrever a minha autobiografia; no mínimo, uma seleta de causos que vivi e/ou testemunhei. No próximo, sobre a Itália/1990, um furo de reportagem que colhi antes mesmo de desembarcar na Bota. E haverá mais. Até esgotar o tema “Copa do Mundo”, publicarei, aqui no meu espaço do R7, textos sobre as outras disputas de 1990 até 2018. Algumas que inclusive cobri in loco: além daquela de 70, também a da Itália, que merecerá dois textos separados, e a dos Estados Unidos/1994.

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