Silvio Lancellotti Mais um caso nebuloso no "Calcio". Agora, é a Covid-19 contra a Lazio.

Mais um caso nebuloso no "Calcio". Agora, é a Covid-19 contra a Lazio.

Com três atletas infectados a "Águia" da capital teria recorrido a exames não confiáveis para liberá-los. Corre inclusive o risco do rebaixamento à Série B.

Simone Inzaghi

Simone Inzaghi

@Serie A Calcio

Começo por um resumo rapidinho do imbróglio todo. Às vésperas da peleja entre a Lazio e a Juventus, pela rodada de número sete do Campeonato Italiano de 2020/2021, os exames protocolares, obrigatórios, de contaminação pela Covid-19, realizados no Campus Biomedico da capital da Velha Bota, apontaram como positivos três dos atletas da “Águia” de Roma, Ciro Immobile, Lucas Leiva e Thomas Strakosha. Caberia à agremiação, imediatamente, realizar o seu isolamento compulsório. A regra é explícita, transparente. Ponto final, e não importa que prejudicasse o treinador Simone Inzaghi.

A Futura Diagnóstica, em Avellino

A Futura Diagnóstica, em Avellino

Futura Diagnostica

Bem ao contrário, todavia, e sabe-se lá com que objetivo estapafúrdio, a Lazio se refugiou em um outro laudo, de um laboratório de porte menor, o Futura Diagnostica, da cidadezinha de Avellino, 53.000 moradores, localizada nas imediações de Nápoles, para liberar os atletas. Menos mal que os três, re-mandados a casa, não participaram do jogo do Olímpico, 1 X 1. A postura da “Águia”, todavia, incentivou a indignação das autoridades sanitárias, além de estimular uma reação da FIGC, a Federazione Italiana Giuoco Calcio, que já abriu um inquérito fulminante. No caso de se demonstrar a sua culpabilidade, a Lazio pode perder os pontos do prélio e até ser rebaixada à Série B. Nesta manhã peninsular de 10 de Novembro, aliás, uma corte superior de recursos confirmou os 3 X 0 que o “Giudice Sportivo” havia concedido à Juve na sua pugna diante do Napoli, que também havia se escondido atrás de um laudo pouco confiável para não comparecer ao Allianz Stadium de Turim.

Massimiliano Taccone

Massimiliano Taccone

Reprodução IrpiniaNews

Agora entrou em cena, até, a Procuradoria da República, que ordenou a apreensão de todo o material submetido ao Futura Diagnóstica e a realização de uma contra-análise em um hospital efetivamente credenciado de Nápoles, o San Giuseppe Moscati. No comando do inquérito, Maria Landi, doutora em Microbiologia e Virologia. Landi negativou Immobile e Leiva. Mas atestou a infectação de Strakosha. Pior, sobram as suspeitas de falcatruas também em outras atividades de Massimiliano Taccone, o proprietário do Futura e um ex-cartola do Avellino, um clube várias vezes rebaixado por falência, fraude fiscal e correlatos. No meio de tanta confusão, o jovial Ivo Pulcini, responsável direto pelo Departamento Médico da Lazio, foi convocado para um depoimento oficial junto à Procuradoria já na manhã desta segunda, e se desesperou. Desabou em uma cruel, impiedosa, devastadora crise de depressão.

Ivo Pulcini, com Ciro Immobile

Ivo Pulcini, com Ciro Immobile

Twitter Ivo Pulcini

Não se pode acusar Pulcini de ingenuidade nem de mera submissão às ordens de Claudio Lotito, o presidente da Lazio. Ele, de fato, deveria conhecer melhor o pântano em que se afundou ao aceitar o seu cargo. Lotito manda na “Águia” desde 2004. Nesse interregno, sumariamente esmagou qualquer esboço de oposição. Nativo de Roma, dia 9 de Maio de 1957, formado em Pedagogia, dono de várias empresas de serviços gerais, limpeza, vigilância e fornecimento de alimentação, dobrou a sua fortuna ao se casar com Cristina Mezzaroma.

Claudio Lotito e Cristina Mezzaroma

Claudio Lotito e Cristina Mezzaroma

Reprodução LazioPress

À parte os seus hábitos ditatoriais, aprendidos com Sílvio Berlusconi, seu mentor na política, Lotito já colecionou, como o mestre, denúncias e penalidades. No campeonato de 2005/2006, aquele do triste escândalo das designações de árbitros na Série A, aquele em que a Juventus campeã acabou relegada à Série B, tanto a Lazio como o Milan de Berlusconi perderam 30 pontos na tabela de classificação e Lotito recebeu uma suspensão de 30 meses. No paralelo se afundou em muitas investigações de superfaturamento de contratos de seus atletas, de evasão de impostos, até de extorsão e de obstrução à Justiça. Escutas flagraram a sua opinião sobre times menores da Itália, os “que não servem para nada e que nem deveriam existir”.

Claudio Lotito e Silvio Berlusconi

Claudio Lotito e Silvio Berlusconi

Città Celeste

Pois Lotito, nas últimas eleições da Itália, se candidatou ao Senado pelo distrito de Caserta-Benevento-Avellino, isso, isso mesmo, Avellino, a sede do Futura Diagnostica. Ficou em segundo lugar mas briga, no tapetão, para que o ganhador, Vincenzo Carbone, do seu próprio partido, lhe entregue o cargo. A sua alegação, claro, erro na apuração dos sufrágios. Lotito, ainda, despreza a periculosidade da Covid-19. Também dono na Salernitana, sócio de Marco Mezzaroma, seu cunhado, forçou para que os atletas do outro clube treinassem com os seus, da Lazio, durante o apogeu da pandemia. Damiano Tommasi, que era presidente da Associazione Calciatori, então, Junho, não hesitou em revidar secamente: “Essa é uma posição digna de um criminoso”.

Arturo Diaconale

Arturo Diaconale

Arena Del Calcio

Espertamente, Lotito não se expõe e se manifesta através de um porta-voz, o ex-jornalista Arturo Diaconale, que chegou a dizer: “Haver um jogador infectado não é razão para suspender a Serie A. Os futebolistas não são garotos, os futebolistas são homens responsáveis”. Negacionismo obtuso, num momento como o desta segunda-feira, dia 9 de Novembro, quando a Itália lastimou bater a casa dos 960.373 casos e dos 41.750 mortos.

Claudio Lotito e Gian Michele Gentile

Claudio Lotito e Gian Michele Gentile

@SSLazio

Um cenário que torna absolutamente lógica a depressão de Pulcini. Gente da sua família assevera que foi terrível a sua madrugada do sábado, dia 7, para o domingo, dia 8, em que o seu telefone não sossegou. Um amigo, ligado às autoridades sanitárias, informou que o inquérito, é claro, inevitavelmente acabaria por atropelá-lo. Pulcini admitiu que havia cometido uma tonelada de equívocos. E então desandou a correr atrás de uma saída, colegas de outras agremiações em busca de conselhos. Não compareceu à audiência. E Gian Michele Gentile, o advogado da Lazio, desconversou. Alegou que tinha outra incumbência e, por isso, não poderia escoltar Pulcini. Sequer citou a sua crise de depressão. Um odor de traição no ar. Pobre Pulcini, celebrado pela alegria contagiante. A corda, como sempre, arrebentará no seu lado mais fraco.


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