Graças aos Raptors de Toronto, o primeiro título do Canadá na NBA
Vitória de 114 X 110 no jogo 6, série fechada em 4 X 2, méritos ao MVP Kawhi Leonard. Porém, os Warriors também perderam para as contusões
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Perpetrará um crime contra a lógica o jornalista que falar em sorte ou azar como ingredientes da decisão de um campeonato no qual os protagonistas são marmanjos cujo salário mínimo, ao ano, no caso dos estreantes, equivale a quase R$ 4 milhões. Grana que, no caso dos super-astros, até pode resvalar nos R$ 100 milhões. Convenhamos, porém, que uma onda de fato brutal e avassaladora de infortúnios excepcionais dramaticamente desabou sobre os Golden State Warriors, vencedores dos títulos da NBA em 2015, 2017 e 2018, os seus vices em 2016, nesta temporada de 2018/19 que acaba se encerrar.

Foi-se embora, com a derrota, em casa, na Oracle Arena de Oakland, diante dos Toronto Raptors do Canadá, 114 X 110, a chance de um tri legítimo. E, à parte os méritos do elenco que concede ao seu país de endereço um laurel absolutamente inédito na história do esporte das tabelas e das cestas, à parte os méritos do seu treinador Nick Nurse e de Kawhi Leonard, justíssimamente o MVP, ou o “Mais Valioso Jogador” de uma melhor-de-sete que se encerrou em 4 X 2, é impossível não enfatizar, como decisivo, o impressionante rol de lesões, todas pontuais, que dizimaram os Warriors de forma impiedosa.

Desde que, no dia 16 de Abril de 1947, disputaram a sua primeira partida pelas “Finals” da NBA, em 59 pugnas os Warriors venceram 34. Sempre no formato de melhor-de-sete, naquele ano, quando eram os Philadelphia Warriors, ganharam a peleja inaugural e bateram os Chicago Stags, hoje extintos, por 4 X 1. Depois, em 18, perderam dos Baltimore Bullets, hoje em Washington, 2 X 4. Em 56, suplantaram os Fort Wayne Pistons, agora em Detroit, por 4 X 1. Enfim, em 92 se mudariam do Leste ao Oeste dos EUA.

Com uma nova denominação e numa nova sede, a cidade de San Francisco, em 1964 e 1967, respectivamente, caíram diante dos Boston Celtics e dos Philadelphia 76ers, 1 X 4 e 2 X 4. Em 1971, outra vez trocaram de batismo e, como Golden State Warriors, os “Guerreiros do Estado do Ouro”, a Califórnia, em 1975 bateram os Bullets por 4 X 1 e, entre 2015 e 2018, somaram 15 triunfos para 7 derrotas frente os Cleveland Cavaliers de LeBron Jones. Em 2016, aliás, 3 X 4, sucumbiram na sua única série que teve sete porfias.

Ao soçobrarem diante de 19.586 pessoas, quase todas com as camisetas amarelas, mimos do clube, depositados sobre as suas poltronas, os Warriors também amargaram uma triste despedida da Arena. Foi a sua última exibição em Oakland. Disputarão a próxima temporada na vizinha San Francisco, no opulento Chase Center, um multicomplexo que custou cerca de US$ 6 bi.

A ironia: desembarcaram no certame como os favoritos absolutos. Já tinham cinco “All Stars” de nível olímpico: (Andre Iguodala, Draymond Green, Kevin Durant, Klay Thompson e Steph Curry), e o seu treinador Steve Kerr ainda acrescentou ao elenco um “mega-center”, DeMarcus Cousins. Pareciam ser invencíveis. Até que se abatesse sobre eles a tal maré de ultra-azares.

Através da temporada regular, Golden State não pôde utilizar Cousins em 52 das 82 porfias, Draymond Green em 16, Andre Iguodala em 14, Steph Curry em 13. E ainda assim venceu 57. Pior, nas 21 da “Postseason”, sofreu sem Cousins em 14, sem Kevin Durant em 9, Iguodala em 7. E ainda assim venceu 14. Daí, no crucial jogo 5, em Toronto, os Raptors com 3 X 1 e a um milímetro do primeiro troféu do Basquete profissional do Canadá na NBA, no jogo do seu retorno, depois de um estaleiro de quatro semanas, Kevin Durant sofreu uma dramática lesão de calcanhar-de-aquiles. Exatamente ele, Kevin Durant, que fora o MVP, o craque arrasador das “Finals” de 2017 e 2018.

Os Warriors venceram o jogo 5. E, no 6, quando abriam uma vantagem pequena mas significativa no placar, 85 X 82, Klay Thompson, o seu principal cestinha, 30 pontos, ou 41% do global do time, torceu o joelho esquerdo e o treinador se obrigou a substituí-lo. Milagre que, sem ele e sem Durant, com Steph Curry bravamente perseguido pelo admirável Fred VanVleet, que ainda registraria 22 pontos, os Warriors só tombaram porque, ao faltarem 9”6, com o placar em 110 X 111, Iguodala fracassou na chance de produzir ao menos os dois pontos que garantiriam a realização do jogo 7, domingo, em Toronto.

Pena, para Kerr & Companhia, que os “Bromeossauros” do treinador Nick Nurse (ele e mais Danny Green, e Fred VanVleet, e Kawhi Leonard, e Kyle Lowry, Marc Gasol, Pascal Siakam, Serge Ibaka etc.) não tenham nada a ver com o hospital que os “Dubs” se obrigaram a montar em seus vestiários. Ostensivamente os Raptors dispunham do talento superlativo de Leonard, o MVP das “Finals” de 2014, quando defendia os San Antonio Spurs. Porém, em uma rotação impressionante, cotejo a cotejo, a partir da sua liderança gélida, eficientíssima, todos os seus colegas merecem o mais justo dos destaques.
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