Embora sob nova direção, a Roma continua uma norte-americana
Mais uma agremiação do Calcio da Velha Bota que se endivida e se obriga a ceder o seu domínio à especulação perigosa do Capitalismo Selvagem
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Desde a sua fundação, em 27 de Julho de 1927, agora no rumo dos seus 92 anos de idade, a Associazione Sportiva Roma, apelidada de “La Lupa”, ou “A Loba”, apenas em três temporadas conseguiu bordar, nos seus fardamentos rubro-amarelos, o “scudetto” de campeã da Velha Bota. E em todas os seus “tifosi”, os seus torcedores, airosamente se orgulharam por pertencerem a uma instituição essencialmente italiana. Eram "altri tempi", aqueles...

Em 1940/41, com Edgardo Bazzini (1893-1969) na sua presidência, deixou longe a Lazio, a outra agremiação da capital, a predileta dos nazi-fascistas durante a II Guerra Mundial. Daí se passaram quatro décadas até que, sob o comando de Dino Viola (1915-1991), que a administrou de 1979 até falecer, o quadro liderado por Paulo Roberto Falcão abiscoitasse o título de 1982/83. Enfim, sob outro cartola de antologia, Franco Sensi (1926-2008), no trono de 1993 até morrer, graças a um elenco que ostentava os brilhos de Francesco Totti, do argentino Gabi Battistuta e dos brasileiros Aldair e Cafu, levou a taça de 2001/02. Era uma Roma basicamente familiar, a ponto de a viúva Floria suceder o marido Dino e a filha Rosella substituir o papai Franco até 2011.

Desafortunadamente, os débitos da Compagnia Italpetrol, que pertencia aos Sensi, obrigaram Rosella a negociar as suas ações na agremiação com um grupo empresarial dos Estados Unidos, proprietário, entre outras coisas, dos Red Sox de Boston, um ícone do Beisebol no mundo. Thomas Richard DiBenedetto assumiu a presidência com as juras imprescindíveis de amor ao Calcio e a promessa de criar um timaço capaz de títulos a granel. Não durou dezesseis meses no cargo e o entregou a um sócio, James Pallotta, o dono, também, de uma infinidade de negócios paralelos. Nos gramados, a Roma não conquistou um único troféu e acumulou oito treinadores mal-sucedidos. Sem dizer que duas vezes se abalou a recorrer a dinheiro emprestado.

Neste Janeiro de 2020 brota uma nova promessa de luz aos “giallorossi”. Um outro magnata norte-americano, de nome Dan Friedkin, 54 de idade, californiano de berço e texano por opção, patrimônio pessoal de US$ 4 bi, mais de 5.600 funcionários em uma holding que abriga doze subsidiárias, uma das maiores distribuidoras Toyota do universo, uma rede planetária de hotéis de luxo, surge no horizonte como um santo salvador da “Loba”. Pallotta & Cia. bela pediram ao mercado cerca de US$ 850 milhões. Friedkin ofereceu US$ 810 milhões. E o termo de compromisso já foi acordado entre as partes.

Por enquanto, não se conhecem os planos essencialmente esportivos de Friedkin. No máximo se sabe que cobrirá os buracos que os homens que vieram de Boston abriram nas contas da Roma. Nas tais “Redes Sociais” os “tifosi” da esquadra de Falcão e Totti já se manifestaram, e com uma ironia cáustica. Um fanático mais amargurado chegou a anotar: “Pior do que aconteceu, em quase dez anos de absoluto calvário, será impossível”.

De fato, na sua gestão, Pallotta primou por não mostrar o menor tipo de empatia pela equipe e pela Cidade Eterna. Uma acusação particularmente sarcástica: “Um ausente, que abandonou a mulher, sem médico, na sala de parto”. Na emergência, porém, talvez não baste a abundância de Friedkin. O novo “capo” é um dos majoritários dos Rockets de Houston, no Basquete dos EUA. Precisará demonstrar que também se fascina pela bola do “Soccer”.
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