E Tom Brady (o Mr. Bundchen) desperdiçou o oitavo Superbowl
Foi o nada cotado Nick Foles o grande herói do duelo
Silvio Lancellotti|Sílvio Lancellotti

Que me perdoe o quase anônimo Nicholas Edward Foles. Mas, ainda que fracassasse, eu já tinha decidido, seria ele, Thomas Edward Patrick Brady, um californiano de San Mateo, nascido em 3 de Agosto de 1977, 1m93 de altura e 102kg de peso, o meu personagem inesquecível deste LII Superbowl, duelo entre os New England Patriots e os Philadelphia Eagles, desfecho glorioso da temporada do chamado Futebol Americano. No desafio, acontecido em Minneapolis, Minnesota, neste domingo, 4 de Fevereiro de 2018, os Eagles de Foles inesperadamente venceram, título inédito para Philadelphia em 58 anos de certames. Infortúnio à parte, todavia, Brady, luminoso quarterback, antológico coordenador de ataques, merece a honraria deste texto.

Multiplicou a dramaticidade do confronto o fato de Nick Foles, o quarteback dos Eagles, 29 de idade, só cinco de NFL, se esconder na sua carreira como um mero reserva a ponto de, em 2017, inclusive ameaçar uma prematura aposentadoria. Em 10 de Dezembro, contudo, o astro Carson Wentz se lesionou, Foles assumiu o timão e, de um simples sopro, se transformou em furacão. Os Eagles terminaram a metade inicial da pugna em farta vantagem, por 22 X 12. E Foles até mesmo, em um lance insólito, de lançador virou receptor, desnorteou a defesa perplexa dos Patriots e cravou um touchdown sensacional. Ocorre, de todo modo, que Brady ostenta a justa fama de monarca indebatível das reviravoltas. E paulatinamente a folga dos Eagles se encurtou. A 2’21” do encerramento, placar de 38 X 33, realizaria outra performance de magia? Não. Pela primeira vez em 20 jogos de pós-temporada, Brady cometeu um fumble, desperdiçou uma bola dominada. E os Eagles ainda converteriam um Field Goal, 41 X 33.

Foi o seu oitavo Superbowl na condução dos Patriots. Seria o seu sexto sucesso,recorde na história do esporte que mobiliza o público dos Estados Unidos. Seria a sua quinta conquista do laurel de Most Valuable Player, ou o MVP, melhor do combate. Mas Brady ainda ampliou aqueles primados antológicos que já detinha: por exemplo, agora,18 touchdowns, 235 passes completos em 356 tentativas, 2576 jardas somadas com passes. No passado, ele havia liderado os Patriots á felicidade em 2002 (Nova Orleans, 20 X 17 sobre Rams de Saint Louis, MVP), em 2004 (Houston, 32 X 29 nos Carolina Panthers, MVP), em 2005 (Jacksonville, 24 X 21 nos mesmos Eagles), em 2015 (Phoenix, 28 X 24 nos Seattle Seahawks, MVP), e em 2017 (de novo Houston, 34 X 28 sobre os Falcons de Atlanta, outra vez MVP).

Aluno da Universidade de Michigan entre 1995 e 1999, Brady se graduou em Business e em Psicologia. Todavia, sofreu bastante até realizar o que efetivamente queria, se tornar um quarterback profissional. Nos primeiros dois anos, era o sétimo da lista dos pretendentes à posição de titular. Tornou-se uma espécie de cliente particular de um médico, seu professor, que o estimulou a perseverar e a permanecer em Michigan ao invés de retornar à sua terra e se matricular noutra escola, na Costa Oeste. Na dúvida, o rapaz enviou um currículo à Merrill Lynch, empresa mega de investimentos, e acertou um estágio de finais de semana. Mas, em 1998, o seu rumo se configurou. Atuou espetacularmente numa peleja e se garantiu no posto. Em apenas duas temporadas garantiu o seu lugar no ranking da história do Futebol de Michigan: o terceiro com 442 passes acertados em 710 tentativas, o quarto com 5.331 jardas obtidas, o quinto com 53 lançamentos para TDs.

Paralelamente celebrado pelo seu matrimônio com Gisele Bundchen, a exuberante top-model brasileira, também se desenrolou de maneira peculiar o seu relacionamento. De 2004 até 2006, Brady conviveu com uma atriz seis anos mais velha, Bridget Moynahan, já grávida de dois meses quando ele se aproximou de Gisele. Em 22 de Agosto de 2007 nasceria John Edward Thomas Brady, pelo papai devidamente perfilhado, com orgulho. No entanto, nem o menino o afastou da paixão pela brasileira, com quem se casou, formalmente, numa igreja católica, em 26 de Fevereiro de 2009; com quem depressa teria Benjamin Rein (de 8 de Dezembro de 2009) e Vivian Lake (de 5 de Dezembro de 2012); e com quem construiria um incrível patrimônio estimado em US$ 2 bi. Detalhe: ele jamais se irritou ao ser considerado, desde então, sngelamente, o Mr. Bundchen.

Ocorre que, naquela época, a mulher, uma gaúcha de 20 de Junho de 1980, suplantava o marido no departamento das remunerações. Apenas em 2017 o quarterback bateu Gisele, consta que por US$ 44 a US$ 30 milhões. E existe uma razão comercial para tanta disparidade. Brady não gostava de se submeter ao esgotamento físico-mental do trabalho como garoto-propaganda. Dos seus 44 milhões oficialmente comprovados, 15 advieram da publicidade à qual ele enfim aderiu. Curiosidade: dinheirama à parte, Brady costuma obedecer à mulher. Seis semanas antes da eleição de Donald Trump, um repórter descobriu que ele guardava um boné do então candidato no seu armário do vestiário dos Patriots e divulgou a informação. Trump se locupletou e, num dos seus pronunciamentos, agradeceu o apoio do quarterback. Perguntada, via Instragram, se o apoio era verdadeiro, Gisele respondeu secamente: “No!” E o marido engatou: “Aplaudo as decisões dela”. Pois neste domingo, nas tribunas do estádio, Gisele chorou.

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