Doping, Johnson, Armstrong, Maradona, Bellucci: por que não se controlam os tais 'suplementos'?
Seria o fim da desculpa da "contaminação cruzada"
Silvio Lancellotti|Sílvio Lancellotti

Jamais me esquecerei do que testemunhei naqueles dias ao redor de 24 de Setembro de 1988, quando aconteceu a final da prova dos 100m do Atletismo dos Jogos de Seul, na Coréia do Sul. As eliminatórias em que Carl Lewis, dos Estados Unidos, pareceu muito mais veloz do que o seu rivalérrimo Ben Johnson, do Canadá, o recordista do planeta desde 1987, com 9”83. E a decisão eletrizante na qual Johnson, com 9”79, devastou o primado e Lewis.
Daí houve a celebração de Lewis com uma spaghettata, um bolo repleto de creme de Chantilly, obra da mamãe, e uma esticada através da madrugada num bordel do bairro mais sinistro da cidade. Paralelamente, nos bastidores dos Jogos se descobria que o campeoníssimo correra dopado. Foi patético acompanhar a entrevista em que Carol Ann Letheren, a chefe da delegação do Canadá, anunciou que já havia recolhido a medalha de ouro do relâmpago.

Os escândalos provocados pela falcatrua de Johnson e. no Ciclismo, pela mutreta do americano Lance Armstrong, ostentam uma tal magnitude que obviamente fica ao nível do rodapé a presente confusão que envolve o tenista Thomaz Bellucci. Ainda que sob os eflúvios de substâncias proibidas, Johnson registrou um tempo que Maurice Greene, dos EUA, apenas igualaria em 16 de Junho de 1999. Mesmo dopado, bem ou mal, Armstrong venceu sete vezes o “Tour de France”, de 1999 a 2005.
E quê conquistou Bellucci no período em que consumiu um diurético batizado de Hidroclorotiazida? Nada, pois é, absolutamente nada de mais destacável. Trata-se de uma substância costumeiramente receitada para o tratamento da hipertensão arterial e dos inchaços decorrentes de uma acumulação de fluidos no corpo. Claro que não funciona como acelerador de performance em quaisquer esportes. No entanto, se sabe que um diurético perfeitamente pode mascarar a ingestão, por exemplo, de anabolizantes.

Retorno à questão básica: que conquistou Bellucci? Nada e, inclusive, foi lastimável a sua performance no período em que supostamente teria ingerido o produto vetado. O mesmo produto, aliás, que se encontrou no xixi de outro tenista, Marcelo Demoliner, igualmente flagrado e, por incrível coincidência, um parceiro de duplas de Bellucci e um usuário de suplementos fornecidos pelo mesmo Body Lab do Rio de Janeiro e firmados pelo mesmo Alexandre Cosendey, bioquímico do laboratório de manipulação.
Dizem os sicilianos que a coincidência não existe. Ocorre que as coisas sumariamente colidem. Na sua defesa, os dois, Bellucci e Demoliner acusam o Body Lab de, na montagem dos “suplementos” que eles encomendaram, ter cometido um equívoco chamado de “contaminação cruzada”. Ou, a inserção, obviamente involuntária, da tal Hidroclorotiazida na formulação que deveriam ingerir.
Tudo muito, muitíssimo confuso. Que formulação seria? De quais “suplementos”? Pois aqui surge um incômodo fator de complicação. Faz quase oito meses que, depois de sofrer uma hemorragia esofágica, eu recorro a dois suplementos, sem as aspas, para reposição de peso e para reforço muscular. Ambos com receita médica, embora se comprem normalmente em farmácias ou via Internet. Um é genericamente nutricional, destinado a maiores de 50 de idade, e contém vinte elementos entre vitaminas e sais minerais. O outro, hiperproteico, além de vitaminas e sais minerais, contém proteínas do soro do leite e aminoácidos.

Em resumo: transbordam complexidades no universo dos suplementos e, evidentemente, dos “suplementos”. Serve, para Bellucci, a mesma fórmula de Demoliner? Em 2011, também os nadadores César Cielo, Henrique Barbosa, Nicholas Santos e Vinícius Waked caíram no antidoping pela presença, em seus suplementos de manipulação, do diurético Furosemida. Creio que fica razoavelmente claro o desenho que pretendo sugerir. Antes de colocar numa berlinda o presente debate, se há ou não a possibilidade da “contaminação cruzada”, me parece crucial voltar atrás e se discutir a facilidade com que se ministram os “suplementos de manipulação”. Basta a obrigatoriedade da receita específica para se delimitarem os riscos.

PS.: Na Copa dos EUA/94 um certo Diego Maradona se valia de um produto devidamente autorizado para perder o seu excesso de peso. Quando o autorizado acabou, um dietólogo imbecil, Daniel Cerrini, comprou um outro, da mesma marca, parecidíssimo. Só que o parecidíssimo continha a proibida Efedrina. Bingo! Deu no que deu... Todos os detalhes no meu livro "Almanaque da Copa" da LPM Editores.
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