Doping, e a CAS enfrenta o COI
Liberados mais 28 russos para estes Jogos de Inverno, 2018
Silvio Lancellotti|Sílvio Lancellotti

Catalão de Barcelona, empresário, político e diplomata, embaixador da sua pátria na União Soviética de 1977 a 1979, presidente do Comitê Olímpico Internacional de 1980 até 2001, em 1981, logo depois de assumir, Juán Antonio Samaranch (1920-2010) estimulou a criação de uma entidade crucial no destino das competições, a CAS, Corte Arbitral do Esporte, sediada em Lausanne, Suíça, e oficialmente instalada em 1984. Trata-se de uma espécie de tribunal independente, com algumas dezenas de componentes e, digamos, uma governança de vinte advogados, magistrados ou juristas, que se incumbem de julgar recursos de pessoas ou organizações que se considerem prejudicadas por decisões até mesmo do COI. A fluminense Ellen Gracie Northfleet, a primeira mulher a ocupar um posto no SFT, o Supremo Tribunal Federal, faz parte da brigada de governança, foi homenageada com a sua co-presidência durante os Jogos do Rio em 2016 e, inclusive , integrou o grupo que carregou a bandeira do COI até o mastro do hasteamento.

Imaginada para solucionar pendengas legais, a Corte, no entanto, acabou por se tornar cativa nos casos dos atletas acusados de doping. Como o campeoníssimo César Cielo e outros nadadores do País, em Maio de 2011 flagrados em exames a que se submeteram no Troféu Maria Lenk e enfim desculpados quando a CAS considerou justa a sua defesa – consumo de um suplemento nutricional que fora contaminado numa farmácia de manipulação. Agora, às vésperas dos Jogos de Inverno de Pyeongchang, Coréia do Sul, a Corte reverte uma nas punições mais severas de toda a História internacional de qualquer modalidade.

Nesta quinta-feira, já na sede do evento, Matthieu Reeb, o secretário-geral da CAS e seu porta-voz, anunciou que os 28 russos punidos pelo COI por doping suposto em 2014, nos Jogos de Sochi, foram liberados por “insuficiência de evidências” da sua culpabilidade. Mais, as sete medalhas que a Rússia conquistou, então, lhe serão devolvidas, em particular as duas de ouro. Apenas em onze casos a Corte manteve, parcialmente, as decisões do COI – os atletas, definitivamente banidos da neve, voltarão a competir no futuro, depois dos Jogos de Pyeongchang. Uma atitude polemíssima da CAS, que ignora as denúncias de que o governo de Vladimir Putin, na Rússia, teria o péssimo costume de incentivar o doping de maneira sistemática em todas as suas federações.

O COI havia admitido a participação de 169 russos nas contendas da Coréia do Sul, desde que sob uma bandeira neutra, a dos aros olímpicos, e sem a glória do seu hino no topo do pódio. Agora, subitamente, a uma semana da cerimônia de abertura de Pyeongchang, o Comitê, hoje presidido pelo alemão Thomas Bach, se depara com um dilema gravíssimo. Ou interrompe de vez aquilo que a Rússia aponta como uma perseguição de inspiração norte-americana, ou engole a possibilidade de que também os EUA realizam, ainda que de uma forma impecável e impossível de se detectar, o tal doping de maneira sistemática. Uma briga de cachorros raivosos que evidentemente só prejudica a lisura e a limpeza do Esporte no planeta.
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