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Com o Botafogo em crise, um livro que homenageia Bebeto de Freitas

Uma biografia, com o magnífico texto final do jornalista Rafael Valesi, conta a história de um atleta, treinador e dirigente que honrou o Esporte do Brasil

Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

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Bebeto de Freitas e a bandeira de "Estrela Solitária"
Bebeto de Freitas e a bandeira de "Estrela Solitária"

Apenas uma perversidade do acaso poderia produzir uma coincidência tão triste. Mas, aconteceu que, nesta mesma época do lançamento de um livro precioso, ainda que às vezes doloroso, um de seus protagonistas, o Botafogo de Futebol e Regatas, quase assumiu que faliu. Em uma nota oficial, datada de 30 de Outubro, o antológico, venerando clube da “Estrela Solitária”, o “Glorioso” do Rio e, claro, de todo o Brasil, anunciou que, por “racionalização” das suas finanças, deixará de disputar o estadual e a Superliga de Voleibol.

Pois o livro, de texto redigido com as letras da paixão pelo jornalista Rafael Valesi, é na verdade a autobiografia de um grande botafoguense, um certo Paulo Roberto de Freitas, um cidadão do Rio, de 16 de Janeiro de 1950, que um infarto pilantra, traiçoeiro na sua precocidade, atropelou em 13 de Março de 2018, em uma festividade jovial em Vespasiano, Minas Gerais.


Bebeto, no time de Voleibol do Botafogo, o segundo agachado, da esquerda para a direita
Bebeto, no time de Voleibol do Botafogo, o segundo agachado, da esquerda para a direita

Quem? Trata-se apenas e somente de Bebeto de Freitas, um levantador excepcional, cuja carreira de atleta nasceu e se desenvolveu no “Glorioso”. No Voleibol, astro da seleção brasileira, ele disputou dois Jogos Olímpicos, em Munique/1972 e em Montreal/1976. Depois, já longe das quadras, como treinador, Bebeto construiu a “Geração de Prata” que ficou com o vice-título de Los Angeles/1984 e funcionaria como a semente capaz de fazer de tal Esporte o segundo coletivo mais admirado do País, embora tenha até mais lauréis do que o Futebol. O livro, porém, não limita Bebeto ao Voleibol. Vai muito além, numa farta coleção de histórias fascinantes.

Na seleção, em 1983, de abrigo azul, em pé
Na seleção, em 1983, de abrigo azul, em pé

Um paulistano, prestes a completar os 35 anos agora em Dezembro, Valesi se aproximou de Bebeto, em Setembro de 2017, graças ao desvelo de Georgiana Arce, então no extinto Ministério do Esporte. Na mídia desde 2006, com três Pan-Americanos e dois Olímpicos no seu currículo, a caminho do quarto continental, Valesi pesquisava o Alto Rendimento quando, num papo com Georgiana, brotou a idéia do livro com Bebeto. No contato inicial, Bebeto não se interessou nada pela possibilidade: “Não sei se a minha história vale um livro”. Aos poucos, porém, o trabalho se transformou em amizade, em cumplicidade, em 20 horas gravadas de conversas, mais todo o tempo incontável que Valesi utilizou em investigações na mídia, em checagens e em muitas entrevistas tocantes, até com os três filhos de Bebeto.


Como treinador do Brasil, atento ao jogo
Como treinador do Brasil, atento ao jogo

Chamei o livro de autobiografia porque o seu enredo se desenrola na primeira pessoa, Bebeto por Bebeto. Da sua infância, da sua família, surgem pessoas e aventuras ora tensas mas basicamente deliciosas, graças ao talento de Valesi para enriquecê-las com descrições, números e, claro, reações e episódios que transformam uma eventual reportagem numa bela obra de literatura. Através de fatos obrigatórios, brotam personagens aparentemente insólitos como o polêmico João Saldanha, que era tio de Bebeto, e como Vladimir Palmeira, um líder estudantil na época do Golpe Militar. Até Ayrton Senna participa.

Na seleção da Itália
Na seleção da Itália

Claro, óbvio, as minúcias especificamente esportivas têm um destaque primordial no livro. Em certos casos, levam inclusive tons dramáticos, como nos idos de 1997 e 1998, quando Bebeto dirigiu a “Squadra Azzurra”, da Itália, em duas pugnas eliminatórias contra o Brasil, e ganhou. Não falta igualmente uma tensão que virou maravilha quando ele se elegeu, por duas vezes, o presidente do seu amado Botafogo, entre 2003 e 2008, recolocou o clube na Série A do Brasileiro, levantou a Taça Guanabara, a Taça Rio e o título estadual, sem dizer que também venceu certames de outras modalidades como o Basquete, a Natação, o Pólo Aquático e o Voleibol.


Na tarde em que faleceu, aliás, era um diretor do Atlético Mineiro, outro dos seus carinhos, e se aprestava a exibir, na Cidade do Galo, o novo time de Futebol Americano. O Bebeto invariavelmente ousado, audacioso, inovador. E o Bebeto que, desafortunadamente, das suas próprias crias, apenas pôde lamber o prólogo e um dos capítulos. Valesi recorda a dificuldade que enfrentou até completar a sua missão: “...não havia tirado nenhuma foto com ele...”. O resultado impresso, de todo modo, compensou o sacrifício, o enorme peso da ausência e a batalha para buscar, sozinho, o ponto final.

Detalhe da capa do livro
Detalhe da capa do livro

BEBETO DE FREITAS, O QUE EU VIVI


Em depoimento a Rafael Valesi

Publicação Independente, 256 páginas

Rio de Janeiro - 2019

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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