Silvio Lancellotti Ciao, Paolo Rossi (1956-2020), o craque da "Azzurra" e da Juventus

Ciao, Paolo Rossi (1956-2020), o craque da "Azzurra" e da Juventus

De uma doença incurável, se foi, aos 64 anos de idade, o atacante que Telê Santana desprezou e que detonou a seleção do Brasil na Copa da Espanha/82

Paolo Rossi

Paolo Rossi

@cappellettifederica

A verdade é, porque é, eu aprendi com a filósofa Hannah Arendt (1906-1975), uma das mentoras do meu modo de pensar a vida. Da mesma maneira que Diego Maradona não se dopou para jogar a Copa de 1994, nos EUA, não foi pela safadeza de prejudicar o seu time, o Perugia, que Paolo Rossi acabou flagrado num infame escândalo do "Calcio", em 1980. Sim, ele teve a sua culpa no episódio, apelidado “Totonero”, uma falsificação de resultados de modo a enriquecer atletas e apostadores. Mas, naquele caso do “Totonero”, o Pablito foi mais um boboca,  um trouxa, um idiota, do que um desavergonhado.

Pelo Lanerossi Vicenza

Pelo Lanerossi Vicenza

Reprodução Arquivo Pessoal SL

Nascido em Prato, Toscana, em 23 de Setembro de 1956, entre 1976 e 1979 ele havia se destacado como atacante do Lanerossi de Vicenza, 60 tentos em 96 partidas. Tinha participado da Copa da Argentina, em 1978, pela seleção da Bota, quarta colocada na competição, e registrado três gols em sete prélios. Tinha se transferido ao Perugia que, mesmo pequenininho, na Série A de 1978/79 alcançara a maravilha da segunda colocação, invicto, apenas atrás do Milan. E daí, na “stagione” subseqüente, fora o artilheiro do clube com 13 gols. Sua desdita: saber que adversários entregariam os resultados e se locupletar, registrar mais e mais “reti” do que produziria em circunstâncias normais.

Na Juve, com Michel Platini e Zibi Boniek

Na Juve, com Michel Platini e Zibi Boniek

Reprodução Arquivo Pessoal

Numa conversa que travamos, nas vésperas do indigitado cotejo do Sarriá, naquela Copa da Espanha, em 1982, pautado para preparar o seu perfil eu escutei a sua expiação: “Pela mistura de ingenuidade com vaidade, eu fui execrado na minha casa, na minha família. Quando procurei os meus pais, depois do processo, suspenso por dois anos, eu pude ler nos olhos deles toda a sua repreensão.” A punição impediu que ele defendesse a “Azzurra” na Eurocopa/80. Pablito pensou em abandonar o futebol, pensou até em sair da Itália. Mas, Gianpiero Boniperti, um ex-super-craque transformado em alto dignitário da Juventus de Turim, decidiu recuperá-lo e sem medo o contratou.

Contra Júnior e Luisinho, na Copa da Espanha/82

Contra Júnior e Luisinho, na Copa da Espanha/82

Reprodução Arquivo Pessoal

Pablito ainda disputou três pelejas pela “Senhora” que se tornou campeã da Itália, e re-atraiu as atenções de Enzo Bearzot, o seu treinador na “Azzurra” de 78, em fase de montagem da equipe para a Copa da Espanha. O "Vecio" não se arrependeria, embora o Pablito se exibisse bem obscuramente nas três porfias da etapa de classificação. Ciente da minha ligação com a turma da “Azzurra”, Telê Santana, o treinador do Brasil, me pediu um palpite e eu lhe sugeri que, contra a Itália, utilizasse Edinho Nazareth, um zagueiro bem mais duro que o clássico Luisinho, na marcação do Pablito. Telê ironizou. Observou que Rossi ainda não fizera nada na Copa, enquanto que Luisinho, o elegante, não cometera uma só infração. Desafortunadamente, deu no que deu.

Com Federica, no Instagram da esposa

Com Federica, no Instagram da esposa

@cappellettifederica

O Pablito se foi, na madrugada de Roma, neste dia 9 de Dezembro de 2020. Padecia de uma doença incurável, o mal que o obrigou a interromper, no começo deste ano, a sua bela carreira de comentarista do “Calcio” na Mediaset e na RAI. Eram sempre bem-humoradas, até poéticas, as suas falas, inclusive diante de cotejos horrorosos. Certa ocasião, quando caía um dilúvio sobre um jogo da Juve, ele não hesitou: “Pra atuar nessas condições o Don Boniperti me fez aprender mergulho em profundidade”. Casado com Federica Cappelletti, escritora, jornalista e cineasta, teve três filhos: Sofia Elena, Maria Vittoria e Alessandro. Dez semanas atrás havia completado, apenas, 64 de idade.

PS: Não explicitei o tipo da doença a pedido de Federica.

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