Champions League, a humilhação da Juve e a dignidade do Chelsea
Em Turim, num cotejo que poderia ter decidido na etapa inicial, a "Senhora" não marcou nenhum tento e ainda engoliu três gols do Villarreal. Mesmo sem dono, os "Blues" bateram o Lille, na França.
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Aconteceu nesta quarta-feira, dia 16 de Março, a jornada derradeira das oitavas de final da Champions League, a Liga dos Campeões, a ChL da Europa, versão 2021/2022. Mais ou menos como se esperava, e bem ao contrário do que houve na terça, com as eliminações do Ajax e do Manchester United, ambos em seus campos, desta vez ao menos um dos favoritos, o Chelsea, seguirá adiante. Embora em Turim, num jogo que poderia já ter decidido em 45’, a Juventus engoliu o placar maluco de 0 X 3, todo construído a partir dos 78. Sinal de que precisa de uma gigantesca reformulação. Quanto aos “Blues” de Londres, defenderão a taça levantada em 2020/2021, isso numa ChL sem LIonel Messi do PSG e sem Cristiano Ronaldo do United, os seus astros maiores desde o princípio deste Século XXI.
Eis os sobreviventes:
Atlético de Madrid (Esp)
Bayern Muenchen (Ale)
Benfica de Lisboa (Por)
Chelsea de Londres (Ing)
Liverpool (Ing)
Manchester City (Ing)
Real Madrid (Esp)
Villarreal (Esp)

Com esses oito, na próxima sexta-feira, dia 18 de Março, na sua sede de Nyon, Suíça, a UEFA, entidade que cuida do Futebol no Velho Continente, realizará o sorteio das quartas de final da Champions. Será um sorteio diferente do que criou os emparceiramentos das oitavas. A UEFA não se preocupará em evitar duelos de clubes de mesma origem e nem fará escalonamentos de acordo com o seu ranking. Ou, nada impede que se sacrifique, já, um dos ingleses ou dos espanhóis. Eis como se desenrolaram as duas últimas partidas das oitavas assim como as fichas das seis anteriores, com detalhes dos qualificados:

JUVENTUS (Ita) 0 X 3 VILLARREAL (Esp)
Turim, Allianz Stadium, 41.507 lugares
Público: 30.385
Árbitro: Szymon Marciniak (Polônia)
Gols: Gerard/pen, Pau Torres, Danjuma/pen
Na ida, em Villarreal: 1 X 1
No agregado: Villarreal 4 X 1
Fracassaram rotundamente os artilheiros de quem os seus times dependiam na terça-feira, Sébastian Haller do Ajax e Cristiano Ronaldo do Manchester United. A “Senhora”, porém, confiava na potência do garoto de 22 anos, Dusán Vlahovic, que não hesitou em vestir a camisa que fôra do CR7 e assim se tornar o DV7, ele que na Fiorentina havia se tornado o DV9. Na ida, na sua estreia numa ChL, logo aos 33” ele cravou o recorde de gol mais rápido anotado por um calouro na história da competição. E prometia ser o diferencial da volta.

Não conseguiu, na etapa inicial, embora a sua Juve tenha perpetrado o absurdo de 28 avançadas com algum perigo à meta de Rulli, autor de sete belas intervenções. Sem dizer que Capoue não poupou Vlahovic de empurrões longe da vista do mediador Marciniak. No segundo tempo, seguiu impiedoso o padecimento dos “bianconeri”. Impossível a sua penetração na muralha amarela do Villarreal. Junto à sua área técnica, o treinador Unai Emery pedia “calma”. Tradução: “cera”, segurar a pelota na sua retaguarda e só buscar a contra-ofensiva na certeza. A “Senhora” alugou aos ibéricos a sua metade do campo. Então, aos 78’, um castigaço puniria a finalização horrorosa do DV7 e dos juventinos.

Num lance trivial, sem risco nenhum, Rugani se atrasou numa bola dividida com Coquelin. Marciniak não reagiu mas o VAR o notificou do penal. Recém-entrado no jogo, Gerard bateu no canto esquerdo de Szczesny, que ainda esbarrou na pelota, Villarreal 1 X 0. Tarde demais, Max Allegri colocou Paulo Dybala no lugar de Rugani. Foi o visitante, no entanto, que marcou mais um tento, aos 85, num escanteio alçado por Aurier, falha terrível de toda a retaguarda da Juve, que permitiu a invasão de um becão, Pau Torres, 2 X 0. Ironia das ironias: era Vlahovic quem se incumbiria de marcar Pau Torres. E a humilhação ainda se ampliaria aos 90, um braço de De Ligt na bola, um novo penal, o tiro de Danjuma, 3 X 0.

LILLE (Fra) 1 X 2 CHELSEA (Ing)
Villeneuve-d’Asc, Stade Pierre-Mauroy, 50.186 lugares
Público: 49.048
Árbitro: Dàvide Massa (Itália)
Gols: Burak Yilmaz/pen X Pulisic, Azpilicueta
Na ida, em Londres: Chelsea 2 X 0
No agregado: Chelsea 4 X 1
Dificílimo especular de que maneira se portaria o elenco do Chelsea diretamente afetado pela Guerra da Ucrânia. Afinal, Roman Arkadyevich Abramovich, 55 anos de idade, o seu proprietário desde 2003, um russo que se vangloria das suas três outras nacionalidades, de Israel, da Lituânia e de Portugal, se antecipou a uma sanção eventual e abdicou da posse do clube. Personagem polêmico, porém querido pelos torcedores, pelos funcionários, pelos jogadores, um mano mais velho, para não dizer o paizão. De todo modo, emborea distante, Abramovich remeteu bons votos ao treinador Thomas Tuchel e especialmente a um atleta.

Trata-se do franco-senegalês Édouard Mendy, o arqueiro de 30 de idade que Abramovich pessoalmente pescou no Rennes em 2020 e que só lhe produziu felicidade: fechou a meta na peleja de ida, em 20 de Fevereiro – a Guerra se iniciaria dia 24. Até a volta de Villeneuve-d’Asc, sua 19ª partida na Champions, Mendy mantivera não-violadas as suas redes em 14 aparições. Melhor: havia concedido, nas quatro restantes, meramente quatro gols. Pena, o arqueiro nada pôde fazer, aos 38’, quando Burak Yilmaz bateu um penal, toque de mão de Jorginho, Lille 1 X 0. Jorginho se resgataria quase imediatamente, aos 45’, quando colocou Pulisic livre à frente de Leo Jardim, arqueiro do Lille. Em diagonal, um chute rasante, 1 X 1.

Abramovich apenas abriria sorrisos bem fartos aos 71’ quando Mason Mount desceu pela esquerda, cruzou, a bequeira do Lille meramente olhou e do lado oposto, Aspilicueta tocou de joelho na bola, Chelsea 2 X 1. Brilharam Tuchel e aos seus rapazes, resistentes a todas as tormentas que advieram da natureza russa do seu agora ex-patrão mas ainda o líder digno de respeitoso profissionalismo. Sim, o elenco – milionário – do Chelsea ministrou uma aula de profissionalismo ao revirar o resultado e permanecer na batalha pelo bi. Afinal, continua a ser um clube súdito de Sua Majestade, um clube da capital Londres e da nobre Inglaterra.
Os duelos anteriores:
ATLÉTICO MADRID (Esp) X MANCHESTER UNITED (Ing)
Na ida, em Madrid: 1 X 1
Na volta, em Manchester, Atlético 1 X 0
No agregado: Atlético 2 X 1
BAYERN (Ale) X RB SALZBURG (Aus)
Na ida, em Salzburgo: 1 X 1
Na volta, em Munique, Bayern 7 X 1
No agregado: Bayern 8 X 2
BENFICA (Por) X AJAX (Nee, ex-Hol)
Na ida, em Lisboa: 2 X 2
Na volta, em Amsterdam, Benfica 1 X o0
No agregado: Benfica 3 X 2
LIVERPOOL (Ing) 0 X 1 INTER (Ita)
Na ida, em Milão: Liverpool 2 X 0
Na volta, em Liverpool: Inter 1 X 0
No agregado: Liverpool 2 X 1
MANCHESTER CITY (Ing) X SPORTING (Por)
Na ida, em Lisboa: Manchester City 5 X 0
Na volta, em Manchester: 0 X 0
No agregado: Manchester City 5 X 0
REAL MADRID (Esp) X PSG (Fra)
Na ida, em Paris: PSG 1 X 0
Na volta, em Madrid: Real Madrid 3 X 1
No agregado: Real Madrid 3 X 2
Agora na 67ª edição desde sua instalação em 1955 como Champions Cup, na 30ª desde sua ampliação e sua troca de nome em 1993, esta Champions League começou, no dia 22 de Junho de 2021, com 80 agremiações de 54 das 55 federações da UEFA. Curiosa exceção, Liechtenstein, de sete equipes que participam, a convite, de certames da Suíça. Na atual formatação, a ChL preservou os 26 clubes de ranking superior e lançou os outros 54 em um moedor de eliminatórias, de modo que, em mata-matas, restassem seis. Um sorteio dividiu os 32 em oito chaves de quatro. Sobreviveram, e seguiram adiante, os campeões e os vices de cada Grupo. Um novo sorteio, em 11 de Dezembro, determinou os desafios das oitavas.

Na soma de todas as suas fases, desde as eliminatórias até os dois combates da terça, nesta ChL já aconteceram 205 cotejos e se anotaram 583 tentos, a média de 2,84. Aliás, num continente que aos solavancos foge da impiedade da Covid-19, se revelou excelente a afluência de público. Da fase das chaves em diante, 3.719.518 espectadores em 112 jogos, média de 33.210. A UEFA marcou as quartas para 5/6 e 12/13 de Abril, as semis para 26/27 de Abril e 3/4 de Maio, e anunciou a grande decisão para 28 de Maio, um sábado. Antes designada a São Petersburgo, Rússia, no rastro das punições causadas pela intempestiva agressão militar à Ucrânia a sede acabou transferida ao Stade de France, em Paris.

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