Calcio, no campeonato bagunçado, Juventus X Inter jogam sem platéia
A investida do Covid-19 na Bota comprometeu até mesmo as reuniões do Parlamento. Em todos os esportes, só eventos com os portões fechados.
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Parece absurdo, porém é fato. A versão de número 19 do Coronavírus, um ultra-microrganismo que a Ciência já conhece desde 1960 e, desde então, de vez em quando, incomoda a humanidade com as suas diversas mutações também batizadas de SARS ou de MERS, conseguiu a façanha de transtornar o Campeonato Italiano de Futebol que, nesta temporada de 2019/20, comemora o seu 118º aniversário, o 88º nos pontos corridos, em turno e returno.

Finita a sua "giornata" 23, em 9 de Fevereiro, o certame, um feudo quase exclusivo da Juventus de Turim, oito títulos consecutivos desde 2011/12, subitamente se escancarou às investidas de outras agremiações. Então, a “Senhora” acumulava 54 pontos em 69 possíveis. A Internazionale de Milão também ostentava 54 e a Lazio de Roma tinha 53. A Velha Bota não conhecia um congestionamento no alto da tabela desde a “stagione” de 2001/2002 quando se aglomeraram a Juve, a Inter e a Roma, rival da Lazio, e a “Senhora”, também apelidada de “Zebra”, por causa das listras da camisa, levou a taça.

Na rodada 24 a Juve bateu o Parma e subiu aos 57. Num desafio direto, a “Águia” da capital superou a “Biscione” de Milão, foi aos 56 e a inimiga ficou nos 54. E daí, na jornada 25, a confusão eclodiu. Enquanto a “Senhora” e a Lazio, respectivamente, em viagem, suplantavam a SPAL e o Genoa, e se encarapitavam nos degraus dos 60 e dos 59 pontos, o Covid-19 adiava o confronto entre a Inter e a Sampdoria. Pior, na rodada 26, a Lazio sobrepujou o Bologna e escalou o patamar dos 62. Todavia, não houve Juve X Inter, o que bagunçou toda a briga pela liderança e pelo destino do "scudetto".

Resumo da ópera: Lazio com 62 pontos em 26 cotejos, Juventus com 60 em 25, Inter com 54 em 24. Aliás, na verdade, dos dez prélios da rodada 25, foram quatro os postergados. E foram seis os da jornada 26. E como se ajustará o campeonato com tantos buracos? Para este fim-de-semana, o sábado 7 e o domingo 8 de Março, a tabela previa as dez porfias da “giornata” 27, agora totalmente realocada para os dias 13, 14 e 15. As atrasadas da rodada 26 se disputarão em 8 e 9 de Março. Juve e Inter se digladiarão no domingo. E as da jornada 25, em 18 de Março, menos Inter X Sampdoria: a “Biscione” terá pugna na Europa League. Ainda sem data a sua peleja contra a "blucerchiata".

Em circunstâncias normais, seria sensacional o chamado “Derby d’Italia” entre a Juve e a Inter neste domingo. No entanto, por determinação governamental, absolutamente todos os eventos que pressupõem a presença de público acontecerão de portões fechados. No caso das reuniões do Parlamento, por segurança, deputados e senadores apenas se acomodarão poltrona sim e poltrona não, um metro de distância, vedados inclusive os apertos de mão. A norma, aparentemente insana, vale até mesmo para os restaurantes. Quanto ao Allianz Stadium de Turim, abrigará apenas 500 espectadores.

Não haverá, por exemplo, o ritual de acesso ao gramado, dos jogadores escoltados por crianças. Além dos atletas, dos integrantes das comissões técnicas, cartolas de praxe, os encarregados da arbitragem e dos cuidados médicos, os gandulas e os funcionários essenciais do Allianz, dos porteiros aos jardineiros, bombeiros e policiais, estarão na partida 150 representantes da mídia. Todavia, não haverá as entrevistas no campo ou nos bastidores.

Vincenzo Spadafora, o Ministro do Esporte, formalmente sugeriu que se liberasse a transmissão, por TV, nos canais abertos da nação. A FIGC, Federazione Italiana Giuoco Calcio, a entidade que administra o Futebol na Bota, com o máximo de bom senso ao seu alcance autorizou. Porém, gritou mais alto o poderio do dinheiro. A Liga de Clubes alegou compromissos comerciais e vetou o acordo. Não pensou que, repleto o Allianz em seus 41.507 lugares, a renda passaria do equivalente a R$ 35 milhões. Isso, sem dizer que a Juve ostenta 27.700 “abbonati”, os assinantes por temporada. Claro, uma soma bem robusta a devolver, cerca de R$ 23 milhões.
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