As eleições no Corinthians e a complicada busca da renovação
Dia 3, mudarão o Conselho Deliberativo e o Presidente
Silvio Lancellotti|Sílvio Lancellotti

No próximo sábado, dia 3 de Fevereiro de 2018, no Mini-Ginásio da sua sede na Rua São Jorge 777, Zona Leste da Cidade, o Sport Club Corinthians Paulista receberá, como preveem os mais otimistas, cerca de 3.500 dos seus 10.000 sócios, entre os patrimoniais e os remidos, para a eleição de seu Presidente e, ainda, dos seus 200 conselheiros trienais.
Trata-se de uma eleição curiosamente simultânea. Em inúmeros clubes são os conselheiros trienais, mais os vitalícios, de cargos perpétuos, que definem o Presidente, até em datas e em pleitos diferentes. Consequentemente, caso não seja repudiado pelos vitalícios, o Presidente já iniciará a sua gestão com a maioria dos conselheiros no apoio das suas ações. O procedimento que o Corinthians adota, no entanto, torna tudo imprevisível. E eu pretendo me esforçar ao máximo, aqui, para explicar o porquê.

Logo após a gestão de Alberto Dualib, de 1993 a 2007, se aprovou uma regra absurda para o preenchimento das vagas no Conselho Deliberativo: cada um dos sócios votava em um só “chapão” de trienais, obviamente de mesma tendência, e ao “chapão”, que preenchia todo o conclave ao lado dos vitalícios, apenas cabia ungir o Presidente.
Envolvido em escândalos inclusive policialescos, Dualib renunciou em 21 de Setembro de 2007 e o "chapão" protegeu os seus sucessores, Andrés Sanchez (2007-2011), Mário Gobbi (2012-2015) e Roberto de Andrade, todos eles vitoriosos às expensas de oposições incipientes. Claro que se tratava de uma excrescência inominável, capaz de eternizar no poder o grupo do “chapão”.

O bom-senso de um aguerrido pugilo de conselheiros, porém, estimulou a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária, em 22 de Outubro de 2016, na qual se aprovou uma vasta reforma estatutária que, no meio de outras medidas, substituiu o “chapão” por “chapetas”.
Melhor assim? Pouco melhor. Francamente, também não vejo lógica na alternativa. No pleito deste sábado existirão 4 candidatos a Presidente e mais um sub-júdice. E 24 “chapetas”, cada qual com 25 candidatos. Cada associado poderá votar em um dos candidatos a Presidente, é evidente. Mas, poderá votar em apenas uma das 24 “chapetas”. Como o número 200 dividido por 25 resulta em 8, integrarão o Conselho só aquelas 8 “chapetas” mais sufragadas.
E se as “chapetas” mais sufragadas não corresponderem à, sigamos, turma política do mais votado para o posto de Presidente? Simples, e pena. O Conselho do Corinthians se tornará uma espécie de ersatz, o sucedâneo imperfeito do Congresso em Brasília – onde, na procura frenética pela maioria e pela suposta estabilidade, o Palácio do Planalto desanda a distribuir ministérios, benesses e correlatos etcetera e tal.

As “chapetas” que terminarem em nono e décimo lugar se consolarão como suplentes. No caso de falecer ou de se demitir um dos duzentos, se fisga, nas suplentes, pela ordem, como substituto de mandato, o mais idoso, o mais antigo no clube e assim por diante. Claro que candidatos eventualmente excelentes, ou populares, que integrarem qualquer outra das 14 “chapetas”, jamais assumirão. Daí a minha rejeição a esse esquema postiço. Nada como um escrutínio em que vencem, mesmo, os indivíduos de mais votos.
Eis, a seguir, os candidatos ao cargo de Presidente e as “chapetas” que, respectivamente, deverão favorecê-los. Trata-se de especulações, claro, mas todas devidamente embasadas.

Andrés Sanchez, de Limeira/SP, 54, vitalício, empresário de Embalagens, Deputado Federal pelo PT. 10 (Renovação e Transparência), 12 (Chapa Quente), 15 (Tradição Corinthiana), 22 (Preto no Branco), 33 (Corinthianos com Respeito), 44 (Vai Corinthians), 90 (Chapa Oficial).

Antonio Roque Citadini, de Rio Claro, 67, vitalício, advogado, jurista, membro do Tribunal de Contas do Estado desde 1988, vice de Dualib de 2001 a 2004. 17 (Novos Tempos), 30 (Sócio em Primeiro Lugar), 55 (Sangue Corinthiano), 76 (Mais Corinthians), 77 (São Jorge), 98 (Vai Corinthians com Citadini).

Felipe Ezabella, de São Paulo, 39, advogado, conselheiro por dois mandatos. Diretor de Esportes Terrestres na Gestão Andrés, de 2007 a 2009. Apoiado por antigos membros que se indispuseram com a “Renovação e Transparência”, como Raul Correia da Silva, ex-Diretor Financeiro, e Fernando Alba, ex-Diretor de Futebol Amador. 82 (Corinthians Supremo), 83 (Corinthians Positivo).

Romeu Tuma Jr., de São Paulo, 57, vitalício, delegado, ex-Deputado Estadual, ex- Secretário Nacional de Justiça (2007-2010), vice-presidente do clube de 1994 a 1995. 21 (Inteligência Corinthiana), 99 (Lava Jato).
Ainda existe aquele sub-júdice, denunciado por quitar pendências de sócios para que se habilitassem na eleição, impugnado pela Comissão Eleitoral, cuja decisão foi confirmada por Guilherme Strenger, atual Presidente do Conselho. Prometeu que recorreria à Justiça Cível. E obteve uma Liminar. Cuja, claro, poderá ser revertida.

Paulo Garcia, de Bauru, 62, vitalício, dono da Rede Kalunga de papelaria e de materiais de escritório que patrocinou o clube na década de 90. Derrotado por Mário Gobbi, na eleição de Roberto apoiou Citadini. Admite que foi o principal financiador da campanha de Andrés à Câmara. Irmão de Fernando Garcia, agente de jogadores, até do “Timão”. Impedido, deve favorecer Andrés. 11 (Fiéis Escudeiros).
A “chapeta” 18 (Aqui é Corinthians) se subdivide entre Andrés e Tuma. A 23 (Resgata Corinthians) e a 42 (Ética Corinthiana) não se definiram. A 25 (Mosqueteiros) e a 88 (Sempre Corinthians) se dizem neutras. E a 54 (Só Corinthians) se assume claramente como independente.

Conhecedores da intimidade dos bastidores das eleições no clube apontam a 22 (Preto no Branco), encabeçada pela tradicional família Monteiro Alves (de Adílson, um dos idealizadores da “Democracia Corinthiana” nos anos 80, e os filhos Duílio e Adriano), mais a 10 (Renovação e Transparência), fundada por Andrés, como, seguramente, as que receberão mais votos, em torno de 30/35%.
Os experts também apostam nas boas performances da 15 (Tradição Corinthiana), da 18 (Aqui é Corinthians), da 82 (Corinthians Supremo), da 83 (Corinthians Positivo) e da 98 (Vai Corinthians com Citadini). Igualmente, não será surpresa o bom desempenho da 54 (Só Corinthians), que buscou a sua representatividade nas raízes da torcida que vai ao estádio, que compete sem patrocinador algum, usa exclusivamente os recursos dos seus integrantes e conta com a presença de uma jornalista, uma advogada e até de um teólogo.

Os analistas internos acreditam que Andrés Sanches já domina, no mínimo, um terço dos vitalícios. E, como fará as três “chapetas” mais votadas e uma ou outra rebarba, deverá retornar ao comando do clube. Sobre os demais candidatos, revelo frases de divertidas até maldosas que entreouvi de críticos do sistema que matou o “chapão”.
Para um interlocutor veterano, “se ninguém ganhar com 80% dos votos, eclodirá no Corinthians uma negociata sem fim”. Para um outro, “o Garcia já sabia que sofreria a impugnação”. Ou. “o Garcia “não passa de um satélite do Andrés, meramente finge que perfilha a oposição”. Aliás, que oposição? “Essa está antecipadamente rachada entre Tuma e Citadini”. E o Citadini? “Pertinho do seu ‘canto do cisne’ na política do Corinthians, ele é um adversário que qualquer situação gostaria que houvesse contra”.
Algum barulho progressista e pertinente, porém, se ouvirá no Conselho. O grupo de Felipe Ezabella é uma novidade efetivamente jovem e de futuro, desde que preserve a sua transparência de atitudes. Assim como o da 54. Caso o torcedor-sócio realmente decida aderir à política no clube, graças à Só Corinthians poderá se iniciar um movimento capilar, de baixo para cima, ainda inédito num País, convenhamos, hoje bem atarantado.
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