Adeus, Mario Tatini, mestre dos mestres da Gastronomia no País

De Florença, desde 1954 no Brasil, ele preparou mais de 2.000 profissionais de cozinha e de salão. Com orgulho, este escriba foi um dos seus pupilos,

Mário & Família, numa das suas últimas fotografias

Mário & Família, numa das suas últimas fotografias

Arquivo Pessoal

Foram praticamente 65 anos de convivência, de amizade e de aprendizado crucial no departamento gastronômico da minha carreira profissional, hoje além do meio século. De uma estirpe antológica de hoteleiros de Florença, Toscana. Itália, Casimiro Mário Tatini aportou com os pais e quatro irmãos, em Santos, em 1954, e lá inaugurou uma história a quem a cultura restauranteira do Brasil deve uma enormidade. Por exemplo, a pioneira utilização de muitos produtos que os fogões nativos mal sabiam de que modo aproveitar, das lulas ao polvo, das vongole aos mexilhões, e tantos ingredientes que desprezava ou inclusive estragava, como os cremes e como os cogumelos.

Com Fabrizio e equipe, na cozinha do Tatini

Com Fabrizio e equipe, na cozinha do Tatini

Arquivo Pessoal

Desde o Don Fabrizio, o seu primeiro endereço, na Ana Costa da cidade da Baixada, até o recente Casimiro, na coincidentemente Alameda Santos da megalometrópole paulistana, ele, simplesmente o Mário, ensinou, preparou, aprimorou, talvez mais de 2.000 pessoas de cozinha e de serviço. Tranquila e orgulhosamente eu me incluo nessa vasta multidão. E lacrimejo enquanto escrevo este texto em sua honra. Aos 92 de idade, neste dia 4 de Junho de 2020, o Mário dormiu rumo à eternidade, a abstrata, espiritual, e a concreta, aquela que ficará gravada para sempre na literatura culinária do País.

Dan, Dino, o Don, Mário e Yolanda, em Santos

Dan, Dino, o Don, Mário e Yolanda, em Santos

Arquivo Pessoal

Em 1957, o Don Fabrizio subiu a serra, se instalou na Paulicéia e depressa ganhou um prestígio enorme pela qualidade do seu atendimento e, claro, da comida. Com a morte do patriarca Fabrizio, ele, o Mário, que havia sido um excelente esgrimista e até um pugilista pré-olímpico na sua juventude na Bota, assumiu a liderança da família e dos irmãos, o Athos, a Yolanda, o Dino e o caçula Dan. E, entre outras audácias e ousadias, sempre pioneiro, na década de 80, com os manos, vendeu o ponto e até a marca e abriu um Tatini, de fato, no térreo de um edifício de flats no coração dos Jardins.

Com Fabri, à porta do restaurante

Com Fabri, à porta do restaurante

Arquivo Pessoal

No percurso, Mário transformou aprendizes de salão e de retaguarda em estupendos barmen, garçons, maîtres, chefes-de-cozinha. Invariavelmente escoltado na vida e na administração pela esposa Gisella, ainda transformou os filhos, Fabrizio, Paola, Andrea e Thais em sinônimos de competência. Um publicitário de currículo admirável, o Fabri se tornou o “condottiere” do Tatini – é incrível como o seu estilo afetuoso e elegante lembra o “babbo”. As moças cuidam de uma rotisseria. E, representante da mais nova geração, aos 27 de idade o cativante Thiago já é o responsável pelo Casimiro.

No salão, filho, pai e o Steak Diana

No salão, filho, pai e o Steak Diana

Arquivo Pessoal

Afirmar que Mário Tatini se consagrou como um ícone do seu ramo é muito pouco, pelo significado paralelo com que ele abençoou a mim e à minha Família. Basta lembrar que, no finalzinho de 1972, quando eu estudava na Universidade de Stanford, sabedor da minha paixão pelo seu Steak Diana, não hesitou em embalar meia dúzia de amostras da iguaria e de fazer com que uma aeromoça amiga generosamente se incumbisse de levar o pacote até o meu apartamento nas vizinhanças de San Francisco. Jamais me esquecerei da expressão atônita da moça quando eu abri o pacote e ela percebeu que, involuntariamente, havia se tornado uma contrabandista de refeição.


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