Adeus a Tito Madi (1929-2018), um dos precursores da Bossa Nova
De comportamento discreto e hábitos reservados, ele não surfou na grande onda da década de 60. Mas, inscreveu seu nome na história da MPB.
Silvio Lancellotti|Do R7

Acredite se quiser. Mas, quando eu era um menininho, tocava piano, aprendido no instrumento de parede da Tia Teté, mana da Mamma Helena. Só que um dia a Teté se mudou de casa, o piano ficou longe e eu comecei, quase toscamente, a dedilhar o violão da Mamma, que era ultra-eficiente com as seis cordas. No fim das contas, aprendi, inteirinha, uma canção de poucos acordes, que resistia à minha quase voz, “Chove lá Fora”, sucesso do Tito Madi.

Chaukki Maddi, nascido em Pirajuí, 12 de Julho de 1929, era um ídolo da Dona Helena e dos rapazes da minha rua, ao menos aqueles que mais curtiam a pré-Bossa Nova ao invés do Rock de Elvis Presley e Chuck Berry. Melhor, já Tito e já Madi com um único D, ele se profissionalizara na capital e morava a quarteirões da minha residência. No que descobrimos o seu endereço, depressa nós passamos a visitá-lo e ele, gentilíssimo, educadérrimo, nos acolhia e, eventualmente, nos agraciava com shows particulares.

Na década de 60, principalmente, se sucederam as suas maravilhas nas programações de rádio, “Não Diga Não”, “Cansei de Ilusões”, “Carinho e Amor”, “Canção dos Olhos Tristes”, “Menina Moça” e até um tema bem mais sincopado, “Balanço Zona Sul”, que desvendou ao País e ao mundo o senhor talento de um certo Wilson Simonal (1938-2000). De comportamento discreto e de hábitos reservados, embora fosse, mesmo, um influenciador da Bossa Nova, especialmente no seu lado mais romântico e mais jazzístico, o Tito não surfou naquela grande onda. Acalentava um objetivo diferente.

Ao invés dos auditórios e das platéias exuberantes, ele optou, ao contrário, pelos espetáculos íntimistas na noite do Rio e da Paulicéia. E, na década de 70, até inventou um gênero bem diferente, uma recomposição do que fizera uma sua amiga de princípio de carreira, Dolores Duran (1930-1959) – a chamada Fossa, ou a Música de Dor de Cotovelo. Naqueles idos, aliás, eu dirigia, na Rede Bandeirantes, uma coletânea de programas semanais de uma hora de duração, a “Série Documento”. Como diz o título, programas biográficos, nos quais eu pude, sem vaidade, resgatar parte da história da MPB.

Claro que o Tito mereceu um dos programas. E, sabedor de que eu acabara de ser papai pela segunda vez, exigiu que o repertório incluísse um tema ainda inédito, “Meus Filhos”. Claro, homenagem aos dele, que transportou aos meus. Desde então, a cada novo show que apresentava, ele me convidava e, ao me ver num canto da boate, logo desferia a frase: “Esta eu dedico ao meu amigo Sílvio”. Continuou a gravar e a se exibir até pouco tempo atrás. Pena, pena, não pude comparecer ao lançamento do seu último CD, “Quero te Dizer que Te Amo”, em 2015. Ele se foi em 26 de Setembro. Claro, subiu ao Céu.
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