A noitada festiva e patética que se tornou o velório de Sérgio Cabral
No livro "A Farra dos Guardanapos", o jornalista Sílvio Barsetti reconstrói meticulosamente como ocorreu aquela exibição de ridicularias em Paris
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Deveria ser uma noitada de pura glória, aquela de 14 de Setembro de 2009. Depois de solenemente receber, em cerimônia no Senado da França, a Legião de Honra da nação, Sérgio Cabral Filho, o governador do Estado do Rio, numa festança de fato, no Travellers Club de Paris, celebraria a condecoração e anteciparia a sua alegria pelo fato de, em semanas, a Cidade Maravilhosa conquistar o direito de abrigar a Olimpíada de 2016. Setenta convidados supimpas teriam todas as suas despesas pagas por João Pereira Coutinho, um bilionário português, o proprietário do Grupo SGC, naquela época em fase de gigantesca expansão de seus negócios nas margens plácidas do Brasil.

Estariam presentes Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, e João Havelange (1916-2016), ex-presidente da FIFA, posteriormente envolvidos em escândalos diversos nas suas entidades, inclusive a denúncia de que propinas auxiliaram o Rio a sediar os jogos. A noitada, todavia, se transformaria num simbólico velório quando, em 2012, o ex-governador Anthony Garotinho, um antigo aliado que se tornou desafeto de Cabral, desandou a espalhar, pelas chamadas “redes sociais”, as imagens patéticas do evento que ganhou o apelido adequadíssimo de “A Farra dos Guardanapos”.

Os protestos que se espalharam através do País em Junho de 2013 e que, literalmente, acossaram Cabral em seu apê no Leblon, mais uma sequência dramática de denúncias, levariam à sua renúncia, em Abril de 2014, e à sua prisão, em Novembro de 2016, acusado de liderar ilicitamente o desvio, cálculos de então, de 224 milhões de reais. Hoje, no total, as denúncias contra Cabral já atingem o número 25, com mais de 170 anos de condenações.

O estopim público dessa autodestruição inapelável, a tal noitada de Setembro de 2009, acaba de merecer o seu justo tratamento literário na obra, claro, de título “A Farra dos Guardanapos”, que o jornalista Sílvio Barsetti lançou pela Máquina de Livros. São 176 páginas de um texto de estilo deliciosamente leve, a reconstrução meticulosa das vestimentas ao cardápio, das peripécias comportamentais até a diálogos inteiros, que o seu autor, com 30 anos de profissão, a maior parte nos Esportes, coletou através de entrevistas ou reuniu pela montagem, num quebra-cabeças, de peças extraídas da mídia.

Não sou desmancha-prazeres ao ponto de pré-desvendar mistérios que o xará Sílvio Barsetti empenhativamente solucionou – como, por exemplo, quem fez as imagens da “Farra”, de que modo o desafeto Garotinho as obteve. Ou como e por quê, anestesiados pelo dragão do etilismo, determinados convivas emolduraram as suas testas com guardanapos e não se pouparam de desfilar pelos salões do Travellers no formato tipicamente carnavalesco de um trenzinho. Homenageie o autor, você, com a sua leitura. Devorei a obra numa única sentada de cerca de cinco horas. Ironia involuntária, precisamente o mesmo tempo de duração daquela “Farra” inolvidável.
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