A memória do filho João Marcello e o perfil da sua mamãe Elis Regina
Foram exatos 11 anos, 6 meses e 19 dias de convivência com a cantora, intérprete, e mulher, num livro para se ler entre lágrimas e risadas
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Volta a me bater no peito o atordoamento que senti na manhã de 19 de Janeiro de 1982. Eu ainda mantinha, na paralela do Jornalismo, um escritório de Arquitetura e a minha mamãe Helena lá me assessorava. Como contar a ela que a sua idolatrada Elis Regina (1945-1982) tinha acabado de subir ao Céu? Haviam se transformado em amigas, as duas, parceiras de fogão e de caldeirões, em peixadas eventuais de fim-de-semana. A minha relação profissional com aquela exuberante cantora/intérprete já tinha de muito se transformado em coisa de Família & Família e de constantes visitas mútuas.

Pois a Élena, como a Elis a chamava, já sabia e sem saber que eu sabia me deu a notícia com um cuidado de fada e nós choramos juntos e daí a mamãe me passou a pauta do dia, logicamente dentro do tema. Esquecer o projeto de uma escola estadual que jazia numa prancheta e, ao invés, produzir um textão para a “Folha”, avisar um punhado de pessoas ligadas à música que o velório aconteceria no Teatro Bandeirantes, e então correr atrás de gente que se dispusesse a participar de uma edição especial do “Show da Noite”, que Alberto Helena Jr. dirigia e eu co-apresentava, na Rede Record.

Neste Dia de Natal de 2019, em que acabo de devorar o livro “Elis e Eu”, escrito pelo primogênito João Marcello Bôscoli, revivo aquele 19 de Janeiro e me lembro do que escrevi e a “Folha” publicou. Não foi, apenas, a honraria digna e justa diante de uma figura excepcional de toda a Cultura deste País. Porém, a homenagem à Elis mulher, a Elis de três crianças que não desfrutariam o privilégio de conviver, nunca mais, com a sua doçura providencial de matriarca – além do João, filho do jornalista e letrista Ronaldo Bôscoli, o Pedrinho e a Maria Rita, bambinos do multímodo artista César Camargo Mariano.

Em “Elis e Eu”, de subtítulo “11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe” (Editora Planeta, 192 páginas), às vezes de modo divertido, em outras de maneira tocante, o João desvenda, precisamente, o lado mais corriqueiro, ou mais caseiro, ou mais doméstico, trivial, da mulher preocupada com o horário de a criançada dormir ou acordar, do banho, da sua alimentação, do seu bom ou mau comportamento na escola. E também, claro, tudo que aprendeu de ética, e de dignidade, compostura, filosofia de vida, ideologia, ou a imperiosidade de correr riscos na defesa da verdade. Não vou detalhar trechos. Apenas, como desfecho, imagino que, onde estiver, a Baixinha se sinta orgulhosa por ver que os três rebentos também brilham por aqui.
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