A derrota do Palmeiras e a criação de uma Liga de Clubes no Brasil
O infortúnio do "Verdão" no Mundial da Fifa reaviva a questão da imperiosidade de uma gestão de fato profissional nos times de futebol do país. Chega de cartolagens apenas movidas por paixão
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

A lembrança da triste derrota do Palmeiras para o Chelsea da Inglaterra, na decisão do Campeonato da Fifa, sábado, dia 12 de fevereiro, não vale, apenas, para os seus rivais se lambuzarem na piadinha infantil de que o “Verdão” não tem um título mundial. Muito mais, propõe uma reflexão sobre a modernização do futebol no Brasil, sobre a imperiosidade de se instalar, de fato, aqui no Ludopédio pátrio, a modernidade de gestão. O fim do chamado “Monopólio Global” na exibição, por TV aberta, dos campeonatos regionais já representou um belo avanço. Isso paralelamente a uma eficiente operação de negociação de direitos internacionais de transmissão que, hoje, já permite a aficionados de mais de 120 países, em todo o planeta, o prazer de acompanhar não somente os jogos do Brasileirão como também os programas de pré-rodada e de melhores momentos, reportagens a respeito de treinamentos, o rescaldo das jornadas, expectativas, mercado, transferências et cetera.

Ocorra por meio digital, cabo, streaming ou através de outros formatos de difusão, o futebol do Brasil ganhou um novo e providencial espaço da Patagônia ao Canadá, do Norte da Europa às regiões balcânicas, partes da Ásia, da África e inclusive da Oceania. Tanta divulgação e essa enorme exposição, porém, serão suficientes? Obviamente não. Afinal, transbordam os passivos trabalhistas e/ou bancários de basicamente todos os clubes mais importantes do país. O Corinthians, o primeiro campeão da Fifa em 2000 e um outro título em 2012, dramaticamente padece com as dívidas que assumiu na edificação da sua Arena antes da Copa/2014. Isso sem falar de administrações tenebrosas, como a do Cruzeiro/BH, quatro taças do Brasileirão, duas da Libertadores, rebaixado à Série B em 2019 e ainda na divisão inferior, agora transformado em SAF, ou Sociedade Anônima do Futebol, 90% das suas cotas adquiridas por Ronaldo Fenômeno Nazário pela bagatela de R$ 400 milhões. Menos do que o meio bilhão investido pela Juventus de Turim só no sérvio Vlahovic.

Não que a ideia da SAF represente um equívoco. Claro que não. A SAF seguramente é melhor do que o sistema em vigor no Brasil, times dotados de cartolas que, no geral, mais se locupletam pessoalmente, ou indevidamente, do que beneficiam as suas comunidades. Outras agremiações centenárias, como o Botafogo e o Vasco da Gama, no Rio, se aprestam a aderir a tal modelo e à promessa de uma gestão responsável, profissional. Também já existem clubes, como o Bragantino, que adotaram algo como uma gestão compartilhada. E sobressaem os casos de Bahia e Fortaleza, que atingiram a modernização em função da própria natureza das suas diretorias, muito bem qualificadas. Evidentemente, todavia, não bastam apenas as soluções individuais e isoladas. Passou da hora de, aqui, a CBF se dedicar exclusivamente às seleções e à evolução e à proteção do futebol feminino, e aceitar que surja uma saudável Liga de Clubes. Como na Espanha, desde 1984. Ou na Inglaterra, desde 1992. E na Alemanha, desde 2000. E na França, desde 2002. E na Itália, desde 2010.

Nessas plagas, respectivamente, a FEF, a FA, a DFB, a FFF e a FIGC se incumbem das suas representações nas competições continentais e na Copa do Mundo da Fifa. Cabe a cada Liga, porém, a estruturação e o controle do campeonato nacional. Aqui, no Brasil, falta uma Liga de Clubes capaz de elaborar um certame de Série A e um de Série B, cada qual com 20 clubes, garantia de acesso e de descenso de quatro por torneio, numa tabela civilizada de 38 finais de semana, de jogos apenas aos sábados (16 e 18h) e aos domingos (11, 16 e 18h), tudo adequadinho aos fusos da América do Norte e da Europa. E sobrariam 38 meios de semana para a Copa do Brasil e para a Copa Libertadores. Mais: além das seleções, a CBF cuidaria da Série C, da Série D e da Copa do Brasil. Sobrariam as chamadas Datas Fifa. E as federações estaduais poderiam focar os certames locais em, no máximo, oito semanas, oportunidade para se manterem competitivos os clubes, digamos, menores, os celeiros dos supostamente maiores, que se utilizariam dos regionais como seus laboratórios.

Caberia à Liga, ainda, a organização de um departamento de árbitros exclusivos, profissionais, mesmo, e a manutenção de uma academia de formação de novos apitadores. Sem falar de uma academia de instrução, de constante aprimoramento de treinadores, fisicultores e massagistas, ou de formação de novos gestores para clubes. Mais um departamento de análise de desempenho. Exatamente como na Bota existe o Centro Técnico Federal de Coverciano, situado nas vizinhanças de Florença, Toscana, preciosidade que a FIGC supervisiona e a Liga de Clubes apóia e desfruta. Não se trata de penduricalhos, e sim de itens cruciais, que agregariam valor ao Brasileirão e ao futebol do país.

A sua Liga devida e firmemente implantada, os clubes poderão, sempre, negociar melhor todos os seus direitos de imagem, aqui e lá fora. Com independência, e com transparência. E me perdoem o ídolo Fenômeno e a Sra. Leila Pereira, a presidente do Palmeiras, não se trata, como no Cruzeiro, de “salvar o time do coração” ou, no “Verdão”, de acreditar que a paixão tudo pode. Nada de neófitos, de paraquedistas ou torcedores de plantão. Quem se meter em Liga de Clubes, no Brasil, precisará de mais do que experiência em especulação ou empréstimos. O tema, seriíssimo, requer, exige, atestados antecipados de sucesso.
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