Cosme Rímoli Depressão. Rejeição no Corinthians. 7 a 1 nunca acabará para David Luiz

Depressão. Rejeição no Corinthians. 7 a 1 nunca acabará para David Luiz

Depois de seis anos, o jogador ainda sente o peso da derrota mais vergonhosa da Seleção. Tenta exorcizar, mas o 7 a 1 está 'tatuado' na sua testa

  • Cosme Rímoli | Do R7

David Luiz não quer. Mas ele se tornou o símbolo dos 7 a 1 para a Alemanha

David Luiz não quer. Mas ele se tornou o símbolo dos 7 a 1 para a Alemanha

Reprodução Twitter

São Paulo, Brasil

Em maio de 2014, ele foi o zagueiro mais caro do mundo.

Foi comprado pelo Chelsea por 50 milhões de euros, atuais R$ 303 milhões.

Era o que faltava.

Ele já era o jogador mais reverenciado às vésperas do Mundial.

Só estava atrás de Neymar em termos de propagandas, antes do Mundial do Brasil começar.

Nike, PepsiCo, Seguros Unimed, Tam, Vivo e Itaú pagaram muito bem para ter a sua imagem.

No primeiro semestre de 2014 apareceu em 746 propagandas na televisão brasileira.

Felipão o considerava o verdadeiro capitão do Brasil. A faixa ficava com Thiago Silva por uma questão de respeito, hierarquia. Quem era o líder daquele grupo era ele: David Luiz.

Camelôs vendiam perucas imitando seu cabelo enrolado, crianças se mostravam encantadas com sua alegria nas entrevistas. Faziam fila por um autógrafo, um abraço.

Ele, que havia saído do país com 18 anos, como um desconhecido, nove anos depois, se tornava ídolo, símbolo da vitória pessoal. E coletiva. Havia tido ótimo desempenho na conquista da Copa das Confederações, em 2013.

Contra a Alemanha, era ele quem ostentava a tarja de capitão, Thiago Silva estava suspenso. E também foi dele a ideia de mostrar a camisa de Neymar, durante o hino nacional. O atacante estava contundido.

David Luiz criou um clima emocional de puro patriotismo, com olhos marejados quando o mundo todo focava a Seleção de Felipão, antes da semifinal. Valia a vaga para a decisão da Copa.

Os ingressos caríssimos garantiram que o Mineirão estivesse lotado por famílias e torcedores representando a elite do país.

Todos foram para festejar, certos da vitória.

O discurso de todos era esse.

Ideia de David Luiz levar a camiseta de Neymar. E mostrá-la durante o hino nacional

Ideia de David Luiz levar a camiseta de Neymar. E mostrá-la durante o hino nacional

Reprodução Twitter

Com um adendo: "a Seleção Brasileira ganharia por Neymar", alijado da Copa pelo colombiano Zúñiga.

E a partida começou.

Foi a maior vergonha da centenária história do futebol deste país.

O primeiro tempo já terminou com o placar de 5 a 0 para os alemães.

No intervalo, os germânicos, tão bem tratados na Bahia, já sabiam que estavam na decisão do Mundial. E decidiram diminuir o ritmo.

Por pena da população.

Vitória 'só' por 7 a 1.

David Luiz chorava como uma criança e pedia desculpas para os torcedores, que vaiavam, xingavam o time, rasgavam a camisa do Brasil.

A partir dessa partida, a carreira do zagueiro mudou.

Passou a ser símbolo de fracasso.

A Vivo que havia assinado contrato com dois anos com o atleta, pagou integralmente. Mas não usou mais sua imagem depois da Copa.

David  Luiz 746 propagandas na tevê brasileira antes da Copa. Nenhuma depois

David Luiz 746 propagandas na tevê brasileira antes da Copa. Nenhuma depois

Divulgação

David Luiz sumiu, como por encanto, da tevê brasileira.

Perdeu grande parte do respeito como jogador.

Tite conseguiu recuperar alguns atletas do elenco de  2014.

Tentou dar uma chance como volante para David Luiz, mas percebeu que ele não tinha mais condições psicológicas para enfrentar a rejeição popular e da imprensa.

E o deixou de lado.

Desde então, David Luiz evita entrevistas para brasileiros. Sabe que o 7 a 1 será inevitável.

Mas, agora, aos 33 anos, se permitiu tocar no tema.

Em entrevista ao canal do Benfica, clube que serviu como trampolim na Europa. Foi feliz por quatro anos em Portugal.

E ontem, se permitiu.

Tocou na maior tristeza de sua carreira.

David Luiz aos pés de Ozil após o vexame no Mineirão. Retrato do fracasso

David Luiz aos pés de Ozil após o vexame no Mineirão. Retrato do fracasso

Reprodução Twitter

"Depois de seis meses, para mim, muitas pessoas se esconderam, não quiseram obter a responsabilidade ou dividir a responsabilidade, e eu carreguei o fardo durante muito tempo sozinho", revelou.

Pessoas próximas do jogador comentavam que ele ficou depressivo. Não podia ouvir falar sobre a partida. O que era impossível. Bastava sair às ruas, onde quer  que fosse, que ouvia provocações.

Mais sereno, quase seis anos depois, ele tentou detalhar o aspecto coletivo da derrota.

E mostrou que, apesar da experiência de Felipão e de Parreira, o time era mimado, vaidoso, acostumado apenas a vencer. A CBF com seus amistosos contra equipes fraquíssimas e as seleções em decadência, que vieram disputar a Copa das Confederações, contribuíram para essa clima de 'já ganhou'.

"A gente não estava acostumado a perder por dois, três gols, e dar a volta (virada). Durante essa caminhada, a gente não teve esse jogo.

"E, de repente, foi um baque, você está no Brasil, a gente vai ganhar, e de repente toma um, toma o segundo, e o terceiro em seguida.

"Um jogo em que dá tudo errado", analisou.

E o máximo que assume é a falta de uma conversa, quando o time estava perdendo.

"Hoje eu penso, talvez naquela altura, como capitão, se faz 3 a 0 e eu falo "Peraí, para todo mundo, vem aqui".

"Talvez, se a gente fizesse essa preparação, 3 a 0, está dando tudo errado, vamos ficar aqui paradinhos, vamos para o intervalo, volta, a gente faz um gol e isso tudo aqui muda.

"Mas para ter essa noção, essa preparação, você precisa viver, a acho que a gente não viveu isso antes."

Na verdade, David Luiz deu uma enorme contribuição para a goleada. Quando o Brasil estava perdendo por 2 a 0, ele abandonou a zaga e foi jogar à frente, como se fosse uma pelada. Perdeu totalmente o senso tático. 

Atônito, Felipão permitiu e veio o caos.

Aos 33 anos, a imprensa inglesa não acredita que ele seguirá no Arsenal na próxima temporada. Deve ir para um país com futebol mais fraco, como China, Japão. Ou até mesmo retornar a Portugal.

Ele é corintiano assumido.

Gostaria de jogar na equipe que admira.

Mas há muito receio dos homems que comandam politicamente o clube.

A imagem de derrota, dos 7 a 1, segue tatuada em David Luiz.

Não há empolgação por ele no Parque São Jorge.

Muito pelo contrário.

Até rejeição.

Dirigentes sabem que, qualquer derrota do clube, o vexame do Mineirão virá à tona.

O que pode ser tóxico ao clube.

David Luiz precisa ser forte.

E entender.

Não foram só os seis meses que ele carregou o fardo da vergonha.

Ele o acompanhará até o resto da vida.

Não apenas na carreira.

David Luiz pedindo desculpas  depois do 7 a 1. Não foram aceitas

David Luiz pedindo desculpas depois do 7 a 1. Não foram aceitas

Reprodução Twitter

Injusto?

Sim.

Mas real.

David Luiz simboliza o 7 a 1 para a Alemanha...

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