R7 Só Esportes Demitir é ruim, mas Dome abusou do direito de dar sorte ao azar

Demitir é ruim, mas Dome abusou do direito de dar sorte ao azar

Catalão deixa Fla após sequência de erros e teimosias de um treinador que parece não saber arrumar defesa e que destruiu o feito sem por algo no lugar

  • R7 Só Esportes | Eduardo Marini, do R7

Nunca é demais repetir: a contratação de técnicos estrangeiros é benéfica para o futebol brasileiro. Promove troca de conhecimentos e uma saudável concorrência, que desperta em todos, os de fora e os daqui, a necessidade de aprimoramento contínuo.

Igualmente importante é lembrar que demitir técnicos brasileiros ou estrangeiros nos primeiros meses de trabalho não é o melhor caminho para o futebol. Perpetua a sensação de amadorismo na condução do futebol pátrio.

Mas convenhamos e combinemos: o catalão Domenèc Torrent Font, o Dome, de 58 anos, demitido há pouco pelo Flamengo, se superou no direito de dar sorte ao azar nesses 98 dias em que comandou o time mais querido do País.

Nem tanto pelo percentual de aproveitamento nos 26 jogos sob seu comando: 63,8%, com 15 vitórias, cinco empates e seis derrotas. Ou mesmo pela posição no Brasileiro até agora: terceiro colocado, com 35 pontos, com a mesma pontuação do segundo (Atlético-MG) e a apenas um ponto do líder, com mais 18 rodadas pela frente. A equipe ainda classificada para as oitavas-de-final da Libertadores (pegará o Racing, da Argentina) e as quartas da Copa do Brasil (terá o São Paulo como adversário).

O que derrubou Domenèc foi uma sequência de erros, teimosias, omissões e confusões que culminaram com a destruição de tudo de bom implantado pelo português Jorge Jesus no mais caro e talentoso elenco do País, talvez da América Latina, logo no intervalo do primeiro jogo sob seu comando, sem colocar absolutamente nada de relevante em seu lugar.

A começar pela destruição total do sistema defensivo. Sob a gestão de Dome, ele virou uma peneira inacreditável, daquelas de dar dó, com os volantes Arão e Maia perdidos e uma sucessão insana de trocas de zagueiros, que só evidenciou o desentrosamento e o nervosismo dos jogadores por não conseguirem entender o que o catalão queria.

Aliás, ficou claríssima, para quem acompanhava os treinamentos, a dificuldade do catalão em passar aos jogadores o que ele queria de cada um para sua amada filosofia de Jogo de Posição ou Posicional. Sabe daquelas pessoas que conhecem algo demais mas possuem dificuldade de ensinar o outro? Pois é.


Resultado: 36 gols nesses 26 jogos (média de praticamente um e meio por jogo), três goleadas humilhantes (5 a 0 para o Independiente del Valle, 4 a 1 para o São Paulo em pleno Maracanã e 4 a 0 para o Atlético-MG) e o acachapante 3 a 0 para o Atlético-GO logo no início do turno.

A trajetória relativamente curta do catalão à frente de times importantes leva a crer que ele ainda não aprendeu ou não sabe mesmo montar defesas. O New York City, dos Estados Unidos, primeiro clube relevante treinado por ele, após deixar de ser auxiliar de Pep Guardiola, tomou 76 gols em 60 jogos sob seu comando, média de 1,27 por partida. Não foi pouco. Agora, o festival de gols tomados se repete no Flamengo.

Sob o comando de Domenèc, os dias de jogos do milionário e talentoso elenco rubro-negro, ainda reforçado com as jovens promessas da divisão de base reveladas no empate de 1 a 1 com o Palmeiras, transformaram-se, de momentos de segurança nos tempos de JJ, em horas de tensão e agonia para o torcedor, pela impossibilidade absoluta de saber como a zaga e o time irão se comportar a cada jornada.

Mas não foi só.

A insistência em Gustavo Henrique, em má fase, foi mais um erro de Dome

A insistência em Gustavo Henrique, em má fase, foi mais um erro de Dome

Alexandre Vidal/CRF

No ambiente interno do Flamengo, Dome pegou fama de ser “gente boa”, mas cobra e corrige pouco ou nada. Muito simpático, mas pouco exigente nos momentos de necessidade de correção de rumo, uma das principais atribuições de um comandante.

As multas por atraso de jogador simplesmente desapareceram - e há relatos de que o próprio técnico teria chegado com seus companheiros de comissão depois do elenco em ao menos um compromisso importante.

Dome era pouco enérgico nos jogos em que o time começava perdendo. Demorava a mexer no time e, quando resolvia substituir, fazia trocas que quase ninguém entendia. Enchia o ataque de gente e os isolava retirando os criadores do meio. No início, chegou a dar a sensação de achar que Pedro Rocha era meia defensor e não atacante.

Insistiu em escalar os zagueiros Léo Pereira e, sobretudo, Gustavo Henrique quando até as pedras notavam que ambos não conseguiram se adaptar ao seu esquema defensivo - ou da falta dele. Gustavo saiu arrasado de campo contra o São Paulo, consolado por adversários, e foi escalado em seguida.

Léo e Gustavo podem não ser os melhores zagueiros do mundo, mas fizeram excelentes temporadas por Athletico-PR e Santos em 2019. Não é sensato acreditar que eles desaprenderam a jogar.

Mostrou obsessão de poupar jogador que beirava a paranoia. Após 40 dias parado, Gabigol se disse pronto para entrar de início contra o Galo. Como Bruno Henrique passa por um momento difícil, poderia ter escalado o artilheiro ao lado de Pedro e Everton Ribeiro. Mas preferiu deixa-lo no banco e só o colocou quando estava 3 a 0. Deu entrevista sobre a Copa do Brasil sem saber que não havia gol qualificado.

O nervosismo, a ironia e as estocadas de Dome nos jornalistas na entrevista após o atropelamento promovido pelo São Paulo foram reveladores de que, no fundo, o catalão concordava com as críticas.

Apesar da suavidade na maioria das aparições públicas, não disfarçou algumas vezes um certo ar de pensador europeu pontificando para sul-americanos. Após as goleadas, passou a atropelar o final das perguntas com o início de suas respostas. Numa delas, começou sua fala com um “quando você entende de futebol”, numa clara estocada com a intenção de dizer que o jornalista autor da pergunta não sabia nada de bola.

Após ver a gravação da final da Libertadores 2019, o 2 a 1 de virada contra o River Plate, teria comentado com o grupo que eles não iriam ser campeões todo ano na sorte. Como se quisesse criar um colchão de garantia para fracassos futuros, vendia problema em vez de solução, dificuldade em vez de facilidade, ao destacar rotineiramente a dificuldade de vencer títulos por dois ou mais anos seguidos, o que drenava a autoestima dos jogadores e os deixava claramente incomodados.

E assim foi Domenèc, de uma goleada para outra, sempre com a mesma resposta asséptica e inodora, “muito dolorosa”, como se a expressão bastasse para consolar os fanáticos torcedores rubro-negros depois de cada atropelamento.

Doloroso, Domenèc Torrent, foi ver o senhor implodir, de forma orgulhosa e desprovida de inteligência, para tentar não ser deselegante, todo o esquema vencedor de Jorge Jesus e não colocar rigorosamente nada de útil no lugar. Derrubar algo de pé é fácil. A questão é colocar outra coisa melhor no lugar.

Se a multa for integralmente cumprida, Domenèc receberá do Flamengo dois milhões de euros, equivalentes a R$ 12,78 milhões. Com tantas teimosias nos últimos dias, alguns chegaram a levantar a hipótese de que o catalão, a essa altura dos desafios criados pelos próprios erros, talvez estivesse até preferindo mesmo ser mandado embora para encaixar essa grana e voltar para sua Catalunha natal.

De qualquer forma, é sempre triste demitir técnicos em tão pouco tempo. Mas, por tudo o que se enumerou, o caminho do Flamengo para o abismo parecia inevitavelmente traçado.

Então, senhor Domenèc Torrent Font, Tot i el poc temps, ja és tard.

É o que pode se aproximar, em catalão, de: apesar do pouco tempo, já vai tarde.

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