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‘O Neto me dava cusparada. Eu socava a cara dele. Viramos irmãos. Com o pênalti que bateu para fora, Roger Flores derrubou Passarella.’ Exclusiva com Marcio

O volante do Corinthians, campeão brasileiro de 1990, faz várias revelações exclusivas

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'Nosso time se impôs diante do São Paulo. Quando tomei um soco do Bernardo vi que seríamos campeões. Eles estavam descontrolados.' Márcio Bittencourt FÁBIO MATHEY/ESTADÃO CONTEÚDO — 16.12.1990

São Paulo, Brasil.

Final do Campeonato Brasileiro de 1990, Morumbi. Escanteio para o São Paulo.


A bola sobe, Márcio olha para cima, tentando dar a cabeçada e jogá-la longe da área corintiana. Mas, de repente, recebe a pancada e cai.

“Tomei um soco do Bernardo. Era só sangue descendo do meu nariz. A camisa ficou toda ensanguentada. Corri para o banco, enxuguei a minha cara. E voltei para o jogo. Soube, naquela hora, que seríamos campeões brasileiros”, relembra, sorridente, Henrimárcio Bittencourt. “Eles estavam descontrolados.”


Márcio foi uma das principais peças que fizeram o Corinthians começar a colecionar títulos nacionais. Antes, havia vencido o Paulista de 1988. Fez a final contra o Guarani.

“Tenho muito orgulho da minha trajetória. Me dei de corpo e alma pelo Corinthians. Ninguém acreditava naquele time que o (presidente Vicente) Matheus montou. Nem ele. Mas o Nelsinho encaixou as peças. Fomos ganhando, ganhando, derrubando os favoritos. E o Neto foi sensacional.“


Aliás, a amizade entre eles, que hoje virou fraternidade, os dois se tratam por irmãos, começou de maneira inusitada.

“Ele era um talento, lá no Guarani. Eu sempre fui volante marcador e ficava em cima do principal meia adversário. O Neto tinha uma mania. Ele me dava cusparada na cara. E eu devolvia com soco na cara dele. Era sempre a mesma coisa. Fomos expulsos juntos umas três vezes. Era cusparada e soco.“


Márcio Bittencourt comemora o título do Paulistão de 1988 pelo Corinthians em cima do Guarani de Neto Reprodução/Instagram/@_marciobittencourt

Mas o Corinthians contratou Neto. E, quando os dois se viram no mesmo time, a rivalidade se transformou em parceria.

“Num clássico contra o São Paulo, eu estava irritado porque ele não estava correndo. Saímos perdendo, ele fez os dois gols. No segundo, correu para me abraçar. Aí, ele me ganhou. Viramos irmãos.”

Márcio tinha muito mais qualidades do que só marcar.

“Ele tem ótimo toque de bola, visão de jogo. Os técnicos limitam o Márcio. O colocam para marcar. Para fazer falta. Ele é muito mais do que isso”, me disse Falcão, no Chile, quando comandou a Seleção, na Copa América de 1991 e fez questão de levar o volante corintiano.

“O Falcão era um excelente técnico. Mas o ambiente da Seleção era péssimo. Os cariocas mandavam e queriam queimá-lo. Até os jornalistas. Os dirigentes o abandonaram. Se eu soubesse que era tão ruim, eu não teria nem aceito a convocação. Justo eu, que sempre sonhei com a Seleção.“

Márcio saiu do Corinthians para ser campeão da Copa do Brasil no Internacional. Voltou como auxiliar técnico. Ficou três anos, até que a MSI assumiu o controle do futebol do Corinthians.

“Foi uma loucura. Chegaram Tevez, Mascherano, Roger, Carlos Alberto, Nilmar, Sebá. E contrataram o Daniel Passarella como técnico. Ele decidiu colocar o Roger Flores como reserva. As coisas não estavam bem. Chegou o jogo decisivo da Copa do Brasil contra o Figueirense.

“O Roger na reserva. Eu falei para não levar. Mas o Daniel quis mostrar que era ele quem mandava. Levou. E na decisão por pênaltis, o Roger bateu o dele por cima do gol. Se foi por querer? Não sei. Mas aquele pênalti derrubou o Passarella. O Roger derrubou o Daniel.”

Neto e Márcio. Cusparada e socos na cara. A rivalidade se transformou em grande amizade Reprodução/Instagram/@_marciobittencourt

Márcio assumiu, os jogadores o adoravam. Tevez pediu aos dirigentes que ele seguisse como técnico. Mas a MSI contratou Antônio Lopes.

“Me pediram para eu ficar, me dava bem com o Lopes, que foi meu técnico, no Inter. Mas fui embora, para que ele trabalhasse à vontade.”

Márcio ficou 16 anos como treinador de equipes médias e pequenas do futebol brasileiro. Assumiu a coordenação da base do Corinthians. Mas deixou o cargo por perceber a influência dos dirigentes nas contratações dos jogadores. Muito sincero, tem uma mágoa.

Ele doou sua camisa ensanguentada, que resume sua gana, sua vibração fora do comum, como jogador, ao Memorial do Corinthians.

“Me pediram e eu decidi dar. Ficaria para sempre no Memorial. Mas logo me ligaram. E disseram que ela havia sido roubada. Isso me dói. Mas não tem problema. O Corinthians ficará para sempre no meu coração.”

A entrevista exclusiva de Márcio Bittencourt está, na íntegra, no canal Cosme Rímoli, no YouTube.

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