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Cosme Rímoli - Blogs

O inesquecível surreal café da manhã com Oscar Schmidt. Quando conheci sua patriótica raiva. Pela eliminação do Brasil no futebol, no Pan de Guadalajara. ‘Costa Rica, não! Pô..., Cosme. Costa Rica, não’

Tudo parecia um sonho. Estava infiltrado nos incríveis cafés da manhã com o Dream Team de comentaristas que a RECORD levou para o Pan de Guadalajara. Me sentia dentro de um livro de realismo fantástico de Gabriel García Márquez. Até que a bendita, e fraquíssima, Seleção de Ney Franco cai eliminada. E Oscar Schmidt olha sério para mim no dia seguinte. Como se eu tivesse culpa

Cosme Rímoli|Do R7

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Pelé e Oscar. O melhor jogador de basquete do Brasil amava futebol. Torceu para o Santos, depois se apaixonou pelo Corinthians e pelo Flamengo Paulo Withaker/Reuters

Era surreal.

Acordar no México e ir para o café da manhã no luxuoso Hilton.


A mesa mais disputada era onde estava Magic Paula.

Ela errou de carreira.


Mais genial do que foi nas quadras, só as suas piadas sujas.

Toda manhã, ela, brejeira como uma menina, falava os maiores absurdos.


Luisa Parente ria e curvava as costas para trás, mostrando a flexibilidade que contrariava a lógica, de incrível ginasta.

Robson Caetano e Xuxa disputavam quem iria acabar com os ovos e frutas de Guadalajara.


Maurício adorava falar dos treinos que iria fazer na academia do hotel. Mantinha a rotina espartana do vôlei.

Romário jamais aparecia antes do almoço.

Ana Paula Padrão surgia impecavelmente maquiada, como se fosse para uma festa de gala no Copacabana Palace.

Oscar Schmidt atormentava os chefes, atrás de ingressos para todas as competições imagináveis que tivessem uma delegação brasileira.

Eu estava no meio do Dream Team que a RECORD montou para comentar o Pan de Guadalajara.

Era o digno representante do R7.

Tinha a convicção de que a Seleção Brasileira não conseguiria ganhar o ouro. Por um motivo óbvio. A Fifa só obriga os clubes a cederem jogadores na Copa do Mundo.

E Ney Franco ficou relegado a uma equipe de jovens de talentos duvidosos. Até porque a direção da época da CBF não fez o mínimo esforço para reforçar a equipe. Por influência de uma certa rede de televisão.

Apostei em aproveitar a carona do excelente narrador Eder Luíz e de Romário para ir aos jogos do Brasil.

Mas bastou a primeira experiência para descobrir que teria de agir como segurança do ex-atacante. Os mexicanos o adoravam. E queriam fotos, autógrafos, abraços. E eu no meio, a pedido do assustado Romário, tomando cotoveladas.

Nunca mais!

Os jogos da Seleção se seguiram. Um pior que o outro.

Primeiro empatou com a também fraca Argentina.

Partida horrível.

Depois, o time de Ney Franco teve coragem de empatar em 0 a 0 com Cuba.

Sim, Cuba.

E veio a eliminação vergonhosa para Costa Rica.

Derrota por 3 a 1.

O Brasil caiu eliminado na primeira fase.

Oscar defendeu clubes de grandes torcidas de futebol. Como o Flamengo Divulgação/Flamengo

No dia seguinte, depois de implorar para as minhas velhas fontes no Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos para dividir as notícias do blog com a vexatória campanha do Brasil, sabia merecer um ótimo café da manhã.

Mal me sentei e ouço uma voz grave.

“Cosme... Vem aqui, para a minha mesa.

“Você, que é especialista, vai ter que me explicar direitinho por que o Brasil perdeu.”

Pelo tom de voz, desejei ser especialista em dança flamenca, tudo menos futebol.

Dei adeus, com dor no coração, ao pote repleto de mirtilo, que fiquei com vergonha de carregar.

O que a bela Mylena Ciribelli iria pensar se visse?

Sentei e olhei para cima.

Me preparei para a bronca, como uma criança que quebra uma vidraça.

“Costa Rica, não! Porr.. Costa Rica, não!”

Era um homem gigantesco me fitando com olhos de indignação.

Como se eu fosse o responsável pelo fracasso do time.

Olhei para o tamanho de suas mãos.

Se ele me der um tapa, adeus meus dois molares implantados.

O meu orgulho, dele saber o meu nome, logo se transformou em agonia.

A raiva de mim era verdadeira.

Estava furioso.

Como se eu tivesse entrado em campo e perdido.

Oscar não se conformava com a eliminação.

Tentei explicar.

Foi pior.

Ele gostaria que eu desse socos na mesa, prometesse que iria chacoalhar Ney Franco pelo colarinho e todos os jogadores.

E ainda levasse fotos para provar minhas agressões.

Ouvi uma fileira de palavrões.

Fiquei chocado.

Mas fui notando dor verdadeira em cada ofensa.

Era um grupo improvisado, de garotos, sem experiência ou talento especial, tanto que não vingaram no futebol.

Mas, para Oscar, eles tinham sobre seus corpos um manto sagrado.

A camisa amarela simbolizava o país que ele tanto se orgulhava.

Oscar foi ídolo também do Corinthians. E disse que 'virou bandeira'. Era santista Divulgação/Corinthians

Lógico que as palavras de Oscar não são exatas.

A situação tem 15 anos.

Meus neurônios me cobram o máximo que conseguir de precisão.

Por respeito à partida de Oscar.

Tomei uma bronca mais ou menos assim.

“Cosme, como é que o Brasil coloca um time fraco para o futebol no Pan-Americano?

Por...!

“O futebol representa nosso país no mundo. Como é que mandam jogadores fracos? Os mexicanos estão put...

“Falta de respeito.

“Eu não aceito!” e voltou a me fuzilar com os olhos. Eu já estava encolhido e procurando alguém para me salvar.

Ninguém queria enfrentar a santa ira de Oscar.

Lembrei do Pan de 1987, quando ele foi responsável por implodir os inventores do basquete e ganhar a medalha de ouro, em pleno Estados Unidos.

Lógico que o Pan-Americano era importantíssimo para ele.

Oscar se preparava para me espinafrar mais ainda.

Tomou fôlego.

Mas eis que enxerga alguém que procurava todos os dias no café.

“Greeeeeeeeeeeego...

“E os ingressos para a ginástica olímpica?

“Eu quero ver e levar a minha mulher.

“Não podemos deixar de torcer para as meninas do Brasil.”

Pronto, lá foi ele cobrar um dos chefes do Esporte, na época, da RECORD.

O Dream Team da RECORD. Piadas sujas de Paula animavam a todos Divulgação/RECORD

Me vi salvo.

Ledo engano.

Mas, desde aquela fatídica eliminação precoce até o final do Pan-Americano, Oscar me cumprimentava do mesmo jeito.

“Porr..., Cosme... Da Costa Rica, não!”

Ele não se conformava de verdade.

Ver o Brasil fracassar incomodava sua alma.

Esse é o minúsculo exemplo do amor a este país do magistral Oscar Schmidt que vivenciei.

Eu bem que poderia evitar vários encontros com ele.

Era impossível não reparar naquele gigante, de longe.

Mas aquela simples frase zangada, de um dos maiores esportistas de todos os tempos deste país, me dava orgulho.

Virou um ritual que eu fazia questão de repetir.

Ele sempre teve razão.

Em não aceitar qualquer derrota do nosso país.

Oscar Schimidt era da raríssima estirpe dos vencedores.

Aqueles não aceitam desculpas para fracassos.

Os que se orgulham e defendem, com unhas e dentes, onde nasceram.

Ainda mais vestindo verde e amarelo.

É o que chamam de patriotismo, não é?

Palavra tão em desuso.

Descanse em paz, gigante ídolo.

Agora eu entendo melhor do que nunca.

A frase que jamais ouvirei outra vez.

“Porr..., Cosme... Da Costa Rica, não...”

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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