Neymar não será punido pelo Santos, pela expulsão contra o Bahia. Rotina na Vila Belmiro, desde 2010, quando tinha 18 anos. Nem Pelé foi tão protegido
Laor, Odílio, Marcelo Teixeira. Todos os presidentes que trabalharam com Neymar sempre assumiram, silenciosamente, a dependência do jogador. E aceitaram todas as atitudes. Ficaram do seu lado. Contra técnicos, contra outros jogadores. Ainda mais agora, quando Teixeira e o pai do jogador têm vários projetos para o clube, que vão desde novo estádio até a futura SAF. Nem Pelé foi tão protegido

São Paulo, Brasil
Noite de 15 de setembro de 2010.
Pênalti para o Santos, contra o Atlético Goianiense.
Dorival Júnior vê Neymar indo para a bola, querendo cobrar.
O treinador manda Marcel bater.
O jovem de 18 anos fica revoltado.
Começa a xingar Dorival, o capitão Edu Dracena pede que se acalme, Neymar o ofende muito mais ainda.
Marcel faz o gol.
A reação de Neymar é ficar individualista, egoísta, evitar passar a bola aos companheiros.
“Estamos criando um monstro”, resume o técnico do Atlético Goianiense, Renê Simões.
No vestiário, o auxiliar de Dorival, o ex-goleiro Ivan vai cobrar Neymar.
“Sabe o que ele fez? Me jogou um copo cheio de isotônico no meu rosto”, me revelou Ivan. Atletas e seguranças tiveram de agarrar Ivan para evitar uma agressão física.
Neymar já era a grande esperança financeira do Santos, que começava a afundar em dívidas. Dorival Júnior procurou o então presidente Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, o Laor.
Foi claro. Disse que Neymar precisaria ser punido até como ‘lição para a vida’. E ele não deveria atuar contra o Guarani e Corinthians.
Laor não aceitou. Principalmente que o garoto não atuasse no clássico. Dorival Júnior insistiu e não o colocou na relação dos atletas que atuariam diante do Corinthians.
No dia 21 de setembro de 2010, o técnico foi mandado embora.
A data é um marco que vale até hoje.
Neymar se tornou intocável no Santos.
Pode fazer o que quiser.
Todo técnico que assume o clube sabe disso.
E evita conflitos com Neymar.
Faltar em treinos, fazer sua recuperação médica em casa, bater todos os pênaltis e faltas que quiser. Só deixa a equipe quando concordar com o técnico.
Não atua em gramado sintético.
Arrume a confusão que arrumar, ninguém o recrimina.
Nem publicamente nem na Vila Belmiro.
Pouco importa se ele provocou o Atlético Mineiro, ao chamar o time de ‘pequeno’, às vésperas das quartas-de-final, e não vai jogar na arena MRV. E vê os rivais motivados por sua provocação ficar com a vaga santista.
Ou agredir Robinho Júnior, em um treinamento, porque sofreu um drible humilhante. O garoto é filho de Robinho. Ídolo santista que o acolheu e o recebeu na sua casa quando Neymar era menino.
Robinho Júnior preferiu ir para o pequeno Genoa a seguir no Santos, sob o domínio do ex protegido do seu pai.
O jogador tem seu preparador físico particular, Ricardo Rosa. Seu veredicto tem um peso gigantesco para que o ídolo midiático entre em campo ou não.
Esse escudo invisível de proteção segue cada vez mais forte.
Como no lastimável episódio de ontem, quando foi expulso contra o Bahia.
O caso já é de conhecimento de todo o país.
Ele não se importou se a partida da próxima quarta-feira, o clássico contra o Palmeiras, é muito importante para o Santos no Campeonato Brasileiro, ou mesmo vencer o Bahia ontem.
Neymar tomou uma entrada forte, leal, de Rodrigo Nestor. Irritado, por cair, jogou a bola forte no peito do meio-campista rival. Veterano, sabia que se exporia ao cartão amarelo. Ele tinha dois. Se tomasse mais um, ficaria de fora do clássico. Tomou, como era obrigação do árbitro Sávio Pereira Sampaio aplicar.
Não contente, Neymar seguiu xingando Rodrigo Nestor. Ao voltar do intervalo, o santista queria mais discussão. O jogador do Bahia estava orientado para não seguir com o bate-boca, pelo técnico Rogério Ceni.
Só que Neymar não se conformou, continuou falando. Até que resolveu colocar sua mão sobre a boca, para falar. Rodrigo Nestor alertou o árbitro que expulsou o capitão santista, como manda a regra. E até um menino de cinco anos sabe que atleta algum pode esconder o que fala a um rival com a mão.
A regra pode ter o apelido de Vini Júnior, pelo jogador do Benfica, o argentino Prestianni, usar a mão para esconder a boca para fazer uma ofensa racista.
Não é só racismo que expulsa atleta. Qualquer ofensa ou mesmo o gesto de esconder a boca e falar caracteriza ataque verbal. A expulsão foi mais que justa.
Neymar não se conformou em atrapalhar o Santos, deixar o time com um jogador a menos durante todo o segundo tempo, quando a equipe teve de ‘suar sangue’ para empatar em 1 a 1, desperdiçando dois pontos mais de uma vitória necessária.
O capitão santista partiu para cima dos jogadores do Bahia, buscando agredir Rodrigo Nestor. Foi agarrado por companheiros santistas.
E ainda empurrou o técnico rival, Rogério Ceni.
Se expôs ao aumento de suspensão.
Já ficará de fora contra o Palmeiras, por conta do amarelo, e pelo vermelho não enfrentará o Bragantino. Poderá ser suspenso por tentativa de agressão a rival.
Na súmula, Sávio descreveu o que aconteceu. Ou seja, tornou oficial todas as atitudes de Neymar.
“Expulsei com cartão vermelho direto, no intervalo da partida, quando as equipes já se encontravam no campo de jogo para o início do segundo tempo, o atleta de n°10 Neymar da Silva Santos Junior, da equipe mandante, por: cobrir a boca intencionalmente com a mão durante uma discussão contra seu adversário de n°11 Rodrigo Nestor Bertalia.
“Informo que após ser expulso o atleta correu em direção ao banco de reservas da equipe visitante para confrontar seu adversário, precisando ser contido por seus companheiros.”
Fosse qualquer outro atleta, seria punido.
Como era de se esperar, Cuca sequer reclamou das atitudes absurdas de Neymar. Nem defendeu qualquer punição.
Repetiu comportamento de Adilson Baptista, Muricy Ramalho, Pedro Caixinha, Cléber Xavier e Juan Pablo Vojvoda.
Muito menos o executivo Marcelo Mattos, defensor implacável de Neymar, faça o que fizer.
O presidente Marcelo Teixeira sabe que o Santos tem uma dívida de mais de R$ 1,3 bilhão.
E que Neymar é a principal estrela do elenco.
Foi com a ajuda do pai do jogador que o time conseguiu se livrar dos transfer bans. E pôde contratar reforços importantes como Arthur, Cebolinha, Rodinei, Philippe Coutinho, Lima, neste segundo semestre.
Por isso, a velha tática sobre o vexame que Neymar protagonizou ontem.
Silêncio absoluto.
Vida que segue.
Com o jogador só voltando a campo no dia 18 de novembro, contra o Coritiba.
Neymar já marcou dez gols em 2026.
Deu oito assistências.
Só que tomou 12 cartões amarelos.
E um vermelho.
Ele segue tranquilo.
Usufruindo privilégio inimaginável.
Que nem Pelé, o maior de todos, teve.
“Pelé? Ele tomava dura do Zito. Ele fazia questão de se comportar como igual a nós. Até os treinadores o cobravam como cobravam a gente”, relembrou ao blog, o ex-ponta esquerda e parceiro de Pelé, Edu.
O Santos aceita todos seus atos de indisciplina de Neymar.
Os jornalistas denunciam, criticam, cobram.
Mas o clube é uma entidade privada, com regime presidencial.
São dez anos sem um título.
A não ser que se contabilize a vergonhosa conquista da Segunda Divisão, em 2024...
A história que julgue Marcelo Pirilo Teixeira.
Ele é a figura de maior autoridade, pelo menos na teoria, neste triste período santista.
Mas, infelizmente, é a pessoa que permite, que este veterano de 34 anos, se coloque acima do gigante Santos Futebol Clube.
E será assim enquanto Neymar quiser jogar na Vila Belmiro.
Sim, ele só irá embora quando desejar.
O que será difícil.
Sabe que em nenhum outro lugar do mundo encontrará tanta tolerância, tanta ‘compreensão’.
Neymar teve o aconchego de Mano Menezes, Felipão, Dunga, principalmente Tite. Fernando Diniz.
E até de Dorival Júnior, sim ele mesmo, que o protegia até sem ele nunca ter conseguido jogar sob seu comando com a camisa do Brasil.
Carlo Ancelotti chegou ao absurdo de levá-lo ao Mundial contundido.
Essa submissão só atrapalhou a Seleção.
Neymar só colecionou fracassos nas quatro Copas que disputou.
Pelo menos, o atleta conseguiu um patrimônio de R$ 8 bilhões.
Que é seu, de mais ninguém.
Renê Simões, você tem mais alguma coisa a acrescentar?














